Ensandecendo ao sábado.

Não entendo aqueles casais que não se despegam um do outro. Ele é braços entrelaçados, beijos repenicados, perna sobre perna, o espaço público é um conceito subjectivo. Odeio jantar com "casais amigos" (uma das minhas expressões mais odiadas e que me lembra sempre o primeiro passo antes de um encontro de swingers) e de repente, ainda nem limparam a boca ao guardanapo, agarram-se em beijos. Pá... menos! Somos quatro à mesa (ou seis, ou oito, desde que venham aos pares) e há sempre um casal que se lembra de namorar em público. E depois é suposto nós fazermos o quê? Beijamo-nos também? Fazemos-lhes festinhas na cabeça? Suspiramos um longo "ohhhhh"? Ignoramos que há coisas que se fazem a dois e, preferencialmente, em privado? Enfim...

Esta bela introdução para explicar porque é que ao fim de semana, quando nos encontramos os dois juntos no T1, durante 48h, a coisa começa a descambar. Não falo de discussões. Falo de partilharmos o mesmo humilde espaço, apenas os dois, ocupados de tarefas domésticas, tendo apenas no outro o interlocutor.

Geralmente a coisa descontrola-se quando vamos para a varanda estender a roupa. Na rua de trás mora um papagaio que assobia o dia todo, porque está pendurado na janela e gosta de socializar com quem passa. O P. cedo percebeu que se lhe assobiar cá de cima, o pássaro responde a mesma melodia lá de baixo. E então eles vão assobiando um ao outro alegremente enquanto eu estendo a roupa, até lhe gritar "já chega de tanta conversa, não achas?!" Depois vêm as cantigas, as cantilenas, os trocadilhos que acabam sempre em "... alho" e que constitutem verdadeiros jogos de palavras hardcore com base em acções inocentes como passar a ferro, por a loiça na máquina, ou limpar a mesa. Quem o conhece sabe como é criativo a inventar alcunhas, desconhece é o jeito que tem para todo um rol de actividades parvas.

Depois ponho o aspirador automático a funcionar, e o P. fala com ele. "Não vás por aí, não vês que já está limpo?" ou "Deves ser parvo, passas a vida a ficar enrolado nos cabos eléctricos." É UM ASPIRADOR!!!

Hoje, almoçávamos na varanda enquanto conversávamos sobre medidas de austeridade, manifestações e se estragava os carros lá em baixo caso deixássemos cair um balde de água aos indignados que por ali passavam gritando slogans que de tão patéticos, não conseguiriam de maneira alguma angariar simpatizantes para a sua legítima causa. Só gargalhadas e algum embaraço. Por cima de nós ouviam-se os helicópteros a sobrevoar a multidão que se reunia umas ruas acima. E eis que, ao discutirmos filiações políticas, lhe digo: 

- Tu podias era ir para o Partido dos Animais. Tinhas integração directa.
- Então porquê?
- Porque és uma besta!
- Davam-me um Doutoramento Honoris Causa.
- No teu caso, Honoris Cauda!

O que nos rimos os dois. Graças a deus, temos ambos um sentido de humor negro e perverso, senão a coisa nunca resultaria.

Ah, o amor...

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