Do aborto.

Sempre tive uma posição ambígua em relação ao aborto. Respeito o corpo das mulheres e as suas decisões, mas nunca caí em feminismos extremos até porque se queimasse os meus soutiens, seria a primeira a lamentá-lo. Fazem-me uma falta terrível todos os dias! Não consigo assumir e nunca o aceitarei, que fazer um aborto é uma decisão DA MULHER. Tanto quanto a minha inteligência consegue alcançar, um feto, um bebé, é património genético de um homem e de uma mulher. Para mim esta premissa é muito simples. Assim sendo, como pode caber apenas a uma mulher, dando primazia ao controlo sobre o seu corpo, a decisão de terminar uma gravidez? Deus nem sequer é chamado para estas questões; tanto quanto me foi dado a conhecer, a alma é uma construção sócio-cultural e a religião o ópio do povo.

No entanto, porque apenas num mundo utópico e ideal poderia ser possível que pai e mãe estivessem sempre de acordo acerca destas questões, que os pais (homens) estivessem presentes para dar consentimento em tempo útil a problemas do género e que não houvesse manipulação dos futuros rebentos para gerir as relações entre ambos, aceito que a opção mais válida seja a que a lei portuguesa actualmente reflecte. Não concordei com a questão colocada há anos em referendo e, como tal, não votei. A questão estava mal formulada, não me pronunciei. Pronuncio-me agora. Ainda está para ser encontrado um regime que a meus olhos, proteja as minorias face às maiorias, e como tal, muitas vezes não voto não porque seja preguiçosa em descer à Junta de Freguesia para exercer "o meu dever", mas porque não me identifico com partidos e propostas de lei. Faço-o com plena consciência dos meus actos (ou falta deles). Tenho o direito de não o fazer, embora este não esteja consagrado na Constituição, porque temos o dever de votar e não o direito de não comparecer. Porque não uma reflexão mais cuidada sobre a abstenção cada vez mais elevada em vez da resposta da praxe: "os portugueses são preguiçosos, depois queixam-se!"?

Parece que antigamente ninguém se podia pronunciar democraticamente e muito menos as mulheres. A minha Avó votava em tudo quanto era partido, referendo e levantamento democrático. Não lhe fora dada essa opção durante anos e, como tal, quando pôde fazê-lo, fez valer a sua opinião tantas vezes quantas a saúde lhe permitiu. E ainda abraçou o Mário Soares. Eu não nasci antes do 25 de Abril e não consigo pensar como ela pensava. Pelo contrário. Actualmente sinto que vivo numa República em que os líderes partidários de uma democracia bicéfala saltitam entre promessas utópicas e oposição oca. Parece que gozam com o quanto foi difícil conseguir uma democracia para este país. Como tal, custa-me a acreditar no que me é apresentado. Opto por votar no Partido dos Animais ou, muitas vezes, de consciência limpa e depois de muito reflectir, não voto. Chama-se controlo sobre as minhas perninhas e livre arbítrio. Sue me.

Assim, quando referendaram a Lei do Aborto, depois de muito reflectir sobre o que me estava a ser proposto e analisando a maneira como a questão foi formulada, optei por não votar. Não concordava que o ónus da decisão estivesse 100% do lado da mulher, fora os casos já previstos pela lei. Por outro lado, entendia o aborto do lado de quem fez trabalho de campo em organizações como a Ajuda de Mãe, onde crianças impúberes eram educadas para seguir e assumir um modelo de maternidade pré-definido onde o aborto nem sequer era opção. Também conhecia os diversos métodos para evitar uma gravidez indesejada, contados em primeira mão pelas protagonistas, bem como as maneiras de "prender um homem". Vítimas e compaixão, uma combinação mortífera.

Oscilava entre as duas posições, mas não conseguia, de consciência tranquila, seleccionar apenas uma. Poderia ter descido à Junta e votado em branco, mas o não-voto é igualmente válido, na minha opinião. "Nem sequer me dou ao trabalho de ir aí - interpretem isso agora!". Se a abstenção é tão elevada, talvez a solução não seja recriminar o povo e apelidá-lo de preguiçoso ou desinteressado. Talvez seja importante reformular os cânones onde assenta a vossa democracia, ou têm vocês mais razão porque estão do lado do poder e têm acesso aos microfones?

