Ainda a propósito das ciências sociais versus ciências exactas...

... proponho a leitura deste artigo, com destaque para este parágrafo:

"É razão para lhe perguntar: o que estão às vezes a fazer os historiadores portugueses? Há atualmente um problema gravíssimo. Os historiadores que estão na academia já estão empregados. E os da minha geração, ou abaixo dela, estão à mercê dos programas de investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Nunca tive nem pedi bolsas da FCT, mas amigos e colegas meus, que querem fazer trabalho sério, estão a ficar numa situação muito difícil. Isto devido a uma tentativa de transposição acrítica para as ciências humanas dos critérios das ciências exatas, bem como de uma ideia provinciana do que é a "internacionalização". Repare que quase todos os grandes intelectuais portugueses do séc. XX passaram pelo estrangeiro, internacionalização sempre existiu. Agora há é uma grande pressão para que só se escrevam artigos para as revistas internacionais ditas de classe A. As revistas portuguesas de História desapareceram todas. Não defendo o nacionalismo da investigação, mas, a prazo, a historiografia em Portugal pode vir a ser sufocada se estes critérios forem aplicados cegamente. Quem quiser escrever, por exemplo, um artigo de 10 ou 12 páginas sobre o Duarte Pacheco, em revistas estrangeiras, primeiro terá que explicar o que foi o Estado Novo, depois terá que fazer comparações com outros regimes e só nas 4 ou 5 últimas páginas poderá escrever qualquer coisa sobre o próprio Duarte Pacheco. Há ainda outro problema grave, que é o da cartelização das editoras, que dificulta a publicação de trabalhos sérios." [António Araújo, Jurista, historiador e consultor do Presidente da República]

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