Ajuda de Mãe

Estava eu a ler este post de um dos poucos blogues de moda que ainda sigo (tem uns passatempos óptimos, nada mais que actualmente ainda se aproveite) e lembrei-me quando fiz trabalho de campo na Ajuda de Mãe. Também pela altura do Natal foi convidada uma revista cor de rosa e uma popular cantora portuguesa para distribuir os presentes patrocinados por marcas de produtos para bebé. A cantora entregou as prendas com um pinheiro decorado no plano de fundo, as quais foram abertas pelas utentes frente às máquinas fotográficas que captaram as imagens para a edição mensal. Mal saiu a equipa, as técnicas da associação disseram às mães que teriam de devolver os presentes, os quais seriam novamente embrulhados e redistribuídos. Como as utentes (adolescentes e mães solteiras na maioria dos casos) não foram avisadas deste pormenor antes - provavelmente para captar as suas reacções espontâneas ao receberem alguns bens que muito dificilmente poderiam ter adquirido de outro modo -, ficaram bastante irritadas. Isto não captaram as câmeras. Nem como as utentes retribuíram o favor... Agora o que eu gostava mesmo era de ser mosca ou antropóloga invisível para estar na Ajuda de Mãe depois da visita das bloggers.
Quem ganha o quê nesta transacção, afinal de contas? A lei da reciprocidade obriga a que retribuamos na mesma medida ou superior (por isso é que todos os anos se trocam presentes no Natal) de maneira a manter o equilíbrio social. Quem ganha mais neste jogo onde estão envolvidos patrocínios, popularidade, estatuto social, auto-estima e cremes para peles atópicas? As utentes não são vítimas, embora as associações as gostem de vender como tais. As utentes também têm uma inclinação para este papel, visto trazer mais retorno do que o oposto: de que fizeram escolhas conscientes quando engravidaram, que sabiam a quem teriam de recorrer para obter ajuda. Aliás, neste caso, as utentes até tiveram um papel bastante activo quando reequilibraram a distribuição das dádivas. A publicidade aparentemente inocente de quem oferece é também um elemento indispensável na equação...
É por causa deste tipo de situações que caridade ou solidariedade social não são a minha praia. E por outras que a minha tese deixou de se concentrar em antropologia médica para se dedicar à análise da vertente moral deste tipo de associações e agentes envolvidos.


Comments

  1. Antropologia médica... tive uma cadeira com esse nome. Optativa, obviamente. Foi bastante divertida e enriquecedora.

    Quanto à caridade, penso que será, inevitavelmente, o futuro. Temo que a segurança social (patrocinada pelos contribuintes) tenha os dias contados. O que aparece nas revistas não é caridade, simplesmente publicidade. Desisti de apoiar os sem abrigo, quando houve uma reportagem para a RTP. Nesse dia os "voluntários" acotovelavam-se e não tive lugar, meses antes aparecemos dois, era 23 de Dezembro. Disse que não estava para tolerar a hipocrisia. Os sem abrigo que me perdoem.

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    1. Lembras-te se a professora dessa cadeira era italiana? Se tiver sido, é a minha orientadora.
      Tambem apanhei vários voluntários do género na ajuda de mãe. Senhoras deprimidas a quem os psiquiatras recomendavam o voluntariado para superar as neuroses e depois iam para o berçário educar as massas... Acho muito louvável ajudar o próximo, mas para isso acontecer, nao precisamos de contar a ninguém, pois nao? É esse o problema deste tipo de caridade. Mas a questão moral, aliada à medicina ou associações do género, fascina-me imenso. 7 anos depois desse trabalho é que percebi que era esse o tópico que mais me interessava. O meu nicho antropológico. ;)

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