Mais uma vez, o Natal.

Gosto muito pouco que me estraguem o Natal. Para mim esta quadra começa muito cedo, nunca escondi isso. Acho que o facto de ter celebrado quase todos os Natais (escapa sempre o de 1989) dividida entre a casa da minha mãe e a do meu pai contribuiu largamente para gostar ainda mais desta época. As crianças na mesma posição do que eu dividiam-se entre as que detestavam o Natal porque sofriam por não poderem estar com ambos os pais no mesmo dia e aqueles que escondiam esses sentimentos dizendo "tenho presentes a dobrar!". Posso afirmar-vos que não fui imune a esse sentimento de separação. Se nos dizem que o Natal é para o passarmos com aqueles que mais amamos e, imediatamente, sabemos que para estar com um, temos de deixar de estar com o outro, sentimos um vazio que nenhuma quantidade de prendas ou rabanadas poderá ocupar. Por isso não nego que me custava. Era aquele telefonema antes do jantar da Consoada a desejar um feliz Natal e o outro a seguir à meia noite a perguntar que prendas tínhamos recebido, seguido de um "vemo-nos amanhã que tens mais presentes para abrir lá em casa!". Automaticamente sabia que o amanhã seria acompanhado de um novo vazio. E se há coisa que as crianças fazem com mestria é assumir a culpa e os erros dos outros. E por cima de tudo isso, custava-me gostar do Natal sabendo que os meus pais estariam, à vez, tristes.
Mas mesmo revivendo esta lacuna todos os anos, nunca deixei de gostar do Natal. Mal as luzes começavam a aparecer, quando notava os primeiros anúncios com os brinquedos e, mais tarde, com perfumes, a surgir na televisão, sabia que vinha aí o Natal. Nem sempre houve dois pinheiros decorados. Houve vários anos em que comi muito mais do que a conta porque grande parte da festa se faz pela comensalidade partilhada. A competição não estava em quem dava as melhores ou maiores prendas - cada um dava o que podia e nós sabíamos aceitar isso.
Com a minha mãe passámos invariavelmente o Natal junto dos primos mais velhos, onde havia azevias de batata doce e grão, polvo cozido na Consoada e se jogava ao Bingo (com muita batota) até à meia noite. Nem um segundo antes. E depois hoooooras intermináveis a trocar prendas e a enfiar o papel de embrulho em enormes sacos, aproveitando as fitas mais bonitas para o ano seguinte.
Com o meu pai recordo apenas um Natal antes das minhas irmãs nascerem. Até lá, nós os três éramos o centro das atenções. Tínhamos Nintendos e Segas, prendas enormes mal escondidas atrás dos cortinados até à meia noite, quando nos tiravam da sala para, convenientemente, chegar o Pai Natal. Depois as minhas irmãs nasceram e lembro-me que o meu pai recebeu um telemóvel com o teclado laranja. Comemos fondue de queijo e marisco enquanto os restantes assistiam aos filmes de Natal. Passámos a receber a família da minha Madrasta, mascarei-me eu de Pai Natal e pedi o CD dos Riscos para ouvir a noite toda. Recebia livros e mais livros. E no primeiro Natal da minha irmã M. uma prima que ninguém conhecia e veio de arrasto com outro primo qualquer conseguiu aparecer em TODAS as fotografias. Não houve uma que se safasse. Parecia o Emplastro, sempre lá atrás.
Se puxar muito pela memória, lembro-me de episódios menos felizes até aos 16 anos. Mas as recordações que tenho destes Natais são sempre as melhores. Não me lembro com dor desse vazio de que falava, talvez porque a minha memória é convenientemente selectiva e eu devo ter algum distúrbio psicológico que me faz tentar ser o antidepressivo dos outros. Mas lembro-me que gostava muito do Natal e das borboletas no estômago até à meia noite. 
Esta semana, em conversa com outra pessoa que se queixava dos cortes nos subsídios, que dizia que o Natal é para as crianças, que não dá prendas a ninguém e que nunca gostou desta quadra porque os pais se divorciaram quando era nova, percebi porque gosto tanto do Natal. Nem nunca tinha parado para pensar nisso. Assumi a dor dos meus pais, mas que apenas se tornava palpável no dia. Detestei sempre as guerras anteriores ao Natal para saber quem ficava connosco nesse dia ou as pequenas vitórias de quem conseguia roubar umas horas ao outro na nossa companhia. Se as guerras duravam o ano inteiro, porque tinha de me preocupar mais com elas no Natal? E quando conversava com essa amiga e lhe disse que desde os 6 anos tinha os pais divorciados, mas mesmo assim gostava muito do Natal, ela ficou supreendida. Sem pensar, respondi-lhe: "acho que sobrecompensei". Gosto porque os outros não gostam. Gosto porque se gostar, os outros também o farão. Gosto porque não precisamos de mais pessoas tristes neste dia. Gosto porque não ia estragar o Natal às minhas irmãs enquanto cresciam. Gosto porque não vou estragar aquelas parcas horas tiradas a ferros a cada um dos meus pais. E gosto porque se eu não o fizer, mais ninguém o fará por mim. 
E quando há pouco embrulhava os presentes para os meus irmãos e amaldiçoei as horas perdidas a fazer cabazes, a descascar fruta para as compotas, a preparar bombons caseiros e a porcaria da impressora ficou sem tinta a meio das etiquetas, lembrando-me em como por vezes são tão idiotas e que mais me apetecia era despachá-los todos a Ferrero Rocher porque era o que mereciam, dei por mim a pensar que já tive Natais bem piores e não deixei que ninguém mos estragasse. Porque optei sempre por retirar o melhor, mesmo em situações adversas. Então, que venha daí o resto dos chocolates do calendário do advento, que perca mais umas boas horas a enfiar frascos em caixas com renas, a imprimir etiquetas e a colá-las. Porque podem ter estragado irremediavelmente uma pequena parte do meu Natal, mas não é com isso que me levam a descarregar em quem não merece a minha frustração. Nem que tenha de ouvir o Jimmy com a Mariah a cantar o "All I Want for Christmas is You" em repeat mais duzentas vezes, vou recuperar o meu espírito típico desta quadra! E agora vou só ali pedir desculpa a quem levou por tabela e, mesmo não sendo o fã número um do Natal, se esforça sempre para que o meu seja o mais feliz.

