Alguém que me explique porquê, como se eu tivesse 3 anos ou fosse muito burra?...

Alguém, algures, não se sabe como nem quando, decidiu que deveria existir uma hierarquia entre as Ciências Sociais e Humanas e as Ciências Naturais e Exactas. O génio que chegou a essa conclusão, certamente sozinho porque era tão esperto que nem nunca precisou de ajuda para atar os sapatos, nunca se deve ter cruzado com o filósofo Michel Foucault. Mesmo que o tenha feito, certamente desvalorizou esse encontro. Tratava-se de um homem das Ciências Humanas (não me fodam com a história da Filosofia não ser ciência que hoje o meu humor não dá para essas e o 10º ano já vai longe) e como tal, não havia tempo a perder com ele: havia átomos a necessitar de ser contados e essa, toda a gente sabe, é tarefa que não espera por ninguém!

Foucault teve uma infância lixada e um pai contra o qual se revoltou, tendo esses dois factores estado interligados e a influência dos mesmos sido determinante na sua formação como pessoa e filósofo. Actualmente, como a teoria psicanalítica base entrou nos nossos discursos do dia a dia, podemos facilmente inferir a culpa do pai, como se o domínio destes princípios básicos fosse o equivalente a dispor do guião para o thriller de todas as existências. Identificado o culpado do costume, prosseguimos. E quando não é o Pai, é a Mãe - dispensado que foi o mordomo, viremo-nos então para o resto da criadagem.

O facto do pai de Michel Foucault sempre o ter pressionado para se tornar um cirurgião à sua imagem e semelhança e sido responsável pela repressão da sua homossexualidade (e, aparentemente, por várias tentativas de suicídio falhadas), tê-lo-á conduzido a uma visão crítica da Medicina, especialmente da Psiquiatria. Aliás, tudo o que metia "psi" antes, Foucault cuspia com gosto. A análise da personalidade e o esmiuçar dos mais profundos desejos sempre o incomodou, tal como o incomodava a Antropologia e outras práticas colonialistas. A ideia de que, se formos lá bem ao fundo, onde os instintos se escondem no escuro e as motivações são as mais primitivas, angariou poucos aplausos do filósofo.

Adoptando uma perspectiva crítica e analisando do ponto de vista histórico, Foucault dedicou-se a investigar as formações discursivas constitutivas dos regimes de verdade (científica ou não) em diferentes períodos. O trabalho arqueológico de retroceder séculos no tempo para perceber as condições que levaram à constituição destes discursos tratou-se de um método inovador (inspirado noutros filósofos, claro) e faz com que o cartoon abaixo possa ser interpretado de uma maneira enriquecedora. Isto para os que são ainda capazes de interpretar, e não apenas de descrever e calcular.

Mais do que o trabalho de Foucault, o qual tem vindo a inspirar activistas, antropólogos, filósofos e desempregados que tais, o importante é para quem esta visão não chegou. Não chegou a todos aqueles que insistem em desvalorizar a importância das Ciências Sociais, não apenas pelo valor das disciplinas que aí se podem encontrar, mas particularmente em comparação com o império da Biologia. Somos aos 15 anos obrigados a escolher e se tivermos boas notas, empurrados para o primeiro agrupamento. Ou então, só podemos estar a fugir à Matemática. Entramos em cursos com médias patéticas, enquanto seres clinicamente superiores memorizam livros de Biologia e Química. Pensamento crítico, zero. Capacidade de juntar algumas palavras para formar um pensamento ou frase, zero ponto zero.

Somos escolhidos pelos números e isso define-nos. Valemos tanto quanto a nossa média. Ou por muito alta que esta seja, é sempre relativizada pela facilidade das disciplinas que a compõem. Não nos é exigido tanto, nem sequer somos suficientemente importantes para que se importem. O mercado de trabalho nem sequer existe.

E depois, pergunto eu, porque é que as Ciências Sociais e Humanas estão hierarquicamente localizadas abaixo das outras?... Arqueologicamente falando, encontram aqui umas pistas.



 

Comments

  1. Apreciei bastante o seu comentário ao post de hoje no blog da Maçã de Eva. Como seria de esperar, foi praticamente ignorado. Também removi a partir de hoje, o blog das maçãs do Reader. Na minha opinião, tem vindo a perder qualidade e o humor que o caracterizava.

