“Dogs never bite me. Just humans.” ― Marilyn Monroe

Há poucas coisas que me fazem mais impressão do que animais sozinhos na rua, abandonados, maltratados. Não consigo sentir o mesmo tipo de compaixão por uma pessoa, lamento. Acredito sempre que as pessoas, usando do seu livre-arbítrio poderiam ter mudado o seu percurso aqui ou ali, não tendo necessariamente de acabar na rua. É discutível, não é um facto, é apenas o que sinto.

No entanto, com os animais não é assim. Um animal maltratado e esfomeado na rua faz-me parar, chamá-lo, alimentá-lo, e já aconteceu, levá-lo para casa. O meu gato mais velho veio cá parar a casa porque olhou para mim do outro lado da vitrine da loja dos animais e eu disse o nome dele alto, entrei, paguei 15€ e trouxe-o para casa. Esqueci-me que ia a caminho do supermercado... Devo ter adquirido pouco mais do que 2 kg de carne rafeira de gato em vez de leite e bolachas como pretendia inicialmente, mas foi dinheiro bem gasto e já lá vão quase 7 anos.

O segundo felino que cá veio parar, ouvi-o a miar ao longe numa noite depois das aulas. Não resisti e como costumava andar sempre com comida de gato no porta bagagens do carro (e de cão e taças descartáveis!) dei-lhe de comer. Passados poucos minutos deixou-me pegar-lhe e ronronava no meu colo. Foi uma vez sem exemplo, apanhar um animal na rua. Mais tarde tive de levá-lo ao veterinário, pagar uma conta gigantesca só para confirmar que estava saudável e que não tinha qualquer doença que pudesse contagiar o outro inquilino, para depois à saída da clínica a caixa transportadora caiu ao chão e o gato minúsculo se esconder dentro do motor de um carro. Deitei-me no chão sujo e molhado da chuva, só lhe via a ponta da cauda. Pensei, "depois de gastar um balúrdio lá dentro, não ficas aqui" - e puxei! O veterinário que supostamente me estava a ajudar não o conseguiu enfiar dentro da caixa como lhe pedi e o gato mordeu-me nos dedos. Cinco minutos depois já tinha a mão toda inchada, dores pelo braço acima e tive de ir às urgências do hospital para de lá sair com uma receita de antibiótico e anti-inflamatório.

Portanto, não é falta de vontade em trazer para o meu minúsculo t1 (já com dois humanos e dois gatos) todos os animais da rua. É bom senso e uma experiência que podia ter acabado mal. Às vezes nem isto me vale, é o P. que me impede de pegar ao colo todos os cães e gatos que se cruzam no meu caminho e de lhes dizer "vá, a partir de agora, chama-me mamã" enquanto os encaminho para dentro de minha casa. Se pudesse, teria mais animais, muitos mais, todos aqueles que dormem lá fora ao frio e não têm o que comer! Mas como não posso, partilho obsessivamente apelos das associações no meu Facebook chegando ao ponto de os meus amigos me bloquearem. Ou então reenvio-lhes todos os emails que me chegam à procura de donos. Contribuo para as causas, entrego ração, areia, pago as quotas quando posso, ligo para o número de apoio da União Zoófila. Se cada um fizer um bocadinho, todos juntos conseguimos mudar a vida de alguns animais e eu sei que já mudei a de alguns, o que me leva a insistir para além da paciência e boa vontade daqueles que não sentem o mesmo que eu.

