Há demasiada realidade em cada dia.

Hoje voltei ao cabeleireiro onde passei a manhã a arranjar-me no dia do meu casamento. Já lá não voltava desde essa data. Aproveitei para mostrar as fotografias do grande evento ao grupo de cabeleireiras, manicures e esteticistas que cuidaram/me mimaram nesse dia. Fizeram-me sentir especial e hoje também. Curiosamente, todo esse ritual sucedeu a uma discussão que podia ter dado para o torto. Ninguém o adivinharia, excepto a minha irmã que, mal olhou para a minha cara, disparou directamente à ferida - "discutiste com o P.?".

Tudo deve seguir um determinado ritmo e se, tal não acontecer, fingimos. Ninguém admite o primeiro divórcio, mas todas assumem a certeza por trás de um segundo casamento. Ninguém nos prepara para o dia a dia das misérias quotidianas, para as feridas abertas e para o descontentamento. Crescemos a sonhar com o Príncipe Perfeito e depois de várias tentativas, quando encontramos aquele que mais se aproxima dessa imagem construída, desvalorizamo-lo. Há demasiada realidade em cada dia. Não há contos de fadas. Nada ou pouco acontece como nos prometeram. Se em criança oscilávamos entre vir a ser bailarina ou veterinária, ninguém nos sentou e disse "ouve, só podes optar por uma carreira, só tens uma vida". Abriram-nos as portas, escancaradas. Começámos a sonhar e voámos dali para fora. Porém, quando a realidade chama, muitas vezes não estamos preparados para colocar de lado os nossos sonhos, para dar um passo atrás e pedir desculpa, para assumir os erros e estarmos preparados para que nem tudo aconteça como sonhámos. Pretendem que sejamos mais do que eles e melhores. Que alcancemos os sonhos que eles colocaram de parte porque - olha, quem sabe se não terei razão? - tiveram filhos. Então cabe-nos a nós correr até à meta que eles traçaram para si. Temos de ser melhores! Temos obrigação de chegar mais longe e de empunhar o testemunho, se eles o deixaram cair porque e quando nós aparecemos.

Nesse 16 de Junho, saí do cabeleireiro sozinha, toda maquilhada e de cabelo arranjado. Entre o salão e a casa do meu pai, percorri uns 200 metros. Estava sozinha. Nesses passos coloquei-me esta questão: "e se eu não aparecesse?". Ninguém estava à minha espera naquele preciso momento. Ninguém poderia contabilizar que estaria a sair do cabeleireiro àquela hora. Simplesmente cada um andava na sua vida, preparando-se para a festa. E eu, sozinha, caminhava do cabeleireiro em direcção a casa pensando "e se eu não aparecesse?". Pouco me interessou que cada um estivesse a preparar-se para "o nosso dia" ou que me tivessem preparado a mim. Naqueles passos senti a atracção do abismo. Tinha demasiada liberdade naquele caminho e ele poderia ter-me levado a qualquer lado. Poderia não ter aparecido.

E aí, como teria sido o meu dia hoje? 


Comments

  1. Acho que isto acontece mais entre as raparigas do que entre os rapazes. Crescemos a sonhar com o casamento perfeito, o marido perfeito, a família perfeita. Mas isso não existe. Em lado nenhum, com ninguém. Mesmo aqueles casais que parecem ser o par perfeito têm problemas. Todos têm. Acontece no entanto que alguns conseguem aceitar melhor os defeitos do que outros e vivem melhor com isso, mas é ilusão pensar que não têm problemas. Têm.
    O caminho não será tanto pensares como seria se não tivesses aparecido. Já tinhas percorrido o caminho até ali, era porque tinhas muitas certezas e isso é que importa.
    Um ano depois, viveste uma nova experiência, uma nova adaptação e isso nem sempre é fácil. Há muita coisa em que temos de ceder, de nos adaptar, ... Mas no final é bom. :)

    xoxo

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    1. 4 meses, nao um ano. Foi uma lembrança de um típico caso de "cold feet" num dia que estava a correr mal... ;)

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    2. Onde é que eu fui buscar 1 ano?! Não tens nada a dizer que foi há 1 ano! É assim a mente humana :DD

      xo

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  2. Opa...que dizer sobre este post...que dizer? Que sim, que concordo, que é isso e às vezes mais...não sei se percebi tudo na íntegra mas as tuas palavras fizeram-me muito sentido.

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    1. Eu às vezes nem para mim faço muito sentido. No entanto, o importante a reter aqui é: independentemente do que nós ou outros projectamos para a nossa vida, há sempre uma janela de oportunidade para mudar, se o quisermos. Temos de saber encontrar essa brecha quando é preciso. No meu caso, fiz a escolha certa, mas se nao a tivesse feito, como seriam os meus dias hoje? Got it? ;)

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