Quando uma imagem vale mais do que mil palavras.



Quando esta imagem apareceu, supostamente fez correr muita tinta nos jornais, não só portugueses como internacionais. Uma rapariga algarvia, crente num mundo mais justo onde o dinheiro não dite as regras do jogo, abraçou de livre iniciativa um agente da autoridade durante a manifestação de 15 de Setembro. Perguntou-lhe se não preferia estar do lado dos protestantes e ele respondeu-lhe que estava apenas a fazer o seu trabalho, afastando-se sem violência após o abraço.

Procurei na internet as reacções da imprensa internacional a esta fotografia e os maiores hits do google encaminharam-me para o 9gag. Páginas depois, não vi qualquer referência a entradas na CNN ou BBC. Se se procurar por "portuguese girl + officer" continuamos a deparar-nos com páginas e páginas sobre a Maddie. 

Continuei à procura e aparentemente "girl+hug+police officer" vai dar a outro tipo de hits...

No entanto não deixo de me questionar: se a menina em questão não fosse bonita, mas uma matrafona de 90 kg, estrábica e dentes tortos, a imagem teria sido objecto de interesse nem que fosse apenas da imprensa nacional? Há várias imagens que se tornaram ícones pela manipulação mediática de que foram alvo [lembro-me, assim de repente, do soldado a beijar a rapariga no fim da guerra e que pelos vistos era de ascendência portuguesa; da criança subnutrida alvo dos olhos gulosos do abutre no Sudão e cujo fotógrafo foi tão criticado por não a ter socorrido que se suicidou meses depois; do homem a andar tranquilamente em frente aos tanques na Praça Tiananmen; do cadáver de Lenine em exposição no seu caixão de vidro; etc etc...], pelo que não me espanta que no caso português, a precisar de suporte que ateste os seus brandos costumes, esta fotografia da rapariga algarvia tenha feito sucesso. A violência dos cortes da austeridade versus a manifestação pacífica dos participantes (embora saibamos que os petardos explodidos no local não tenham sido remanescências dos Santos Populares...). Esta imagem tinha todos os ingredientes para funcionar e durante uma semana foi tema de conversa, pelo menos, nas redes sociais.

Quando o assunto parecia perder o interesse, eis que a Revista VIP consegue puxar-lhe o lustro e conferir-lhe novo glamour. Não há ícone político, social e democrático que escape a uma boa produção fotográfica em mini-saia, umbigo ao léu e, de preferência, "não paga" (o lucro da venda das revistas reverte para?...). E assim se expõem, os valores portugueses, levados até si através deste grande veículo da democracia que é a imprensa cor de rosa.

Só espero que a Adriana consiga capitalizar em mais vertentes os 15m de fama que lhe foram atribuídos. Dizem que no país está difícil arranjar trabalho...

Daqui.


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