Ler! Ler! Ler!

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Passo os dias a ler. Chego à noite, leio mais um pouco. A vontade de ler quando me vou deitar costuma roçar o zero porque tenho os olhos cansados de tantas letras. Mas leio porque me completa. Depois de um dia em que parágrafos se colam e despegam das páginas de word, pdfs e notas soltas, autores novos que se descobrem nas bibliografias, que levam a encontros determinantes que se chegam agora, vêm tarde; se tivessem chegado mais cedo, não lhes teria dado a atenção devida. Sinto o meu cérebro derreter como manteiga ao sol das ideias que me surgem quando deito a cabeça na almofada. Preciso de descanso. Desde os 24 anos, quando comecei o mestrado e me meti nesta aventura sem fim, que não páro. Às vezes parece que vislumbro ao fim do túnel uma luz, mas inevitavelmente é um comboio a alta velocidade que se aproxima de mim na direcção contrária à que caminho.

E depois, escrever. Mais letras. Mais parágrafos. Menos inspiração. Oh god, porque é que não escolhi outra profissão? Mais activa, melhor remunerada, mais valorizada socialmente. Sou sempre aquela "que está a estudar e por isso não tem direito a direitos" como se investigação fosse uma continuação do curso e não uma profissão. Uma espécie de Peter Pan por opção. Eram 3 anos de Bolonha em Economia ou Gestão numa faculdade qualquer e estava hoje a aprovar e reprovar créditos, salário fixo, regalias garantidas. Para depois ficar a conhecer as penhoras de banco todas e "ser uma tentação não aproveitar estas casas fantásticas a preços da chuva". As mesmas cujos créditos haviam sido aprovados sem questionar e que voltam agora a preços muito apelativos e com direito a informação privilegiada. Não há por aí uma lei que regule isto?

Ou então eu poderia simplesmente continuar a renovar anualmente a matrícula numa faculdade privada qualquer, fingindo que vou às aulas e em vez disso passava os dias nas compras, tudo patrocinado pelos papás. Só casos reais, minha gente. E depois sou eu que não quero crescer...

Vá, mais um pouco, menos azia. O sprint final para não pedir mais um ano que senão nunca mais daqui saio. E arrumo os últimos anos de mestrado, pós-graduação e doutoramento numa gaveta, à espera que alguém lhes pegue. Ou que eu os agrafe ao passaporte porque aqui serei sempre apenas aquela "que está a estudar". Ou que trabalha para aquecer. 

Mas mesmo assim, desventuras à parte, suores frios, noites sem dormir e muitos dias sentada em frente ao computador, olhos secos e tendinites em potência, não trocaria isto por nada. É isto que sou, foi nisto que me meti e estou aqui até ao final. Porque o que quem está de fora não sabe, é que quando custa mais e fazemos por nossos meios e mérito, no final a recompensa sabe muito melhor.
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Comments

  1. Ontem estive numa reunião de condomínio e vi que isto continua a ser um pais maioritariamente de broncos, por isso é normal que não te sintas valorizada, apesar do grande valor que tens!
    Beijinhos, bom dia!
    Madalena
    (eu, é mais olhos secos e raiados)

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    1. Não me admiro que tenhas chegado a essa conclusão, até porque as reuniões de condomínio são sem dúvida o expoente máximo de concentração de broncos por metro quadrado. É cada troll... :p No meu prédio ainda lhe junto a funcionária responsável pela gestão do condomínio (que está entregue a uma empresa) e que me enviou um email a perguntar quem é que eu sou quando me queixei de alguns problemas com o prédio que ela insistia que não existiam, porque a casa não está em meu nome. Ora, não tendo lá o meu nome, parece que não tenho direito de me queixar. Sou mesmo tola, esqueci-me de lhe mandar a certidão de casamento. E o convite!
      Beijinho, Madalena, e obrigada*

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    2. Ah! Eu, apesar de morar aqui há 6 anos, tive ontem a minha estreia, e a criatura que estava a conferir as presenças, quando mencionei as minhas fracções e viu o nome do meu marido à frente, depreendendo que eu não me chamasse José, perguntou-me: "traz procuração?". Eu, "não, também sou proprietária, mas quer que lhe mostre a escritura?". Enfim...

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    3. É o que eu digo: concentração máxima de trolls por metro quadrado! :p

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  2. Ler é um dos grandes prazeres da vida. Se mais pessoas lessem, seria o mundo diferente?

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    1. Julgo que sim. Eu so peço que leiam mais. O resto que vier é tudo bónus.

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  3. Em relação às leituras, adoro ler mas o ano passado foi vergonhoso, não sei o que me deu. Este ano quero recuperar as leituras perdidas.
    Em relação à investigação, eu trabalhei com bolsa na FCT e depois passei a recibos verdes :( Tanto um como o outro não me davam direitos a nada, foi por isso que sai de lá, quando ia fazer 1 ano de recibos, ia começar a descontar, e as condições de trabalho a piorar.

    Bjokas.

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    1. Também me apercebi que no ano passado não li tanto como gostaria, quero dizer, romances, ficção... Este ano já estou a tentar voltar a ganhar ritmo e tenho em mãos um livro fantástico que já estou quase a terminar. É bom quando me calham livros assim e não daqueles em que, depois de muito esforço, tenho de pôr de lado e desistir. Odeio-o fazê-lo, mas é pior ler por obrigação. Para isso já me basta a tese...
      Em relação às condições de trabalho, a verdade é que as pessoas agora queixam-se muito dos direitos e regalias que têm perdido (mesmo que tenham trabalhos miseráveis, que acrescentam pouquíssimo e qualificações pesarosas), mas a verdade é que já anda gente há muitíssimo tempo a queixar-se do mesmo, bolseiros e recibos verdes. É o país que temos.

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