O Cão.

O cão tinha um ar triste. Triste, infeliz, abandonado, miserável. No pêlo contavam-se os maus tratos, como as pulgas, as mesmas que se alimentaram do seu sangue. E quando o sangue se tornou sujo, alimentaram-se da sua alma. Sugaram-lhe a dignidade até lhe encherem os ossos de medo. Os ossos tremiam. Porque viriam dali os piores baques?
Nada do que o cão fazia tinha valor. Se abanava a cauda, era patético e subserviente. Se mostrava os dentes, era agressivo. Tanto bateram no cão, que o cão ficou sem lar. Não era o sítio onde comia e dormia a que chamava de lar. Ficou um cão sem lar. Porque no sítio onde comia e dormia, as mesmas mãos lhe batiam, os mesmos pés o magoavam, e por vezes nem comida havia. Por isso o cão não tinha lar. Não tinha conforto nem aconchego porque não os tinha na alma. E os ossos tremiam de medo.
Então o cão desistiu de procurar um lar. Qualquer casa servia. Já se esquecera o que significava ter um lar, e o pouco de que ainda se lembrava, era rapidamente esquecido pelas memórias mais frescas dos ossos a tremer de medo. O coração do cão ficou escuro como o seu pêlo. O seu pêlo ficou baço. Não reflectia nada do que lhe corria por dentro, mas talvez ainda o fizesse, porque dentro de si nada brilhava.
O cão foi para um canil, quando já todos se tinham esquecido porque razão lhe continuavam a bater. O cão lembrava-os de quem foram, dos erros que cometeram e era demasiado tarde para recomeçar. De como tudo o que o cão fizera motivara desprezo, abandono e falta de compaixão. Havia dignidades em jogo e nenhuma delas era a do cão. O cão já não tinha dignidade, era apenas um corpo que ocupava um espaço. E era preciso desocupar esse espaço das más memórias que o cão representava. Afinal de contas, era apenas um cão. Era descartável e acessório. Era apenas mais um problema a resolver, quando outros problemas exigiam atenção. Então o cão foi para o canil. Às vezes era visitado. E porque não sorria o cão? Porque se encostava à parede da jaula, afastado das grades, olhando de baixo para cima? Porque mesmo depois de tanta pancada, o cão nunca pensou que no final isso tudo não tivesse servido para nada. Que ele valesse tão pouco ao ponto do seu nada ser descartável. Então o cão não foi mais nada. O cão deixou-se definhar. Nunca deixou que ninguém lhe desse um lar, apesar das promessas que lhe fizeram. Nunca mais houve espaço para mais ninguém no coração do cão. E o cão nunca mais amou ninguém, porque quem amava, nunca o amou.


Comments

  1. Caramba, que post melancólico. Aliado à tarde de chuva, chega para um ligeiro síndrome depressivo.

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    1. vou enviar-te uma coisa por email para te animares então!

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