And this is why I love Alberto Gonçalves!


"(...) Durante anos, o equívoco justificou a "certificação de competências", excentricidade pretenciosa que gerou as Novas Oportunidades e esqueceu que no mundo real as competências não precisam de ser certificadas: as incompetências, conforme demonstrado no apetite de alguns políticos pelo diploma, sim. Sob as regras da oferta e da procura, importa bastante menos o papel que diz o que as pessoas podem fazer do que aquilo que as pessoas podem verdadeiramente fazer." in Sábado n.º 430

As minhas amigas que tanto gostam delas que me perdoem, mas tenho um ódio especial contra as Novas Oportunidades. Admito-o. Deve ser por isso que adoro quando criticam este pseudo-programa que deveria servir mais do que adoçar as estatísticas que o nosso país tem de apresentar à UE. Houve uma certa necessidade do Estado incorporar no seu exército meninas das Ciências Humanas, tal como as enfermeiras e as donas de casa do Estado Novo educavam e formavam os pobres deste país. Não interessa que o trabalho por elas (sim, também deve haver uns quantos eles...) seja mecânico, automático, insuficiente, desnecessário, redundante, repetitivo e tudo o mais que caracteriza este programa. O que interessou foi contratar pessoal com salários e direitos que, digamos, nem toda a gente pode auferir nesta economia. Um problema comum a um número elevado de FP [aqui, FP substitui funcionário público, não filho da puta, agradeço que não confudam]. Além do mais, vejamos: quantas vezes essas mesmas pessoas que lá trabalham e eu conheço se vieram queixar do mesmo? Que é um programa desenhado para alcançar um fim hipotético (se desconsiderarmos as estatísticas já referidas); que os objectivos propostos pelas NO raramente são alcançados; que as pessoas se queixam que não pretendem certificar competências; que esta é uma formatação que lhes tentam imprimir; que os alunos se queixam que querem é trabalhar; que estudos foram feitos que comprovam a baixa empregabilidade dos antigos alunos das Novas Oportunidades; que têm de ser as técnicas a incutir-lhes as vantagens e utilidade do programa? "Vamos ensiná-lo a cuidar de si, para que no futuro o Estado não tenha de o fazer." Isto também me faz lembrar qualquer coisa... E já empunho na minha mão o cartaz anti-neoliberalismo!

Mas depois também há o outro lado: o daqueles que sabem que se não frequentarem o programa, não terão direito ao subsídio de desemprego. Ou aqueles que percebem que não necessitam de se apresentar regularmente no centro de emprego e de mostrar carimbos de entrevistas que provam estar activamente à procura de trabalho, se se sentarem frente a uma técnica e jurarem a pés juntos que o maior erro da sua vida foi terem deixado a escola aos 12 anos para ajudar a família em casa, que o seu sonho sempre foi pelo menos acabar o 9º ano e quem sabe entrar na universidade, que vêem os filhos fazê-lo agora e não querem ficar para trás? E pronto, estão isentos das suas obrigações para com o centro de emprego. Alguns frequentam os CNOs religiosamente, outros são enviados para casa para elaborar um trabalho com a sua história de vida. Desde quando é que viver se tornou uma competência a certificar? Se eu cortar as unhas todas as semanas dão-me um certificado de manicure?... E porque é que as etapas da vida têm agora de ser autenticadas, reguladas, carimbadas, inseridas num currículo e trocadas por algo de mais valor, digamos, um emprego? Nunca fui grande aluna a matemática, mas ou muito me engano ou nesta equação, vida = emprego. Anos de história económica não chegam para explicar como uma vida (de sucesso) se tornou num bem consumível e passível de figurar num currículo.

Quando um dos grandes momentos nas vidas destas pessoas é aquele em que seguram o canudo da Universidade onde se licenciaram em Ciências Sociais, penso que esta história também poderia chamar-se: "como voltar a trabalhar na caixa do Minipreço em várias lições". Não percebo porque anda tanta gente a insistir em ter um curso superior se ainda há tão pouco tempo ficámos todos escandalizados porque um serralheiro ganha o dobro de um engenheiro. É um país de doutores, claro está. Mesmo que isso no fim do dia não valha, literalmente, nada. Porém, doutores há muitos e de vários tipos. De cursos que pouco interessam, mas de outros que interessam muito e que apenas com 3 anos de Bolonha conseguem um emprego e respectivas regalias.

