Filhos.

Tenho ouvido por todo o lado pessoas afirmar não haver condições para ter filhos nesta economia. Que está difícil, que se adia mais um ano até não poder mais, que a incerteza no futuro é de tal modo opressiva que não há como não adiar. Eu também uso essa desculpa e contra mim aqui falo. 

Dei por mim a questionar o meu próprio discurso e a considerar-me hipócrita quando me lembrei de um vídeo há tempos muito popular no facebook. Um rapaz com 20 e tal anos mostrava no seu Iphone o vídeo dos Deolinda "Parva que Sou" enquanto se queixava que não tinha posses para sair de casa dos pais porque o mercado de trabalho o considerava demasiado qualificado e, por isso, não encontrava emprego. E eu pensei para mim mesma "e se vendesses o Iphone, achas que aí já conseguias pagar as tuas contas?".

E foi isso que mexeu comigo, porque eu também utilizo essa desculpa. Que isto está difícil, que não há maneira de gastar com filhos, que as despesas que tenho actualmente já me chegam e sobram, que desconheço onde o futuro me levará. É a desculpa que uso quando pessoas que nada têm a ver com a minha capacidade reprodutiva me questionam "porque é que ainda não tiveste filhos?!" ou então "tens de te despachar, o teu irmão passou-te à frente!". Nunca pensei nisto como uma competição, mas admiro o trabalho que tanto o meu irmão como a minha cunhada têm feito com aquele menino. Se há algo pelo que competir, claramente já perdi. Não porque me "atrasei" a ter filhos e foi ele, o segundo na linha de sucessão, a originar o primeiro herdeiro, mas porque não seria capaz de fazer o que eles fizeram. 

E é aqui que as minhas desculpas se esgotam. Porque se eu quisesse, já teria tido filhos. Claro que não está fácil. Claro que o futuro é incerto, os cortes são mais do que muitos, a austeridade imposta obriga a sacrifícios, mas se eu quisesse mesmo... então não teria um Iphone, não gastaria o meu dinheiro em cremes ou roupas, não viajaria, não sairia tantas vezes para comer fora ao fim de semana.. Ainda há muito por onde cortar. 

Não estou a ver os pais que conheço - os meus incluídos - a terem este tipo de despesas extra. Os pais que conheço, andam cansados, afunilam os seus rendimentos cada vez mais magros para os livros da escola, as roupas dos filhos, os medicamentos na farmácia. O tempo disponível não é gasto em auto-comiserações, adiando as visitas ao ginásio, a suspirar pela próxima peça do catálogo da Zara. Estas são as minhas "preocupações", não são as preocupações de uma mãe. Ou da mãe que eu desejo um dia vir a ser.

Portanto, sejamos francos. Eu não quero ter filhos para já. Não sinto essa vontade, não considero os sacrifícios a fazer para o ser minimamente válidos ou oportunos. Não são essas agora as minhas prioridades e não vou culpar toda a conjuntura social, política e económica pela minha indisponibilidade para a procriação. Acho que uma de mim neste mundo, por agora, chega e sobra. 

Por isso da próxima vez que ALGUMAS PESSOAS se vierem queixar para cima de mim que não podem ter filhos porque não dá ou porque o Passos Coelho (o grande contraceptivo nacional) não deixa, eu vou dizer-lhes que comecem por analisar se não estarão a transferir sentimentos mal alocados para terceiros. O que me continua a incomodar aqui é que, se eu quisesse ter filhos, seria bastante difícil tendo em conta a crise que se instalou. Esta crise torna tudo muito mais complicado, mas não impossível. Bem vistas as coisas, se eu quisesse mesmo, não conseguiria realmente contornar esta situação? Não sou uma pessoa totalmente desprovida de bens. Tenho mais segurança no futuro do que a maioria dos portugueses e para isso conto com duas pernas, dois braços e capacidade de trabalho (não é assim uma diferença muito grande). Assim, só me resta considerar uma opção: admitir para mim mesma que não quero ter filhos. Para já, não. Um dia talvez venha a ser tarde demais e me arrependa. Mas também pode ser que eu até lá reorganize as minhas prioridades e deixe de considerar culpado meio mundo pelas decisões que tomo diariamente.

E já agora, senhoras de meia idade preocupadas em saber se os meus ovários ainda funcionam, da próxima vez que me chagarem o juízo com as questões da praxe sobre o facto de eu estar casada e ter dois gatos em vez de filhos, então aí nós vamos iniciar um tête à tête sobre os vossos ovários, a vossa menopausa e tudo o resto que vem agarrado à descompensação hormonal... Porque considerando que o discurso do "não pode ser agora porque a vida está difícil" está arrumado, se vocês podem fazer da minha biologia conversa de café, então eu terei todo o gosto em fazer o mesmo à vossa.



Comments

  1. ahah gostei especialmente do último parágrafo!! :D

    xx

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  2. Muito bem escrito. Eu penso o mesmo, até já escrevi sobre isso, embora não pese o fator financeiro, de todo, no meu caso. Não tenho filhos já porque não quero, porque há muita coisa da qual teria de abdicar (e nem sequer tenho iphones:P) e ainda nao me sinto minimamente preparada! Vejo e ouço (e leio!) pais que se queixam mais do facto de terem filhos do que se regozijam...eu um dia quando tiver filhos quero ter a certeza que foi a melhor decisão da minha vida e não ficar a lamentar-me pelos cantos pelo que já não posso fazer e ser uma infeliz. E eu sinto que há tanta mãe com vontade de viver outra vida...faz-me uma confusão dos diabos! E portanto, para a maltinha que se lembrou de começar a perguntar por filhos eu respondo logo " Tenho três de 4 patas e estou muito bem assim!". E estou.:)
    E o que não falta é muito paizinho a queixare-se da crise e depois tem todos iphones e ipads e coiso!

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    1. Subscrevo tudo o que disseste. Acho que o factor financeiro aqui não é mais do que um disfarce para as razões anteriores. Acho que existe um factor sócio-cultural muito importante, sendo este apenas mais uma variante da história toda, que é muito complexa. Como se espera que chegada a uma determinada altura, com um determinado estatuto, as mulheres comecem a parir, então aí todos os argumentos são válidos. O que quis salientar aqui foi a hipocrisia de alguns discursos, incluindo o meu. E sim, também estou muito satisfeita com os meus gatinhos, que no coração para mim são filhos, e se há coisa que estes dão é despesa (então quando estão doentes!)...

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  3. É por isso que eu fiz seguro para os meus! Com tanto dinheiro que às vezes se gasta em porcaria e dado que não é incomportável, fiz já há quase 2 anos! o meu é o Pétis do Millennium, e embora não goste deste banco como instituição bancária (nem sequer lá tenho conta, não é requisito!), na parte dos seguros tem corrido tudo bem, já utilizei 3 vezes! Aconselho, que ir ao vet com os 4 patas é dose...:S

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    1. oh pá a sério que compensa mesmo? há uns tempos andei a pensar nisso e informei-me um pouco, mas depois desisti. a ver se ainda esta semana publico aqui a nossa odisseia no vet no ano passado, vais-te rir de desespero...

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