Não vou à manifestação.

Durante a semana passada ainda considerei ir. Discordo das medidas do governo, especialmente das últimas anunciadas. Não entendo como podem considerar aumentar as receitas com o acréscimo das contribuições para a segurança social, ao mesmo tempo que está para lá de provado que as grandes empresas vão ser as mais beneficiadas e isso não terá vantagens imediatas na taxa de emprego. Continuam a ignorar os cortes na despesa pública, se bem que se formos a ver bem, ao terem proposto os cortes nos salários e a retirada dos subsídios dos funcionários públicos, a diminuição da despesa estava lá. Mas depois eles refilaram, levaram as queixas ao Tribunal Constitucional e como tal temos estas últimas medidas que nos afectam a todos. Estaria errado? Não sei. Só sei que um funcionário público raramente é despedido e isso parece-me bastante inconstitucional também. O que foi bonito ver depois da nega do Tribunal Constitucional, foi a rapidez com que aqueles que hoje clamam pela união do povo, vieram gritar a alto e bom som: "se é para pagar, ao menos não estamos sozinhos!". A alegria destas almas meteu dó. Que não são cidadãos de segunda, que trabalham como os outros, que inconstitucionais não são as medidas de austeridade, mas que eles sejam os principais prejudicados. Pois. O que é facto, é que se lixe a Troika, mas sem ela nem salários havia.

E depois de ter ouvido os discursos de Passos Coelho e de Vítor Gaspar, senti que neste país, onde anda toda a gente desesperada por um emprego, quanto mais se trabalha, mais se paga. Não duvido que medidas destas vão contribuir para o aumento do mercado paralelo, do chico-espertismo de quem sabe contornar o sistema, recebendo subsídios de desemprego, outras regalias que tais sem que exista a fiscalização devida sobre quem realmente merece ser apoiado e em quê, e acumulando com verdadeiros salários por fora. 

Quando já estava convencida a ir apesar do meu pânico de multidões (há anos atrás fiquei presa num mar de gente, mal tocava com os pés no chão, pelo que desde então evito Santos Populares, concertos, festivais de verão e tudo o mais onde a manada se junte) e de estar certa que hoje certamente haverá molho, mudei de ideias. Não deixo de apoiar quem vai. As pessoas têm o direito de se manifestar e devem fazê-lo. Acredito que quando o Paulo Portas acabar com a coligação após a aprovação do Orçamento de Estado, o governo vai cair e isso acontece independentemente de quantos se manifestam [o povo é quem mais ordena?...] Fiquei particularmente sensibilizada pelos testemunhos de pessoas que, tal como eu, acreditavam que as medidas de austeridade eram um mal necessário e foram aprendendo a fazer mais buracos no cinto - sim, porque apertado até à última já ele estava. Pessoas que afirmam não compreender o porquê de lhes tirarem a esperança e o chão debaixo dos pés. Que se vêem obrigadas a considerar a emigração porque já não vêem o porquê de tantos cortes. 

Mas depois começou o disparate. Comentários parvos sobre "agora que te vão ao bolso já estrabuchas?" e "sair à rua na VFNO não invalida que vás à manifestação". Parece que uma pessoa perde consciência social porque quer aproveitar uma noite como a do passado dia 13, onde o comércio de rua estava claramente a ser beneficiado e isso estimula a economia, o turismo e, verdade seja dita, a auto-estima de quem aparece, porque deprimidos já nós andamos. Estes comentários fizeram-me lembrar os tempos idos na licenciatura na Nova, onde uma cabeça achava e cem acéfalos seguiam. E quem não seguia, era fascista. E viva a tolerância, hein? Já agora, e se cosessem essa palavra nas bóinas do Che que tanto gostam de passear pela esplanada, se calhar era da maneira que não se esqueciam dela e se lembravam de ir ao dicionário ver o que significa.

Por isso desisti de ir, porque mais uma vez vi a acção a perder o significado e o conteúdo. Há maneiras diferentes de fazer valer o nosso ponto de vista e de levarmos este país para a frente. Uns escolhem manifestar-se ao sábado nas ruas, outros tentam perceber a complexidade do fenómeno e encontrar soluções que não passam por empunhar uma mini na mão direita e um cartaz vermelho na esquerda.

Se gosto do Passos Coelho? Não, cada vez menos. Como disse anteriormente, só voto no Partido dos Animais. Se o PSD é pior do que o seu sucessor socialista? De maneira alguma, o Sócrates deveria ser levado à justiça como fizeram na Islândia aos seus políticos e enfiar num sítio que eu cá sei a sua máxima de "a dívida externa não se paga". O Guterres deveria ter vergonha na cara por ter deixado o país de tanga e agora andar a passear-se com a Menina Jolie por entre negrinhos esfomeados. E pelo caminho, o Durão Barroso também escusava de ter usado a política nacional como pista para vôos mais promissores. Se quisermos, até podemos ir mais atrás e combater o mito do sebastianismo em que já fomos grandes e um império e agora não sei como chegámos a este estado, e ai ai ai... Sugestão: abram um livro de História de Portugal e, em qualquer página, encontram a resposta a estas e muitas questões. Nunca fomos um país que investiu em si próprio. Preferimos gastar o dinheiro dos Descobrimentos (já agora, descobrimos o quê? o que já lá estava? e quanta da força do império assentou nos ombros de escravos?) em elefantes, em castelos e em mosteiros ao mesmo tempo que importávamos a farinha do pão que comíamos. Mas por favor, não me venham cá com tretas que grande foi o Salazar que tirou 25% do seu vencimento "para dar o exemplo". De cada vez que este país se afunda (um bocadinho mais) tentam ressuscitar este senhor. Gente de memória curta... Ao menos hoje, têm a liberdade de se manifestar, se ele ainda por cá andasse, duvido que saíssem à rua.

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