Trabalhar em casa, manual de sobrevivência.


Algumas pessoas pensam que trabalhar a partir de casa é um sonho. Não aturar patrões, não vestir roupa desconfortável, fazer o próprio horário, pausas à medida do freguês. Porém, a realidade não é assim nem poderia ser, porque para que alguém considere estas opções como mais válidas do que as suas, claramente não pôde ter estado deste lado. Não digo que seja pior, nem digo que seja melhor. É diferente, sem dúvida, mas tem desafios e obstáculos como qualquer outra profissão. Ou será que é mais um caso de "a galinha do vizinho é sempre melhor do que a minha?"...

Incomodam-me bastante algumas "bocas" insinuando que arrastei quase até aos trinta anos a vida boa de estudante, como se o que faço fosse menos trabalho e mais lazer. Até parece que não temo mais medidas de austeridade, não me aflige a falta de perspectivas laborais ou o pagamento da conta do gás. Não que me deitem abaixo as observações desinformadas de quem não parou dois minutos para considerar a veracidade do que diz, mas perturbam-me a sua frequência e a facilidade com que as pessoas fazem juízos de valor sem considerar a amplitude dos factos. Talvez se vos apresentar a minha versão da história vos ajude a reflectir antes de falar?...

O patrão continua a existir. Somos nós. E quanto mais exigirmos de nós, mais exigente será também o nosso trabalho. E às vezes este chefe está muito mal humorado e parece que não sai da nossa cabeça, literalmente. Não há colegas, não há uma secretária onde pousar os papéis. Não há companhia, não há partilha. Há o mesmo caminho do quarto para a frente do ecrã do computador. Dias a fio, que se tornam em semanas, que se abrem em meses e se prolongam por anos. A acção decorre sempre dentro das mesmas quatro paredes.

A roupa confortável é um mito. Há muita roupa no meu roupeiro, com a etiqueta pendurada, à espera de ser usada porque do quarto à sala, não faz muito sentido pôr a mala nova ao ombro. E há um limite para quantas vezes se consegue usar aquela peça de algodão e as calças elásticas que apertam com um fio. Sabe bem sair da cama, tomar banho, vestir a nossa melhor roupa, por maquilhagem e sentir que isso nos dá mais confiança para enfrentar um novo dia. Também sei - porque já estive nessa posição - como é cansativo repetir as mesmas rotinas, mas estas ajudam a iniciar algo, a recomeços diários, a dar um sentido ao trabalho e à vida. Não as ter durante demasiado tempo, força-nos a criar as nossas, mas gestos automáticos, se tiverem de ser racionalizados, tornam-se um peso. Quando a mudança de roupa é praticamente mínima, a confiança também parece que não acompanha o ritmo. É muito importante, na minha modesta opinião, mudar de uniforme: o de casa, em casa; o do trabalho, no trabalho. Quando estes se confundem meses a fio, perde-se um pouco a noção de quando um começa e o outro acaba, nunca conseguindo desligar totalmente de duas realidades que se querem distintas. 

Fazer o próprio horário? Se passo o dia em casa a trabalhar (lamento, mas a minha profissão não me permitiu auferir de um posto de trabalho, de subsídios de alimentação, férias, natal, desemprego e regalias que tais, que para uns são direitos inabaláveis, e para outros como eu, são uma quimera; o trabalho, no entanto, também o fiz como qualquer pessoa), quando começa um horário e acaba o outro? Pode iniciar-se às 10h mas também pode acabar depois das 23h ou prolongar-se pela madrugada dentro que ninguém me paga mais por isso. Ninguém me manda para casa quando chega a hora de picar o ponto, nem é possível desligar um do outro totalmente, nem sequer geograficamente. Também não há trânsito ou transportes para apanhar, eu sei. Mas como comecei por dizer, há vantagens e desvantagens, não apenas as primeiras.

Pausas? Há intervalos que ninguém quer fazer. E há pausas intermináveis. Há outros factores que também contribuem para a produtividade: colegas de trabalho, socialização, partilha de ideias, o caminho de casa para o trabalho, as pausas ritmadas de quem sabe que caminha para algum lado. Quando temos de ser nós a fazer o caminho, a procurar a orientação, a definir o destino, a lutar por ele todos os dias mesmo sem ver um porto seguro, o que outros consideram "rotinas", "monotonia", para mim tornam-se marcadores de um ritmo que garante alguma segurança, nem que seja a segurança de haver um caminho a percorrer. Experimentem fazer o oposto todos os dias. Construir o vosso local de trabalho. Criar as rotinas. Caminhar sem orientação definida. E depois digam-me se vale a pena trocar tudo isso por roupa confortável e horários personalizados.

A mais-valia? Saber que, quando chegar ao fim, o mérito de todo este esforço será apenas meu.


Comments

  1. Isto é 100% verdade, MJ:)

    Beijinhos

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    1. Quando vi MJ pensei, ou é esta menina ou a Senhora Consultora... Obrigada por passares por aqui! E boa sorte para o teu "trabalho doméstico" também! =)) *

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