Isto não é um review do novo 007...

... porque eu tenho mais o que fazer do que debitar sinopses e spoilers, ainda para mais de filmes que não gostei. Para mim o cinema, tal como os livros e a música, servem como ponte para outras reflexões. Se a arte não nos ajudar a transcender, o que terá esse papel na nossa vida? 

This being said...

Ontem fomos convidados para a ante-estreia do novo filme do James Bond, "Skyfall". Nunca fui fã do género. Minto. Lembro-me que quando a SIC estreou passava os domingos a assistir às dezenas de filmes do James Bond. Sean Connery, Timothy Dalton, Roger Moore e um quarto cujo nome não ficou para a história. Depois, mesmo sendo uma criança, percebi que aquilo era tudo sempre a mesma coisa e desisti: uma música emblemática na introdução, muitas maminhas de senhoras diferentes, aventuras irrealistas. Máscaras de oxigénio de 8 minutos mas que permitiam ao 007 lutar meia hora com 25 inimigos debaixo de água. Saltos em queda-livre para cair em cima de aviões a pique e conseguir pilotá-los. Enfim. Seja como for, a fórmula Bond versus um vilão super poderoso e com um plano supostamente perfeito para conquistar o mundo + o seu exército de mercenários dava sempre = a herói que escapa com alguns arranhões e acaba aos beijos com a mocinha. 

"Skyfall" não é muito diferente. Realizado por Sam Mendes, celebra os 50 anos da saga e abre caminho para uma nova era Bond. O meu último 007 tinha sido o Pierce Brosnan, ainda nem tinha dado uma chance ao loirinho Daniel Craig. Tinham-me dito que este era mais lady friendly e que a nova fornada de filmes não era tão "oh no that didn't just happened!" como os anteriores. Porém, fora a relação dele com a M. mais aprofundada, uma rápida incursão no seu trauma de infância e a interacção com Miss Moneypenny e Q., não há muito de novo. Aliás, das poucas cenas que me cativavam eram mesmo os diálogos de James Bond com estas personagens, carregados do frio humor britânico. Para além disso, enfiaram o actor quarentão em fatos Armani um número abaixo do que habitualmente veste para destacar os seus ombros direitos e ângulos rectos. Adoro geometria e simetria, mas quando é forçada, simplesmente no mi gusta. Em relação à honra de ser escolhida para Bond Girl (alguém se lembra do nome de alguma que tenha ficado para a história?), esta coube à francesa Bérénice Marlohe e - surprise!!! - sex followed by death. Desculpem, esqueci-me de avisar que vinha aí um spoiler... mas se conhecem os filmes, não deveriam ficar surpreendidos.

Posso dizer que, para mim, o melhor de longe deste filme é a interpretação de Javier Bardem. Aqui também não deveria haver surpresas, tendo em conta a qualidade deste senhor como actor. Acima de tudo, é extremamente versátil. Já fez de tetraplégico, de serial killer, de amante espanhol e ainda arrebatou a Penélope. Em James Bond interpreta o vilão, o qual, em termos de maldade, classificaria ao nível de uma Cruella de Vil - para mim a personificação de uma verdadeira megera, não fosse o seu objectivo de vida esfolar 101 cães bebés para fazer casacos de pêlo! Em termos físicos, o novo arqui-inimigo de Bond sofreu uma caracterização brilhante. Para terem uma ideia, imaginem um vilão versão Eduardo Beauté meets o albino do Código Da Vinci.

Em relação à música, sinceramente não me surpreende que tenha sido Adele a escolhida. É a cantora inglesa mais badalada dos últimos tempos, as suas músicas tocam em todas as rádios até à exaustão. Eu até gosto no início, mas depois acabo por odiá-las a todas porque esgotam o seu potencial com tanta repetição. Na minha opinião, há bandas sonoras bem melhores de James Bond. "Skyfall" parece ascender, ascender, ascender... para não chegar a lado nenhum. Ora dêem-me a vossa opinião:


E agora a parte interessante. Sempre que vejo filmes sobre espiões do MI6 lembro-me que quando estudava em Cambridge, uma professora estava destacada para, entre os seus alunos, recrutar futuros agentes. Responsável pela disciplina de Antropologia do Terrorismo e outras semelhantes, sabia que os futuros antropólogos recebiam formação universitária que os capacitava para esta profissão: dominavam vários idiomas, tinham espírito crítico, estavam treinados para não julgar e sim para compreender as diferenças "culturais" e, em casos extremos, seriam capazes de elevar o método da observação-participante ao nível esperado pelo MI6. Nunca me cheguei à frente para contactar esta professora, nem foi do meu interesse alguma vez vir a ser espia (embora haja uma certa tradição na família visto que o meu avô foi convidado para trabalhar na Scotland Yard, mas isso são outras histórias...). No entanto, da próxima vez que alguém em Portugal me perguntar o que faço e eu responder que sou antropóloga, escusam de responder "antropó-ahnnnn?!" seguido do "mas isso dá para fazeres o quê?". A resposta, a partir de agora será, invariavelmente: 007


Comments

  1. :) Sabias que a minha opção, antes da sociologia, foi Antropologia? Ainda tive quase um ano no ISCSP, mas depois mudei de curso (sociologia no Iscte)!

    ReplyDelete
    Replies
    1. O ISCSP é horrível em Antropologia, deves ter ficado com uma ideia péssima do meu curso. Sabes que o meu pai foi professor no curso de Sociologia do ISCTE? Mais uma coincidência... ;)

      Delete
  2. Oh, não! Tanto spoiler, que já perdi o interesse. :( No entanto, acho que o Craig esteve muito bem no Casino Royal.

    ReplyDelete
    Replies
    1. Não, não digas isso! Vai ver e se achares que estou errada, sente-te livre de partilhar a tua opinião! Não vi o Casino Royal e já me falaram bem desse filme também. Como não sou fã do género, terá de ficar para outras núpcias... ;)

      Delete
  3. 007, isso ainda existe? ahah
    Também acho que deves responder "007" a partir de agora, pelo menos nunca mais se esquecem do que é Antropologia! :)

    ReplyDelete
    Replies
    1. E está previsto o Bond 24 ou lá como lhe chamaram para 2014!

      Delete

Post a Comment

Popular Posts