Quando a solução final foi alcançada, suspirei de alívio. No final, que valha o livre arbítrio de cada um. Mesmo que isso não respeite directamente a opinião dos homens-pais em relação a terminar uma gravidez, que sejam as pessoas "livres" de fazer o que entendem com as suas vidas. Se eu não admito que se intrometam na minha vida e caso estivesse num aperto, daria um saltinho a Badajoz sem dar justificações a mais ninguém que não o "pai da criança" [grande som, já agora], porque não assumir que outras mulheres poderão fazê-lo também sem ser perseguidas?

Mantive esta mentalidade em relação ao aborto seguindo a máxima "live and let live". Não se metam na minha vida, que não me meto na vossa. Deverá o SNS responder pelo livre arbítrio de cada mulher, até às "x" semanas? Sim, na minha modesta opinião. O SNS é fruto da contribuição de muitos indivíduos pensantes e, como tal, deve existir para servir a maioria. É nisto que assenta a democracia, não é?

No entanto, há dias após uma tarde com o meu sobrinho, olhei para ele e pensei subitamente para comigo: "sou contra o aborto!". Não raciocinei. Não reflecti sobre questões metafísicas sobre a vida antes do parto, a eternidade das almas ou propostas de lei. Simplesmente olhei para ele e soube que, face a tudo e face a todos, queria defendê-lo. Se alguma vez foi posta na mesa a hipótese de ele, simplesmente, não estar entre nós, então não queria compreender essas razões. Não me interessam as contas ao fim do mês, as agruras do dia a dia, as decisões difíceis. Há dois anos atrás ele não estava cá. Ponto. Aliás, estava, mas era pequenino e tão fácil de ser descartado. Mas agora está e faz parte de todos nós. Faz-me tão feliz olhar para a felicidade dele. Dá sentido às nossas vidas, em partes pequeninas. Faz-me sorrir lembrar-me do seu sorriso. É tudo tão simples e descomplicado (para mim, que sou tia, claro está).

Como por vezes parece que tenho prazer em encarnar o velho do Restelo, a única maneira de me redimir nestes casos é deitar as cartas todas na mesa e partir para a batalha, tentando controlar todas as premissas. Se todos os fetos têm o potencial de nos trazerem o que este bebé nos traz, onde cabe a lei do aborto, tal como está formulada actualmente? Nem todos os bebés são recebidos da mesma maneira, eu sei. Não sou inocente nem ingénua. Não conheço a realidade de cada um. Conheço algumas pessoas que optaram por terminar gravidezes e outras tantas que as levaram até ao fim. Estou só a dar o meu ponto de vista, a quem é pedido que se pronuncie democraticamente sobre estas questões, mas que ao mesmo tempo não é directamente influenciada por elas.

Rezava assim a última página do livro que terminei recentemente, sobre a eutanásia e testamento vital, temas tão próximos da problemática do aborto e que, como tal, levantam questões semelhantes:

"De acordo com J. S. Mill, nenhuma questão, moral ou empírica, pode ser resolvida em absoluto, o que nos obriga a admitir que as nossas respostas deverão ser temporárias, pelo que temos de aceitar a sua revisão. A verdade, ou mais correctamente, a "maior verdade" - uma vez que, segundo ele, a Verdade nunca poderá ser atingida - surge do conflito entre as opiniões falsas e as verdadeiras (ou, seguindo-o, as mais falsas e as mais verdadeiras). Isto leva-o a defender que nunca se deve suprimir uma opinião, por mais chocante que seja, porque, se o fizermos, nunca chegaremos à mais justa. Mais do que noutros campos, é na moral que se torna necessário adoptar uma atitude humilde. Se quisermos chegar a uma conclusão, teremos de aceitar debater com todos os opositores, mesmo com aqueles que, por serem fanáticos, mais repulsa nos causam. É da discussão que nasce a luz."
("A Morte", Maria Filomena Mónica, 2011)

Alguém que me responda a estas questões, que eu simplesmente não consigo.


Comments

  1. são questões muito complicadas. Tenho filhos e quando olho para eles não me imagino a tomar uma decisão dessas. Se viesse outro era bem vindo, mas há casos extremos, violações, quando está em causa a vida da mulher, são questões muito complicadas!

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    1. atenção, apesar de me referir ao "aborto" no sentido geral, nao me refiro aos casos de violações, mal formações de fetos ou problemas de saúde da mãe. Refiro-me a interrupções da gravidez sem ser nestas situações que são inquestionáveis para mim.

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  2. A questão é complexa. Como dizes na citação, nem tudo pode ser resolvido de forma absoluta.
    Coloco duas questões?

