Ok, quem deu com a língua nos dentes?!


Isto não é normal. Andava eu na minha vida a pensar em gatinhos e a suspirar por companhia nestes longos meses do doutoramento que se arrastam, quando decidi criar um blogue. Queria partilhar o que sinto, o que penso, organizar as minhas ideias. Partilhar as minhas receitas, porque cozinhar é 50% do que me faz feliz. Andava às voltas à procura de uma receita de piripiri, que não achava em lado nenhum. Alguém do outro lado da linha disse, "pára tudo que eu peço ao meu pai a receita dele!".

Entretanto perguntei quem queria aderir aos estudos de mercado e recebo alguns emails com dados pessoais. Se fosse eu, provavelmente não daria o meu nome completo, telefone e morada a outra estranha, por muito simpática, inteligente e gira que eu suspeitasse que fosse julgando pelas gentis palavras no seu blogue (cof cof cof!!!!... que já me engasguei...). Eu ganharia uns pontos na minha conta aquando da sua adesão, mas quem lê desse lado teria de se expôr um bocadinho. Não seria uma troca completamente justa, daí a surpresa quando recebi esses dados. Entretanto a troca de emails decorreu amigavelmente e fomos conversando sobre vales de desconto, receitas de piripiri, animais e uma série de bitches com quem nos cruzamos pela vida fora.

Para ser muito sincera, eu não acredito no altruísmo, sou demasiado desconfiada e cínica. Acho que a vida me fez assim. Acredito que mesmo o acto mais altruísta traz consigo gratificação pessoal e isso deixa automaticamente de ser altruísmo. No entanto, às vezes sou surpreendida. Estou tão à espera que as pessoas me desapontem ou exijam contrapartidas (algo a que não sou imune também), que quando me deparo com bondade genuína fico comovida até às lágrimas. E sou apanhada de surpresa. E se gosto de conversar, de trocar emails, de oferecer uns conselhos (valem o que valem...), é para mim satisfação suficiente esta dinâmica. Porém, alguém deu com a língua nos dentes. Não sei como, mas chegou à margem sul - "esse paraíso de asfalto", nas palavras do Unas - que o meu doce favorito é o de tomate. Que me pelo por compotas caseiras. Que ainda ontem fiz as primeiras cá em casa na máquina do pão para oferecer no Natal e experimentei a receita do piripiri com aguardente. Isto é cada coincidência... a lata da comida dos gatos, o nome do felino, as datas de aniversário...

Posso não ser a maior crente na bondade, no altruísmo puro e duro, em stalkers ou mesmo em magia, mas acredito em coincidências felizes. E acredito que devemos deixar entrar as pessoas na nossa vida, renovar amizades e agradecer as pequenas coisas, porque os actos de generosidade vindos de estranhos são raros, mas a humanidade é o que nos une a todos.

Obrigada, Li.

We think too much and feel too little. More than machinery, we need humanity. More than cleverness, we need kindness and gentleness.
Charlie Chaplin (1889-1997) – The Dictator

Comments

  1. Ainda não me disseram nada dos estudos de mercado.

    Por outro lado, alguém tem de dar o primeiro passo, arriscar. De outro modo, viveríamos sozinhos e em solidão.

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    1. eu sei, ainda hoje enviei um email para lá. dizem que se tiveres telefone de casa te contactam mais depressa porque têm disponíveis mais aparelhos ligados ao telefone de casa do que dos outros. se tiveres e quiseres, depois diz-me. eles não precisam do número propriamente dito, só de saber que tens, mas provavelmente depois contactam-te por lá e não para o telemóvel.
      e sim, fiquei bastante impressionada com quem partilhou comigo os dados pessoais. e agradecida tb! :)

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  2. Agora apetece-me começar uma frase,como muitas vezes começo a falar para amigas, portanto here it goes:

    Chavala, tu deste-te ao trabalho de te importar, e de leres, e de escrever mails cheios de palavras, conselhos...não foram coisas à toa, só porque sim, ou palavras feitas, foram coisas sentidas e direcionadas exatamente para aquilo que te fui contando. Foi praticamente gratuito (sim, porque a cena dos dados, mesmo que me viesses parar à porta levavas uma corrida dos cães que ladram sem parar e denunciam qualquer stalker:P), afinal, não me conhecias de lado nenhum (do blog e da meia dúzia de comentários que trocámos antes não conta!), e tiveste pachorra para tanto! Portanto, e como eu gosto de acreditar, que às vezes também me custa, que existe gente boa por aí, e que me permite fazer coisas boas (como enviar prendinhas!), fico feliz! Mas como o mais feliz dos felizes, é aquele que faz os outros felizes, deu-me mesmo gozo enviar-te os pzentes, só porque sabia que ias gostar! Ora agora diz lá, se não é maravilhoso o mundo dos blogs? :D

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    1. Entao não é?! Obrigada pelo teu comentário, deixou-me muito feliz e ligeiramente comovida! ;)

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  3. E adorei a parte: "(...) e uma série de bitches com quem nos cruzamos pela vida fora." ;)

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