Detalhes.

Recentemente tornei-me mais cuidadosa quando recebo pessoas em minha casa. Já não passa apenas pela importância de lhes servir boa comida, feita por mim, o melhor que posso entregar a quem convido. Passa também pela decoração, pequenos detalhes para os quais despertei quando estava a organizar o meu casamento.

Tendo sido uma cerimónia pouco convencional, deu o triplo do trabalho porque não havia um protocolo a seguir. E ainda bem, odeio casamentos, desde as fotos com os salgadinhos por trás, o noivo ou a noiva de perfil, em contra-luz. Ao hábito infeliz de perguntar "sais de onde?" como se fosse passar as 12 horas anteriores dentro de um ovo. À procissão daqueles que quiseram tirar fotografias quando tudo o que uma pessoa menos quer naquele momento é uma multidão à sua volta a perguntar "estás nervosa? está tudo preparado?". E depois, 20 mil olhos postos em nós. Uma cauda que se arrasta como se fossem grilhetas e a condenada a passar da mão do pai para a do "próximo homem da sua vida"... [Entra-se com um apelido, sai-se com uma identidade oficial diferente. Patético.] Eu disse ao meu pai que ele não me levaria de braço dado como se eu fosse um cabrito a caminho do altar sacrificial, que podia perfeitamente fazer o caminho pelo meu pé e sozinha (sejamos realistas, apesar de me ter casado há menos de três meses, vivo com o meu actual marido há mais de sete anos, há pouca coisa em que ainda preciso que o meu pai desbrave caminho por mim...), mas depois retrocedi que o homem, coitado, não tem culpa dos meus preconceitos e fui a primeira de quatro filhas a casar-se. Há que encontrar um equilíbrio e, embora tenha sido intransigente em alguns aspectos, aqui tive que ceder. O que vale é que o caminho foi bastante curto e não dentro de uma igreja. Esse é outro problema que tenho: a última vez que a maioria das pessoas pôs os pezinhos dentro de uma, nem foi no chão, ia carregada ao colo dos padrinhos no dia do baptismo, mas casar tem de ser pela igreja?! Hipocrisia. Não me falem em sacramentos, que há muito mais do que isso na religião. Eu sei, fui educada por freiras. Imagino que da próxima vez que entrem numa igreja também não seja pelo seu pé, mas deitados no caixão...

Penso que o meu trauma de odiar vestidos de noiva vem daqui: no primeiro casamento a que assisti, a nubente passou com a cauda do seu longo vestido branco por cima do corpo de um cão morto à saída da igreja. Já podem ver o resultado que deu... Há anos perguntaram-me em que tipo de vestido gostaria de me casar. Ao que respondi, "se é para ir mascarada, vou de Homem Aranha!". Não fui, fui de Armani e se há dia para usarmos alta costura, esse tem de ser o do nosso casamento. Abençoo as tendências da moda do ano passado, em que os vestidos brancos se voltaram a usar, pelo que tive muito por onde escolher. O meu era preto e branco, para sublinhar a ambiguidade deste dia. Os sapatos eram pretos também que se há coisa feia (e dinheiro mal gasto) são sapatos brancos. Para isso, bastam as sapatilhas. E já agora: marfim, pérola e creme é tudo branco à mesma!!! Infelizmente não consegui os Louboutin que queria, não encontrei uns que servissem nos meus pés de Cinderela número 34, nem em Lisboa, Madrid ou Londres. Os únicos que me cabiam não eram apropriados para o casamento, embora fossem lindíssimos e os tenha visto muitas vezes nas revistas de moda, usados por celebridades que mereciam era uma inflamação do tendão de Aquiles e uma escoliose dolorosa... E o vestido era curto, sem cauda, não fosse cruzar-me com a Lassie pelo caminho...

O casamento teve, portanto, de ser todo pensado e criado de raiz. E como tenho uma certa mania de controlar  e tinha uma ideia pré-concebida muito clara do que queria, o que não fiz, supervisionei para que fosse feito exactamente como imaginei. Muito mais do que um casamento, foi uma experiência enriquecedora, para chegar ao DIA e saber que nada daquilo estaria ali se não tivesse sido pensado ao pormenor. Pelo caminho contei com o apoio de uma Madrinha insubstituível que passou para o papel as minhas ideias e as enriqueceu. O resto, mandei fazer à medida do que queria. 1% inspiração, 99% transpiração, como diria Thomas Edison.