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    1. Obrigada! Estava à espera de uma resposta parva dela a esse comentário (já no facebook a tinha bloqueado por algumas saídas menos felizes), mas nem isso. Acho que vou manter apenas o blogue das receitas onde a Maçã agora publica... Foi um post infeliz seguido de vários posts onde a pessoa em questão me pareceu estar a falar do que não sabe numa atitude de vítima, e enjoei. Pode ser que daqui a algum tempo volte lá. Dei uma vista de olhos pelo seu blogue também, vou voltar mais vezes. Volte aqui também! :)

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  2. não acho que seja uma questão de hierarquia, a verdade é que continuamos a ter demasiados alunos a escolherem as ciências sociais quando, depois não há empregos nessas áreas e talvez por isso os professores pressionem para outras áreas.

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    1. É tão giro ver aqui comentários de bloggers que eu já seguia... ;)
      Posso falar do meu caso, para veres a que me referia nesta hierarquia de valores: quando escolhi humanidades, a professora que tratou da minha inscrição no 10º ano tentou por duas vezes matricular-me no 1º agrupamento, visto que, na opinião dela, as minhas notas eram demasiado altas para o 4º. Isto não é dividir os alunos em melhores e piores consoante a sua vocação? Talvez se não houvesse à partida este tipo de diferenciação (já para não dizer estigma) o mercado de trabalho também visse com outros olhos os candidatos de ciências sociais e percebesse que um determinado curso não determina necessariamente o tipo de trabalho que estes são capazes de fazer. E que bem ensinados, os alunos de humanidades são capazes de exercer um espírito crítico que beneficiaria bastante esta sociedade.

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  3. A explicação é muito simples, tal como se segue.

    O mercado existe, a única diferença é que é (muito) mais pequeno. Basta pensar quantos médicos ou engenheiros foram necessários para construir o mundo que temos hoje, quantos se distinguiram e comparar com o número de filósofos que apresentaram alguma teoria relevante. Em relação aos alunos, a estratégia deveria ser a contrária. Sendo as perspectivas de trabalho muito mais limitadas, só os absolutamente excepcionais deveriam prosseguir os estudos nessas áreas.

    O problema desta situação é a forma como a avaliação é feita nos primeiros ciclos de ensino. É muito mais fácil simular boas notas a português, história ou mesmo filosofia do que em matemática ou fisico-química. Isso foi empurrando os alunos menos brilhantes para essas áreas, criando uma geração de incompetentes que entupiram o mercado de trabalho e roubaram os poucos postos a quem os merecia. Face a isto, um bom aluno só ingressa nas tais ciências sociais se tiver uma grande vocação. Quanto aos professores que aconselham a estudar numa área com empregabilidade, só tens de lhes agradecer.

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    1. Obrigada pelo segundo comentário parvo/anónimo do blogue. Fez-me repensar a moderação dos mesmos. Se comentamos, assinamos; ou é mais digno escondermo-nos por detrás de pseudo-insultos? No entanto, cá vai a resposta, porque acredito que a ignorância é um dos grandes males deste país e, como tal, deve ser combatida. Caso contrário, há sempre as Novas Oportunidades.
      Vamos por partes e a contar desde o início para não ser difícil de seguir. Primeiro, uma lista de filósofos: Platão, Sócrates (o bom, não o português), Aristóteles, Descartes, Kant, Marx, Durkheim, Weber, Arendt, Freud, Jung, Nietzsche, Foucault, Deleuze, Guattari, Zizek, Agamben... Na minha área, há muitos médicos que se tornaram antropólogos, cá vão mais uns nomes: Paul Farmer, Didier Fassin. É natural que a primeira e a segunda lista tragam muitas caras desconhecidas para cima da mesa. Mas lá porque não teve o prazer de se cruzar com elas, não desvirtue o seu valor. Folheie as páginas de um livro - "A Bola" não conta!
      Segundo, não entendo o que quer dizer com "simular boas notas". Quererá ter dito "avaliação subjectiva"? É que em Ciências Sociais e Humanas não há certezas, evolução ou verdades inabaláveis. Há espírito crítico.
      Terceiro, também conheço muitos incompetentes nas Ciências Exactas. E quem estuda Filosofia ou outra disciplina menor que tal, não entope o mercado de trabalho dos engenheiros. Digo eu.
      Quarto, a vocação é um tema curioso. Não deveria haver exames vocacionais para futuros médicos? Ou continuamos a obrigar que todo o aluno com mais de 18 seja empurrado para Medicina - por aqueles professores a que me esqueci de agradecer e que engrossam as fileiras dos que formam engenheiros brilhantes que salvarão o país, como José Sócrates, por exemplo? Eu também podia ter entrado em Medicina se fosse pela média. Não era a minha vocação e se fosse apenas por aí, teria dado uma péssima médica.
      Pronto, acho que já chega. São muitas letras para ler. Volte lá à folha do Excel que é de pessoas com mente pequenina que este país precisa. Os de Ciências Sociais estão cá só para enfeitar.

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