Comments

  1. oh, já somos duas...enquanto lia, apercebi-me que sou um pouco como tu, tb gosto mt do natal e não gosto que me estraguem essa noite magica, seja como for,ela vai ser maravilhosa..tanto para mim como para os outros,ao menos tenta-se fazer por isso,não é? :D admiro a tua força e vontade e espero que este ano corra tudo bem e que tenhas um natal mesmo AWESOME :D

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  2. És um doce! Não me queres adoptar como mana? Tenho interesse numa dessas caixas com renas ;)))
    Beijinhos, bom sábado!
    Madalena

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    1. Adopto sim senhora! Bom fim‑de‑semana Madalena :) bjs

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  3. "optei sempre por retirar o melhor, mesmo em situações adversas", quem escreve (e pensa) assim merece ter Natal.

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    1. Obrigada! Feliz Natal para vocês tambem :)

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  4. Opa, tu contagia-me com esse espírito natalício que eu estou a precisar!!

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    1. Música de Natal, muita música de Natal!

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  5. Engraçado como me revi o teu comentário, os meus pais também são divorciados desde que eu tinha os meus 6 anos.
    Sinceramente, custava-me deixar a minha mãe e os meus avós para depois estar com o meu pai, mas fora isso, mas fora isso nunca deixei de gostar do Natal. Por vezes, as pessoas complicam mais do que aquilo que devem!
    E pro ano já sabes... compra as etiquetas já prontas a colar :P

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    1. Lol ando aqui à luta com as etiquetas, mas ficaram bem. já não tenho amarelo no tinteiro, por isso o verde sai azul, mas fica giro na mesma. para o ano faço as etiquetas de raiz, em vez de andar a preenchê-las, mas previno-me com tinteiros extra ;)

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    2. Há 2 anos que sou eu, o G. e o B. a desenhar as etiquetas dos pzentes...já tás a imaginar que saiem coisas lindas e maravilhosas, que nós 3 temos um jeito danado para a arte...:P Geralmente são motivos de natal, mas este ano decidi que cada etiqueta terá uma caricatura da pessoa em questão, feita pelos 3. Asseguro que vai ser ainda mais lindo, muahahah ;)

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    3. Ahahah! Posso roubar a tua ideia? Ainda nao coloquei etiquetas nas caixas, so para identificar o conteúdo de cada frasco e ja estou quase sem tinta. Além de que seria uma ideia muito divertida hehehe!

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