E assim chegamos aqui, que era onde queria chegar. Depois de um casamento organizado, ficaram muitas ideias. Na minha opinião, um casamento não tem de ter grandes arranjos, nem há flores mais indicadas ou a obrigatoriedade de seguir tudo a mesma linha. Tem de ser o reflexo e uma continuação do que as pessoas já são no seu dia a dia. Não vale a pena criar um grande show para os outros se não nos sentimos confortáveis nesse papel - e isto vale como metáfora para o resto da vida... Houve muitas visitas àquele que é o grande álbum inspiracional dos casamentos actualmente, o Pinterest, onde meninas à espera que o Príncipe Encantado lhes apresente o anel, coleccionam imagens para o Grande Dia.

Uma das ideias que me inspirou, adaptada como as receitas que cozinho diariamente, deu origem ao que podem ver mais abaixo. Porque um casamento não tem de ser pré-formatado, nem fomos do tipo de "noivos" que chegam a uma quinta e lhes é apresentado um catálogo, para escolher a decoração "laranja" ou "inspirada pelas ondas do mar". Porque tem de estar muito de nós num dia que deve ser único, é importante impormos o nosso estilo e envolvermo-nos nas diferentes fases (escusam é de ser ultra-controladores como eu, mas não me arrependo por um segundo do trabalho que deu nem do resultado final). E também porque pelo caminho aprendi muito e descobri uma faceta que não sonhava sequer ter, posso agora, quando abro a porta da minha casa às mesmas pessoas que convidei para o meu casamento, recebê-los com detalhes que continuam a ter muito de mim neles.


As fotografias têm "carimbo" porque embora uns aqui vejam apenas "frascos com flores", outros vêem uma oportunidade de usurpar o que não é deles e vender ideias que não são suas a terceiros. E passa-se assim a mensagem.



Comments

  1. Tenho muito que aprender contigo...:)

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  2. Já acompanho o blog há algum tempo e hoje descobri os teus textos sobre o casamento e não pude deixar de comentar pois adorei a visão! Tem muito do que imagino para o meu, coisas simples, as pessoas descontraídas, nada das mariquices de tirar fotos com toda a gente enquanto o pessoal morre de fome, uma festa relaxada e não uma festa stressada! E civil! E sem véus de 3 metros!

    Ainda estou longe de o realizar, que não quero estar a pagar as dividas da festa até ser velha, de qualquer maneira quando acontecer será por querer partilhar a felicidade com a família e os amigos...casada já estou eu desde que juntamos os trapos, não preciso de um papel a dizer-me isso!

    Obrigada pelas tuas partilhas deste dia, gostei muito :) (e a foto oficial dos noivos...hilariante! comigo é tal e qual :P)

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    1. Ahahaha! Tens o nome da minha madrinha de casamento, sabias? Nome e apelido, foi mesmo pontaria! ;) fico contente que tenhas gostado dos textos sobre o meu casamento, há uma referência a ele sempre ao dia 16 desde que iniciei o blogue. Para mim, casamento só se fosse assim. Respeito e divirto-me muito nos dos outros, mas não seria capaz de armar aquele espectáculo todo ou de me vestir de noiva sem ter a sensação de estar mascarada. O mais importante é que cada um tenha o casamento que quer e que "os noivos"(uma expressão horrível pela qual se dirigiram a nós nos quatro meses de preparação do mesmo blah!) estejam em sintonia, sem grandes stresses nem complicações porque é suposto ser um dia feliz. Até te mostrava mais fotos, mas as pessoas que foram pagas para me decorar o casamento e por em prática as minhas ideias (sem contar com as coisas que fiz sozinha), decidiram publicar no site delas fotografias sem minha autorização e sem colocar os créditos devidos. Portanto, nao vou fazer publicidade a gente que de original e sério tem muito pouco.
      Obrigada pela tua visita! Beijinhos

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    2. xii que grande coincidência mesmo!
      e fazes bem em não fazer publicidade, acho uma grande falta de respeito publicar fotos de um dia tão intimo sem autorização.
      De qualquer maneira gostei muito do que tens escrito aqui, como já te disse o meu casamento não está para breve mas nunca se sabe quando ideias destas podem dar jeito! E eu que nunca fui a miúda que sonha com o seu casamento e com os vestidos de noiva, fiquei mesmo inspirada com o teu...damn!! :P

      beijinhos*

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