Karma.

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Sabem aqueles dias de merda que parece que nunca mais acabam? Pois, tive um desses ontem. De uma semana que começou da pior maneira. De uma discussão que se reacendeu. Da constatação de factos que mais parecem pesadelos. De um desespero constante que não parecia passar. E eu que andava tão bem disposta... E hoje... foda-se, hoje acordei com a puta de um mau feitio. Eu nem sou muito de dizer palavrões - sou uma menina! - só que quando me irrito a sério (ou estou a conduzir), é inevitável, por isso vocês perdoem-me a linguagem. Também não me interessa muito se coram ou se me condenam, para ser sincera, por isso estão avisados e a partir daqui estão por vossa conta.

Hoje quando acordei estava prestes a arrancar cabelos, os meus e os dos outros. Mas lá me dirigi para a Faculdade para dar o apoio mais do que merecido a uma amiga e colega. Pelo caminho pensei em mais de cinquenta desculpas para faltar, mas nenhuma me pareceu válida o suficiente. Se fosse eu a defender a minha tese, gostaria de ver no público caras conhecidas, bem dispostas ou não. Ia mais nervosa do que a candidata (é mentira), mas ia incrivelmente irritante, não me calava, sempre a dizer disparates para ver se a distraía. Sentei-me na plateia enquanto a ouvi defender o seu mestrado. Argumentou bem, expôs o seu trabalho concisamente, não o encheu de palha. A mãe, ao lado de outra amiga minha, torcia-se toda. Agarrava-lhe a mão, nervosa, lacrimejou quando felicitaram o trabalho e sugeriram à I. que continuasse para doutoramento. Até a mim me vieram as lágrimas aos olhos e sou uma cabra fria. O orientador desresponsabilizou-se das fraquezas apontadas à tese da sua orientanda, a performance habitual quando sabem que fizeram um mau trabalho. No final chamaram-nos de volta à sala e disseram-nos que nos levantássemos para ouvir a nota final. "Isto é como a missa", brincou a presidente do júri. Merecia mais e na dúvida, deveriam ter-lhe dado a nota mais alta. A I. arrumou os seus papéis, guardou a pen e saímos, dizendo "pronto, que alívio, correu tudo bem, agora já está, estás a pensar continuar para doutoramento...?" mas tenho a certeza que lhe ficou um sabor amargo na boca. Até eu o senti. Tanto trabalho para um 16? Já vi pessoas receberem notas mais altas por muito menos. A subjectividade das Ciências Sociais não pode ser desculpa para tudo, às vezes parece que há ali algo mais... ou menos. Falta de interesse? Falta de empenho? Falta de profissionalismo?...

E já agora, para quê isto tudo, se é mais uma mestre no desemprego? Se não vai conseguir um estágio na instituição onde fez trabalho de campo, embora lho tenham prometido? Se nem um part-time no centro comercial está a conseguir manter? Se nos fazem ler e ler e ler e depois escrever e escrever e escrever para no fim da meta nos espetarem o vazio da incerteza e o azedo de uma avaliação injusta? A Academia, muitas vezes, resume-se a isto. Começam a ser vezes demais. E depois aquele professor palerma que teima em falar amigavelmente a toda a gente menos a mim quando pensa que me sinto muito humilhada... oh pá, acredita que não. Se há coisa que me dá orgulho é saber que estou na tua "lista negra". Acredita, também estás na minha. "You have enemies? Good. That means you've stood up for something, sometime in your life.", já dizia Mr. Churchill.

Vim para casa ainda mais bem disposta, como devem imaginar. Apetecia-me enfiar-me na cozinha outra tarde inteira, fazer sopa, jantares, bolos, congelá-los e depois sentar-me na sala de barriga vazia a beber um copo de vinho tinto. Ao arrumar o carro, recebi uma mensagem. Uma óptima notícia! Inchei como um balão e levitei escada acima. Pouco depois abri o computador e, já antecipando a vulgaridade de certas pessoas, fiz uma rápida pesquisa no site da Faculdade para verificar a situação da minha bolsa. Na mouche! É que quando estamos preparados para a guerra, habituamo-nos a andar de capacete e conseguimos antecipar o golpe antes de ser desferido. Não sendo uma boa notícia definitiva, foi uma janela que se abriu e a mim andava-me a faltar o ar para respirar. Portanto, agora voltamos ao início e vocês pensavam que não iria descobrir o vosso primeiro golpe baixo? É que para mim, estúpidos, são como a fibra: faço questão de os incluir no meu pequeno-almoço. E assim ganho mais argumentos para o second round. Maquiavel tinha uma pluma certeira e revela-se um mestre atinado.

E claro, como não há duas sem três, a melhor notícia! Um sms seguido de um telefonema de África (quando vi o indicativo não o reconheci e pensei que fosse um dos meus amigos do mestrado, estando mesmo para atender com um britânico "helloooo..."). A melhor notícia, sem dúvida, é saber que não estamos sozinhos, que não vamos para a guerra desamparados, que há quem nos apoie. E que bem me souberam aquelas palavras de conforto. Há anos que não sentia o amparo de uma rede de segurança. Venha daí o que vier, o espírito é outro e bem diferente. O que não fazemos para deixarmos os nossos pais orgulhosos de nós, digam-me.

Há dias assim.

Comments

  1. Ui! Isso não está facil!
    Respira fundo!

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  2. Partilho contigo esse sentimento de quando alguém pensa que nos sentimos inferiorizados pela sua atitude (de idiota).

    Sábias as palavras de Churchill, que tenho para mim como uma inspiração. :)

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    1. Há gente tão tola, não é?... E cada vez insistem mais em fazer figura de parvos, confirmando as suspeitas que eu já tinha...

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  3. Oh, não sabia de nada disto! Só vi agora! Mas é isso,inspira, expira, conta até 10 e enfia as mãos nos teus gatunchos...terapia felina faz bem!

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    1. E os gatos que nao me deixam dormir em condições há várias noites pq pensam que eu sou uma almofada ou pista de aterragem para as suas brincadeiras?
      Agora estou bem mais disposta, o dia acabou da melhor maneira com 3 boas notícias. Agora é ver os resultados a aparecer, de dedos cruzados, o mais rapidamente possível. Eu tenho esperança pq é impossível, já dizia o outro ;)

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