Não me convidem para touradas, não me peçam para respeitar tradições culturais absurdas (cá vai o exemplo que dou sempre quando usam este argumento: "se a partir de hoje, todos os dias às nove da noite, der um estalo ao meu vizinho do lado, passados 20 anos torna-se tradição, mas não será errado continuar?"), mas também poupem-me que há muito amigo dos animais, que automaticamente se converte em inimigo dos seres humanos. Todos nós já lemos apelos horríveis, conhecemos atrocidades feitas aos bichos, mas isso dá o direito de maltratar as pessoas? Há quem tenha de entregar os seus cães e gatos por razões económicas (já alguma vez viram os preços impraticáveis dos hospitais veterinários aos quais muitas vezes temos de recorrer porque simplesmente são mais próximos do que os mais baratos mas para os gatos é melhor fazer uma viagem mais curta? ou porque este veterinário já conhece o animal e sabe como lidar com ele? ou porque simplesmente têm mais meios para solucionar determinados problemas que clínicas de associações não têm? e que nenhuma destas despesas entra para IRS, seguros, etc?), há quem o faça porque se separou ou perdeu a habitação e não tem mais uma casa em condições para manter os seus animais (refiro-me a histórias que conheço de pessoas com cães grandes) e prefira entregá-los a quem os possa ter livres... Há reacções alérgicas que se podem revelar fatais, há animais que por terem sido maltratados por crianças, depois não aceitam a chegada de um bebé... Não julgo uma pessoa que entrega o seu animal porque desconheço as razões que a levaram a tal, mas os olhares desaprovadores dos voluntários das associações quando isso acontece, incomodam-me. Não acredito que haja raças naturalmente perigosas ou más, e sei que uma casa com animais é muito mais rica e preenchida. Há tantas razões para uma pessoa entregar um animal, mas à chegada às associações todos os donos nesta situação são tratados com desprezo como se fosse de ânimo leve que uma pessoa deixa o seu gato ou cão aí à espera de novo dono. Não é o mesmo que abandonar um animal em Junho ou deixá-lo a vaguear na rua sem se dar ao trabalho de lhe tirar a coleira...

Duvido que alguma vez deixe um dos meus gatos numa associação para ser adoptado por um estranho, mas sei por experiência própria o que é deixar um deles durante quase um ano com pessoas que se revelaram posteriormente não serem merecedoras da minha confiança - não por o tratarem mal, mas porque depois não o queriam devolver... Ganhar afecto por um animal não dá direito a ninguém de privar outros do mesmo, cobrando um favor para além do que é justo... Não fazem ideia o quanto dói separarmo-nos de um animal que não entende totalmente o que lhe vai acontecer, que fica sozinho num espaço estranho, longe da pessoa que lhe era mais próxima. E por muito que lhe digamos ao ouvido "é por uma boa razão, eu volto para te buscar, é só durante algum tempo, vou ter muitas saudades tuas...", ele não percebe nem tem obrigação de o fazer. Mas quem o deixa, entende bem demais o que custa a separação.

Por isso, queridas associações de animais, se vos mando um email a pedir ajuda para capturar um gato doente, é porque não o consigo fazer sozinha! Tratam-se de gatos errantes e eu não tenho nem os meios, nem a experiência para o fazer, caso contrário não vos contactava! Por muitos poucos meios e voluntários que tenham, não façam com que dependa de quem alerta para estas situações salvar ou não os animais capturando-os, levando-os às clínicas e, quem sabe, pagando as despesas veterinárias. Para isso, não existiriam associações de animais! 

Imagino que não tenham capacidade de assistir a todos os apelos, mas pela minha experiência e de outras pessoas que conheço, nem tudo está a ser feito para ajudar esta causa e algumas atitudes são mesmo contraproducentes. O papel das associações de animais não passa claramente por se desvincularem do propósito para que foram criadas e muito menos por alienar quem tenta ajudar e só não faz mais porque não pode. É importante também mudar o estatuto  jurídico dos animais e criminalizar quem os maltrata. Tão facilmente se manda abater um animal que ataca (e atacou porquê?) um ser humano, mas continuam a atirar-se impunentemente cachorros acabados de nascer contra paredes, esborrachando-os antes mesmo de poderem ladrar, em vez de esterilizar as mães. Podemos instituir a segunda-feira sem carne, informar-nos sobre os malefícios do consumo da mesma, mas não me venham com tretas que se uma pessoa gosta de animais e não apoia a tourada tem necessariamente de ser vegetariana. O importante é fazermos escolhas informadas e de acordo com a consciência e possibilidades de cada um, sem julgamentos. A propósito deste discurso pré-formatado que é muita vezes utilizado contra quem defende os animais, é contra as touradas, mas mesmo assim consome carne, lembro-me sempre de um cartoon onde se via claramente um dedo a apontar para um dente canino com a legenda em baixo "Vegetarians, explain this!"...


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