We Need to Talk About Kevin

Há uns meses atrás, quando o filme saiu, deparei-me com uma série de posts em blogues de meninas arrepiadas com o filme "We Need to Talk About Kevin". Houve poucas que se tivessem inibido de expor o óbvio: que se trata da história da mãe de um serial killer, mas não um qualquer, de um rapaz responsável por um massacre na sua escola. Sem dúvida um tema que nos arrepia a todos, ou não chegassem frequentemente dos Estados Unidos notícias sobre acontecimentos semelhantes. Como disse a autora, Lionel Shriver, os seus livros anteriores são igualmente bons, este limitou-se a tocar num tema extremamente sensível e que vende bem actualmente. Porém, a história é muito mais do que isso e mexe em tantos níveis que dificilmente se consegue condensar o essencial - talvez por isso as reviews tenham sido quase sempre centradas sobre o mesmo...

Quando demonstrei interesse em ver o filme, uma amiga disse-me que não o deveria ver antes de ler o livro. Novamente, a velha máxima - "o livro é muito melhor do que o filme" - mas não, ela avisou-me que o livro era muito mais do que um massacre estilo Columbine ou uma exposição à la Michael Moore. "É um livro sobre relações." Ok. Ofereceu-me um pequeno calhamaço de 475 páginas em inglês, estilo livro de bolso e eu levei-o comigo na viagem a Nova Iorque. "Assusta? É que se assusta, não o levo no avião porque já vou suficientemente nervosa." Não assustava, mas o estilo da escrita não estava adaptado a uma viagem de lua de mel - nem o tema (curiosamente só depois me apercebi que a história decorre precisamente em Nova Iorque e arredores...). Deixei o livro para o Algarve, embora já suspeitasse à partida que não seria o tipo de literatura fácil a que a praia convida. Mas como não me convencem a gastar quase 20€ na "grande" obra deste verão - o que mais senão "As Cinquenta Sombras de Grey"?... -, de entre os meus amigos ninguém se descose se o comprou ou leu, além de que para ler soft porn os velhinhos Harlequin são mais em conta, então lá levei o "Kevin" comigo para a praia. 

Devo dizer que não é uma escrita acessível e o facto de estar a ler a obra no original, não ajudou. No início, tropeçava em termos que não conhecia e irritava-me porque não tinha o dicionário à mão. No entanto, quando comecei a entrar na história em vez de me perder em detalhes, esses pequenos obstáculos deixaram de fazer sentido.

Eva - adoro a escolha do nome, a relação com aquela que trouxe o pecado para o mundo - é casada com Franklin e ambos levam uma vida boémia. Partilham um loft em Nova Iorque, ela viaja pelo mundo, compilando a informação necessária para os seus guias de viagem. Funda uma empresa de sucesso e até aos 37 anos não sente qualquer instinto maternal. É uma mulher que se empurra diariamente para fora da sua zona de conforto, ao contrário da sua mãe, agorafóbica que se barricou dentro de casa após a morte do marido na guerra, convicta de que se o perigo se encontra lá fora.  Franklin funciona como uma âncora, prendo-a a tudo aquilo que Eva não é. Ele é republicano, está disposto a fazer sacrifícios por uma família que ainda nem tem e luta contra os instintos e intuições de Eva para alcançar o seu sonho de "picket fence" tipicamente americano: uma casa nos subúrbios onde envelhecer, criar os filhos, viver um futuro previsível. Nota-se que a autora se esforçou para apresentar uma inversão dos papéis de género e alternativas às expectativas sociais habituais nestes casos: a mãe que não o quer ser, o pai que tenta forçá-la a um tipo de vida mais caseiro e conservador. A atracção de Eva pelo desconhecido empurra-a para esta relação em que os opostos se atraem. A perspectiva de perdê-lo convence-a a "ter um backup" - haverá maneira mais egoísta e crua de descrever o futuro filho? Sim. Quando Eva diz que a gravidez equivale a deixar a porta de casa aberta durante nove meses: qualquer estranho pode entrar. A partir daqui a questão que se impõe é: até que ponto é que esta falta de vontade em receber um ser foi transmitida a Kevin ainda no útero ou seria ele realmente mau? Natureza/cultura, livre arbítrio/destino?

De uma maneira mais prática, até que ponto é que as mulheres serão boas mães, naturalmente? É algo que nasce connosco ou que se vai adquirindo? Os filhos são sempre uma benção? As crianças são naturalmente boas, serão tábuas rasas ou a sociedade é que as perverte? E por último - até que ponto é que uma mãe pode ser considerada culpada dos erros dos filhos e os filhos dos erros das mães?

A história complica-se com a chegada de Celia e atribuir as culpas do desapego à mãe ou ao filho torna-se mais difícil. Uma criança adorável, o estereótipo da menina loira, frágil e a que nenhum adulto consegue resistir. Excepto Franklin, que não é capaz de perdoar a Eva a sua falta de ligação a Kevin, as acusações e recriminações constantes que esta faz ao filho. Por fim não lhe consegue perdoar a sua afeição a Celia. Se por um lado Eva parece intuir a verdadeira personalidade do filho, Franklin esforça-se por ver sempre o lado bom de Kevin, "suavizando a verdade". As suas desculpas são verosímeis e levam-nos a questionar a sanidade de Eva. Percebe-se que Kevin, por sua vez, não perdoa ao pai a incapacidade de o ver como realmente é e o castigo que reserva para a mãe faz-nos perceber que sim, este é um livro sobre relações. Sobre a relação mais primária e básica, a que nos define. Kevin não seria o que é, nem teria massacrado os colegas se não tivesse a ligação à mãe, aquela que ele deixa viva porque não faz sentido montar um espectáculo sem audiência.

Se por um lado se trata de uma relação destrutiva, é também altamente simbiótica. Um não existe sem o outro e a capacidade reflectiva de Eva, ao escrever as cartas a Franklin onde expõe a sua versão dos acontecimentos, permite dissipar conceitos pré-definidos, cavar mais fundo no seio das relações e dos significados que estas carregam, colocar novas questões. Escrita como se de uma etnografia se tratasse, o estilo de Lionel Shriver é altamente descritivo e racional, mas ao mesmo tempo emotivo e tocante.

Por outro lado, o filme não fica de maneira alguma aquém do livro. É a mesma história, mas apresentada de uma perspectiva completamente diferente. Muito simbólico, silencioso, vale-se das cores e da expressões da protagonista - Tilda Swinton está genial! A sua face angular parece ter sido martelada com a dor da experiência que relata. Talvez por ter acabado de ler o livro dias antes, preenchi os vazios do filme e interpretei os silêncios servindo-me das histórias que o filme não conta. Vale a pena combinar os dois, se for possível, mas nenhum se sobrepõe.

Lembrei-me agora que mal referi o massacre na escola... mas no filme o massacre também não é central, nem sequer é mostrado aos espectadores. Tudo o que fica por mostrar e dizer, na minha opinião, perder-se-ia na publicidade gratuita e protagonismo desnecessária que os "meninos de Columbine" ganham. Como diz Eva, ninguém se lembra do nome das vítimas.

Na minha opinião, We Need to Talk About Kevin, merece 5 estrelas no Goodreads.

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