Madrinhas.

Há pessoas que nos seguem a vida toda. Por vezes, nem nós sabemos bem porquê. Estão lá, estamos habituados, mas na prática não nos trazem nada de novo. Ou melhor, trazem maus vícios e atrasam-nos. São pessoas com quem não aprendemos muito, ou como diz a minha madrasta, "andamos a puxar a sua carroça". No entanto, porque as conhecemos desde sempre, não faz sentido que nos descartemos delas. 

Eu tenho um grande defeito, que na minha opinião, é uma qualidade admirável. Modéstia à parte, claro. Acredito que um amigo o é, até deixar de o ser. Não é uma entidade inviolável e imperecível. Um amigo não faz determinadas coisas porque, simplesmente, gosta de nós e nos quer bem. Se as faz, então andamos enganados àcerca do conceito em causa. Assim, quando o meu instinto me permite detectar falsos amigos, frequentemente não reajo bem. Pior do que alguém andar a passar-se por meu amigo, para depois contar o que lhe confidencio a terceiros (por exemplo, membros de família patéticos, cheios de manias e com vários segredos no armário, mas que não se inibem de promover os valores morais que os outros devem manter, levando muito a sério o provérbio "faz o que eu digo, não faças o que eu faço"), é eu acreditar que essa pessoa não me falhará quando mais precisar dela. Porque aí, meus amigos, é que a coisa se torna mais evidente. Aí não há contemplações. Simplesmente, a coisa não se dá. E é aí que eu saco da minha agenda telefónica e apago o contacto em questão.

Nem vale a pena colocar aqui exemplos, como seria de meu interesse descarregar, tendo em conta que este espaço é meu. A carapuça serve a quem de direito. Porém, vale sempre a pena apresentar o reverso da moeda. Aquelas pessoas que nos fazem querer ser melhores, que são um exemplo porque mantêm a cabeça de fora de água, apesar das adversidades. Que não se contentam em ficar no colinho dos papás, mas que aprendem o que eles lhes querem ensinar quando estes os atiram para fora do ninho. Que se sujeitam a viver em condições miseráveis porque a alternativa a essa situação seria perder o orgulho e a dignidade. Porque têm uma ética de trabalho exemplar quando toda a gente se queixa porque perdeu o subsídio. Que afirmam "quando algo corre mal, não procuro nos outros a causa, tento aprender com os meus erros para da próxima dar o meu melhor". E aplicam isto! Porque poderiam sempre ter escolhido o caminho mais fácil e cómodo, mas optam por lutar pelo que acreditam. Porque apesar das dificuldades, assimilam na sua vida o que gostariam de ver nos outros, tornando-se assim exemplos complicados de seguir. 

Assim, não poderia senão ter escolhido para minha madrinha de casamento, uma Super Madrinha. Há pouco tempo estivemos juntas e ela disse-me que era um orgulho ter sido escolhida, mas gostava que ela soubesse que se há alguém que tem o privilégio de a ter por perto, essa pessoa sou eu. Às vezes fazemos as escolhas erradas porque não as questionamos, quando as correctas estão tão perto que nem as vemos. Quando alguém se mantém do nosso lado quando precisamos e a tomamos como garantida, por vezes o pecado encontra-se em não apreciarmos o valor desse gesto.

A minha Super Madrinha iniciou um novo capítulo na sua vida. Veio morar para perto de nós. Saiu de um ninho da esquerda lunática, envolta no nevoeiro das suas próprias convicções e sedativos, para assumir novas responsabilidades. Numa altura em que todos atiramos o ónus da culpa para o vizinho do lado e culpamos terceiros pelo desfalque no mealheiro pessoal, ela decidiu que era tempo de colocar um ponto final numa situação provisória que ela própria não tinha escolhido. A solução mais cómoda e fácil passaria - como passa sempre - por ficar. Por isso é que me irritam as pessoas que se queixam e queixam, sem fazerem nada para mudar a situação em que se encontram. A culpa é do patrão. Do namorado. Do marido. Do vizinho de cima. Que seja. Independentemente disso, podemos sempre mudar. E se alguém muda sem rede de segurança, quem somos nós para dizer que não o podemos fazer também?

Por isso, parabéns P. És mais do que a minha madrinha, és a minha pessoa.

Comments

  1. É preciso ter coragem para dar uma viragem nas nossas vidas. Tudo o que envolve e implica essa mudança, por vezes, nos impede de dar esse passo.Tem que ser muito refletido e quando se dá não se deve olhar atrás.

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  2. "Quem muda Deus ajuda" já dizia a minha avó :) Beijinhos*

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    1. Essa não conhecia, mas a tua avó tinha razão! ;) bjs

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