Caro senhor do Barclays Card que me ligou várias vezes hoje durante o dia,

não. Não o volte a fazer. Eu não quero saber se lhe pagam uma miséria, se não gosta do que faz ou se o faz porque não tem outra alternativa na vida. Ou mesmo que goste, porque há quem tenha orgulho de vender até a mãe. Várias vezes. Eu percebo que os tempos estão difíceis, toda a gente refila que a troika nos estrangula, que o Gaspar não sabe fazer contas e que o Passos Coelho é um pau mandado de Berlim. Mas eu não quero saber o que o senhor tem de fazer para pôr pão na mesa. O que eu gostaria de saber era como é que o Barclays conseguiu o meu número de telemóvel. Eu, que nunca dou o meu número a ninguém, que não tenho conta nesse banco e que muito menos estou interessada em ter um cartão de crédito. Eu que me arrepio toda quando vejo um número desconhecido no meu telemóvel porque estou sempre à espera de más notícias, gostaria de saber porque raio me ligou três vezes hoje. Duas não lhe chegaram para perceber que não queria falar consigo? Eu, que já trabalhei em callcenters, percebo que a sua vida não seja fácil. Tem uns team leaders com o QI da Cheetah (todos juntos e somados) que lhe relembram por cima dos auscultadores que tem objectivos a cumprir, que deve ser "proactivo", "falar com um sorriso na voz" e "não usar palavras negativas" (tipo "não" e "negativas"). Eu sei que a sua posição não é fácil, mas perceba que se eu não lhe atendo o telemóvel duas vezes, deveria perceber a dica. Que eu não lhe disponibilizei o meu número de telemóvel - que se o dou a tão pouca gente, é para que não abusem dele -, que fujo dos seus colegas que se plantam estrategicamente nas portas e intersecções dos centros comerciais para me incomodar com os seus panfletos. Perceba também o meu lado e desde já lhe peço desculpa pelo "não estou interessada... pling!". Será que se apoderaram do meu número através da La Redoute, a empresa mais chata de sempre, de onde há dias me ligaram para me vender um seguro de saúde? Em que ouvi o seu colega a explicar, lendo o teleponto, as vantagens de ter um seguro que me protegesse do que o que tenho não protege? Que me pediu para lhe dizer as condições do meu actual seguro, como se eu as soubesse de cor e fosse partilhar com um estranho de voz automática, para me questionar, por cima das torradas do pequeno almoço, se esse me protegia contra o cancro da mama ou do útero ou lá o que era?... Acha mesmo que faz sentido que eu disponibilize o meu telemóvel para comprar umas calças por catálogo para depois me virem lembrar logo pela fresca que não sou imortal? Ou pior, que pertenço ao vosso público alvo e que têm o teleponto redigido no sentido de melhor me convencer a adquirir o vosso produto? Não lhe parece abuso de privacidade? É que quando o Barclays me liga três vezes numa dia para me questionar se quero um cartão de crédito quando eu nunca tive conta nesse banco, não consigo suportar o discurso automático por cortesia e respeito a um colega numa situação profissional desagradável. Eu simplesmente desligo-lhe o telefone na cara.


Comments

  1. É por essas e por outras que eu não atendo números privados, ele é o Bes a oferecer Planos Poupança Reforma; o Barclays a oferecer cartões de crédito, a TMN a oferecer novos tarifários... não há paciencia para tanta publicidade...

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    1. Carminho, o número não era privado. Era um 21 qualquer coisa e outro número de telemóvel. Eu raramento atendo números que não conheço, mas o homem tanto insistiu que à terceira atendi. Mas como é que esta gente apanhou o meu telemóvel, isso é que gostava de saber!

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  2. Sempre podes dizer que és traficante de droga. Conheço alguém que se sai sempre com esta.

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    1. Ahahah! Dessa nunca me tinha lembrado eu! Para a próxima experimento e logo te digo se resultou! ;)

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  3. Respeito a profissão de toda a gente mas é deveras enervante ter gente dessa à perna, tanto por telemóvel como nos centros comerciais. Eu responde quase sempre o mesmo, ou sou estudante (ainda tenho cara de miúda, eheheh, ou desempregada. Ponto final, já não chateiam mais.

    Bjokas.

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    1. ora é exactamente o que faço a esses senhores nos centros comerciais também! e ando rápido, resulta sempre! ;)

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