Para sempre.

Corria o ano de 2001. Eu tinha apenas 18 anos e não sabia o que fazer do meu futuro. A média chegava e sobrava para qualquer curso, de Humanidades ou de outra área qualquer. A pressão materna empurrava-me para Direito e eu queria tudo menos mais amarras. Porém, mãe é mãe, e a hipótese não estava completamente descartada. Acabadas as aulas, os exames estavam todos entregues e uma viagem a Amesterdão planeada.
No ano anterior tinha viajado um mês pela Alemanha, graças a uma bolsa patrocinada pelo Goethe Institut, na companhia de uma série de jovens de diferentes nacionalidades e com distintos níveis de aprendizagem da língua de Beethoven. Numa viagem desta envergadura, as amizades ficam para a vida. As agruras passadas em várias semanas de mochila às costas entre cidades alemãs, aturando museus sem fim e aulas em pleno Agosto chuvoso com família de acolhimento conduziram à criação de laços eternos. O meu caso foi ligeiramente diferente. Não só não levei uma mochila, mas uma mala que se perdeu em Frankfurt, como esta se recusou a abrir à chegada a Bona, dois dias depois. No caminho para o serralheiro mais próximo, eis que oiço um clique e “plim!” a mala abre-se que nem ovo da Páscoa, oferecendo aos olhos germânicos a visão da minha roupa interior em plena rua. Wunderbar!!! Resultado: o resto da estadia fi-la com o auxílio de uma banda elástica capaz de suportar a bipolaridade da minha mala de viagem. Outro pormenor interessante, a minha estadia com a família de acolhimento foi tudo menos pacífica. Não só os meus 2 anos de alemão na secundária não me tinham preparado para grandes diálogos com os meus anfitriões, como tive a infeliz ideia de lhes inundar a cave onde me instalaram. E ainda falam vocês mal da Merkel...
Passadas estas férias, no ano seguinte alguns de nós sugeriram a viagem a Amesterdão, onde o comité de organização estava sediado. Ninguém se opôs, nem os mais boémios. Cedo vim a perceber porquê. Cheguei a Amesterdão e dias depois começaram a chegar os outros. Sabem aquela cena do “Love Actually” nas chegadas do aeroporto de Heathrow? Não teve nada a ver. Passei um dia inteiro em Schipol à espera de voos da Irlanda, de Israel, de Inglaterra, da Dinamarca... Deve ter sido dos dias mais chatos da minha vida, mas enfim, auxiliava o comité de boas vindas e os latinos são conhecidos pela sua intrínseca hospitalidade.
A fracção que ansiava pela continuação de um retiro intelectual semelhante ao do ano anterior na Alemanha planeou visitas à casa de Anne Frank, passeios pelos canais e contemplações aos girassóis de Van Gogh. A outra fracção, mal aterrou em solo holandês, perguntou onde poderia adquirir cogumelos mágicos. Inicialmente acompanhei o comité de festas. Andei às voltas nos canais, entrei no museu de Van Gogh pela porta do cavalo (insinuando que tinha apenas 16 anos) e evitei as longas filas para espreitar o sótão onde a pobre Anne se escondeu durante meses. No entanto, cedo percebi que Amesterdão era mais do que isso quando me cruzei com um tresloucado às 3 da manhã a pedir o passaporte a um cão, aos berros.
Foi nessa noite que uma amiga minha, escocesa, se vira para nós à mesa e constata “a minha mãe disse que eu podia fazer o que quisesse nesta viagem, excepto uma tatuagem; portanto, tenho de fazer uma tatuagem!”. Viro-me eu, inspirada pelo que quer que seja e afirmo peremptoriamente: “vamos todas fazer tatuagens amanhã!”. Eu, que tenho pavor de agulhas, que nunca na vida sonhei sequer em ter tatuagens, dei essa resposta. Outra amiga, irlandesa, disse que faria uma também. Seria algo apenas nosso que nos relembrasse tanto a estadia na Alemanha como em Amesterdão.
Claro que no dia seguinte, na posse de todas as minhas faculdade mentais, fiz-me de estúpida o tempo todo. Tatuagem, qual tatuagem? Até que nos dirigimos ao Red Light District. Então, é agora? Descemos as escadas da coffee shop. Ok, agora não posso dar parte fraca. Que-hei-de-tatuar-no-corpo-para-todo-o-sempre-após-uma-decisão-irreflectida-numa-noite-de-copos-mas-pior-será-passar-por-mariquinhas?! Folheei o álbum vezes sem conta. Nada parecia digno de figurar na minha pele ao lado dos sinais de nascença. Achei uma imagem que me pareceu adequada àquela fase da minha vida. Em japonês. Naquele momento, poderiam ter-me escrito na perna nigiri de salmão e sopa de miso que não teria dado conta. Só sei que doeu como tudo. A tarântula no aquário atrás do tatuador parecia-me menos aterrorizadora do que aquela agulha, estilo máquina de costura, encostada à minha perna. Tremi e fiquei com um pequeno rabisco. Como mais tarde vim a descobrir, esse seria o menor dos meus problemas. Aparentemente, a tradução aos caracteres japoneses não era exactamente a que constava do catálogo... Portanto, para todo o sempre e para as minhocas que se alimentarão do meu corpinho de metro e meio, tatuei na perna algo que não corresponde ao suposto. No biggie. Podia ser pior, como uma tatuagem tribal mesmo acima do rego ou umas andorinhas espalhadas pelos pulsos, estrelas atrás do pescoço ou frases inspiradoras nas omoplatas. O que importa, no fim dos dias, tendo em conta que pouca gente há que leia japonês e que saiba que o meu objectivo não era exactamente aquele (entre espírito e Deus, há uma leque de variações...), é o momento partilhado. A escocesa tatuou nas costas outro símbolo japonês (cruzo os dedos para que ao menos a ela lhe tenha calhado o correcto) e a irlandesa uma pata de cão abaixo do umbigo. Agora que penso nisso, deve ter sido essa a inspiração do favicon deste blogue... a tatuagem da minha amiga irlandesa está tatuada no meu blogue também!
Saí com a sensação de dever cumprido. Numa casa de banho, portas adiante e inspirada, sentada e com as calças enroladas nos tornozelos, decidi que não queria Direito. Eu queria viajar e escrever. Voltei para Lisboa. À chegada a minha mãe perguntou-me se tinha aproveitado a estadia em Amesterdão para decidir que curso tirar. 
“Sim” , respondi. “Quero ir para Antropologia”
“O quê?!”, espantou-se ela.
“Ah, e já agora, fiz uma tatuagem na perna.” 
“O QUÊ?!?!?!?!? Sua irresponsável, e se apanhavas alguma doença? Ao menos as agulhas estavam esterilizadas?! Como podes ter ido uma semana para fora e vires com uma tatuagem? Não foi assim que te criei!” E blá blá blá!!!....

E assim se dão as boas notícias na minha família.

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