    1. Será legítimo obrigar alguém a ter um filho que não deseja, ou que se suspeite não terá condições para o criar? Pode sempre dá-lo para adopção, infelizmente esse processo é doloroso e bastante traumático para as crianças. Conheço casos (a minha mãe toma parte nos processos de adopção), em que os pais devolveram as crianças adoptadas. Tipo loja de roupa. Ou outros casos em que as crianças sofriam maus tratos, passavam fome, vagueavam na rua.

    2. Será legítimo o SNS (ou seja os contribuintes) financiar o aborto? E no de múltiplos abortos numa pessoa? Um aborto, OK pode acontecer, preservativo rompido, rapariga teve um gastrenterite e a pílula não teve efeito, etc.. Agora, usar o aborto como meio contraceptivo? Discordo em absoluto. No entanto, estes casos são frequentes em jovens com 14/15/16 anos. Já vi uma rapariga de 13 anos grávida, chocou-me profundamente. Não passava de uma criança. Ainda por cima afirmou que tinha ouvido, "à primeira não se engravida". Como é possível tanta ignorância???

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    1. Levantas duas questões que não me tinha colocado ainda, tornando a história ainda mais confusa.
      Em relação à primeira, podemos sempre argumentar que há muitos bons casais que passam anos à espera de uma criança ou que lidam com miúdos muito problemáticos. Assim, a adopção resolveria a questão do aborto. Mas e nos casos em que as famílias adoptivas são como descreveste? Ou se o pai quiser manter a gravidez até ao fim e a mãe não, actualmente só se respeita uma opção. E se a mãe quiser e o pai não, já se discutiu o abandono dos deveres parentais para que não haja casos de mães que tentam prender homens com gravidezes "não planeadas".
      Em relação à segunda questão, não sei como se faria essa triagem. "Ok, o primeiro aborto pagamos, quanto ao segundo está por sua conta." Claro que o SNS está cada vez mais preocupado em cortar despesas, mas vê este exemplo: uma conhecida minha decidiu abortar porque tinha acabado de ter um filho e não queria outro de seguida. Então foi ao médico (ela é turca, posso ter entendido mal, poderia ter querido dizer parteira...) e ele deu-lhe uns medicamentos que tomou em casa, onde abortou. Se tiver sido assim mesmo, o custo para o estado é o de uma consulta e de um medicamento. Independentemente das razões pelas quais o fez e se foi o primeiro ou o segundo, qual o papel do SNS aqui?
      Quando fiz a pesquisa para a monografia da licenciatura estive vários meses na Ajuda de Mãe a analisar as concepções do parto, maternidade e cuidados infantis. Cheguei a resultados surpreendentes. Há muita ignorância, mas também há muita "sabedoria". Ouvi mães dizerem-me que medicamento tomaram antes para abortar e como tinham optado por não o fazer aquando da segunda gravidez. E como era fácil de arranjar... Ou outra adolescente que, quando engravidou, a própria mãe lhe apontou uma arma à cabeça para a obrigar a tomar o dito medicamento. O que ela fez, para depois fugir de casa passados uns meses e engravidar, de propósito, do mesmo namorado, para depois viver dependente de instituições como esta. Ou de outra miúda que teve um filho com uma epilepsia grave e foi "aconselhada" a colocar o Implanon, mas que me disse sem vergonha que mal acabassem os 3 anos do contraceptivo, iria "dar um filho" ao namorado que actualmente a ajudava a criar o primeiro. Ou a história da educadora de infância da creche da Ajuda de Mãe, oriunda de uma família da Lapa e com uma mãe muito devota da Opus Dei, que engravidou aos 19 anos e, quando a filha nasceu, se tentou suicidar com Xanax. Continuo?...

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  3. È complicado saber se estamos de acordo ou contra. Sempre achei que a mulher devia de decidir. Quando foi feito o referendo não tinha dúvidas. Hoje já não tenho certezas. Mas há momentos na vida das pessoas que têm essa díficil (quando racional) decisão a tomar. Há muitos factores que nos podem influenciar. Se hoje , com 50 anos, penso de uma maneira , há 20 pensava de outra.
    PS: quando digo racional é que há pessoas que não têm qualquer problema em recorrer ao aborto como método contraceptivo. e isso não é racional.

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    1. tal como disse no início, não concordo que a mulher deva decidir sozinha, porque o filho é de ambos, mas as maneiras de contornar isso podem não ser as mais práticas. acho que as pessoas desvalorizam o impacto físico e emocional na mulher aquando de um aborto quando acham que a liberalização conduzirá a cada vez mais casos em que aborto = método contraceptivo. por isso, não concordo com o que a maria disse. mas concordo que a nossa opinião possa mudar, especialmente com o tempo.

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