Outro reflexo deste espírito do programa das Novas Oportunidades é o das bolsas de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. São as Novas Oportunidades para os mais crescidinhos. Senão vejam lá: "ora vamos então distribuir aqui umas quantas bolsas que há dinheiro, não interessa se as pessoas são efectivamente boas ou más a investigar o que quer que seja, mas o lobby em que se inserem, o orientador que as apadrinha e outras cenas". Havia dinheiro para gastar, mas não se parou para pensar se faria sentido haver tantos doutorados em Portugal. Lei da oferta e da procura - anyone? O que talvez tenha feito sentido foi criar pseudo-contratos de trabalho para que investigadores sem direitos laborais pudessem fazer ciência em Portugal por muito menos. E que os professores catedráticos que criaram raízes nos seus cargos mantivessem privilégios, ordenados e, logicamente, investigassem e publicassem um pouco menos. Agora que acabou o dinheiro e a crise obriga a cortes na educação, bye bye doutorados e pós-doc's. Vão-se estes, fica a velha guarda - como sempre, aliás. Depois também ninguém se lembrou de pensar se haveria mercado de trabalho para tantos doutorados e em que condições estariam a ser geridos estes novos programas doutorais, mas isso já são outros quinhentos...

Da minha experiência, posso afirmar que a certificação das incompetências reina no programa de doutoramento que frequento. Ou não seria de espantar ter sido um professor do ISCTE da minha área a certificar as (in)competências do Sr. Relvas/Dr. Relvas na Lusófona onde... ele nem sequer trabalha! Além disso, para quem não sabe, os bolseiros não são estudantes. São trabalhadores. Não têm direito a subsídio de férias quando acabam as suas bolsas. Mas são trabalhadores. Não têm nem nunca tiveram subsídios de férias nem de Natal. Mas são trabalhadores. Não têm um vínculo laboral. Mas são trabalhadores. Muitos de nós nem um posto de trabalho possuímos, ficamos em casa. Mas somos trabalhadores. Não temos direito a subsídio de alimentação, mas, espante-se!, também comemos. Não fazemos IRS, não temos direito a uma conta-ordenado nem podemos solicitar um empréstimo à habitação. Mas somos trabalhadores. Além disso, não somos meros licenciados de um curso qualquer que exige um emprego e um salário no fim do mês. Recebemos bolsas de mérito (alguns com mais outros com menos mérito, mas isso cabe aos avaliadores e às universidades manterem a exigência e não pensarem só em números no final do ano lectivo), estudamos há anos a mesma temática, somos especialistas, somos mão de obra altamente qualificada (e muito barata), representamos um grande investimento em tempo e dinheiro não só nosso, mas do nosso país e da UE. Que mais querem que vos diga? Ah, mas há sempre o senhor "3 anos de Bolonha" que repete lá ao fundo: "Mas porque queres esses direitos todos? Ainda estás só a estudar." Claro que enquanto o panorama laboral não se alterar, não há maneira de mudar mentalidades, uma a uma, e eu tenho mais o que fazer do que aturar ignorantes.

Ah, com isto tudo esqueci-me de explicar o porquê do título. Porque adoro o Alberto Gonçalves? Porque pensa pela sua cabeça. Porque disseca os fenómenos, apresenta-os com espírito crítico, expõe alternativas. E ou muito me engano ou também deve ter andado numa Faculdade de esquerda onde não pensar com o rebanho era alvo de perseguição. Sim, porque tolerância é só para o que é considerado ser tolerável. Tudo o resto é fascismo.

Ainda bem que na Universidade onde andei um professor tinha o prazer de gozar com os alunos de boina e chapéu à Che Guevara perguntando-lhes se já tinham lido o Capital. Não era de direita, nunca ninguém lhe chamou fascista. Mas sempre me fez rir. 

Comments

  1. Adorei o texto! ainda temos muitos preconceitos, gostamos de exibir um canudo!

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