Isabel Allende.


Há dois autógrafos que guardo e que são muito especiais para mim. Um gatafunho rabiscado não tem mais valor do que outro qualquer, não significasse que por momentos estive perto de pessoas que admiro.

O primeiro, obtido em Abril de 2008, é o da minha escritora favorita, Isabel Allende. Esta autora guiou-me. Não tenho outras palavras que descrevam o papel que desempenhou na minha vida. Críticas à parte - porque não reúne à sua volta o consenso em torno de outros autores latino americanos e porque o número de livros vendidos não fazem um escritor -, cada autor exerce sobre os seus leitores um efeito diferente. E seja porque razão for, criei uma ligação especial com a Isabel Allende. Não sei se me identifico mais com os longos parágrafos descritivos, com as descrições marcadas por um ritmo próprio, se com a maneira como entrelaça amor e violência na mesma frase sem que soe estranho, mas duas faces da mesma moeda.

Sempre que entro em vitimizações desnecessárias e preciso de recolocar os pés no chão, leio o livro que Allende escreveu à filha, Paula, quando esta se encontrava em coma. Agora que penso nisso, os livros dela foram dos poucos que alguma vez reli. Eva Luna e Os Contos de Eva Luna são obras pejadas de sensualidade, onde as vidas dos protagonistas se cruzam com o pano de fundo que foram as grandes alterações políticas, sociais e económicas do Chile no século XX. Já teve a sua principal obra - A Casa dos Espíritos - adaptada ao cinema e filmada entre a planície alentejana e a antiga Lisboa, onde a aristocracia do Chile foi representada por gringos estrelas de Hollywood, dirigida por um realizador dinamarquês e parcialmente paga por dinheiros europeus. A sua passagem pela Venezuela durante os anos da ditadura levou-a a relembrar o Chile com outras cores e a sua longa estadia em São Francisco fê-la desenterrar a ligação dos Estados Unidos à sua pátria. Ligação essa que vai muito além do apoio deste último ao golpe de estado em 11 de Setembro de 1973 que derrubou o seu parente (distante, não é tio como uma vez vi num programa de televisão!!). E depois houve aqueles livros que escreveu aos netos, passados na Amazónia ou em locais remotos que tais, que li como uma condenada a caminho da forca...
 
A sua visão da vida, entre a realidade e a magia, pautaram a minha orientação profissional (e quando descobri que a Antropologia era mais ciência do que magia, muito me arrependi de lá ter ido parar). O seu retrato que Isabel Allende pintou do Chile levou-me a concorrer a um mestrado em Estudos Latino Americanos em Cambridge. Meses depois, uma amiga escrevia-me por email: "I know how much you like Isabel Allende so I took the liberty of booking two tickets for us at her book presentation in London. I hope that is ok! :)". E lá fomos nós. Deve ter sido dos melhores dias da minha vida - desculpem-me as senhoras quando não digo que foi o meu casamento. Apanhámos o comboio e fomos para Londres com desconto de estudante. Chegámos ao metro e eu disse "olha, sou claustrofóbica e este pessoal tem a mania de estoirar com as carruagens, por isso se me ouvires gritar <brace, brace> é altura de nos pormos a andar daqui para fora." Ela riu-se e continuámos em direcção a uma embaixada qualquer, onde participámos num cocktail onde se discutiam ideias essenciais à sua tese. Tive direito a um "name tag" com o meu nome (mal escrito) e por baixo "Cambridge University". Isto deve tê-los levado a pensar que eu tinha algo inteligente ou inovador para dizer, porque me perguntaram sucessivamente sobre que seria a minha tese. Respondi, Antropologia e Psicanálise, porque não conseguia adiantar muito mais naquela altura. Comemos uns acepipes e fomos passear pela capital.

Sentámo-nos na relva com vista para o London Eye à espera da hora do espectáculo. Esta minha amiga, Andrea, tinha-se mudado da Alemanha rural para Londres, vivido com uma família de acolhimento, feito Erasmus em Salamanca e passado um mês a visitar a América Latina. É o que Cambridge tem de bom: abre-nos as fronteiras, todas. Indirecta, intelectualmente, à bruta ou nos livros. Tinha um namorado no Japão com quem não se entendia e eu divertia-me a dar conselhos gratuitos. Partilhávamos as aulas de Race and Ethnicity e chorámos graças à tirania da mesma professora.  Porque não nos mantivemos em contacto, pergunto-me agora?... Passeámos por Covent Garden onde parámos para assistir ao espectáculo de uns artistas ambulantes. Depois seguimos para uma Waterstone Book Store qualquer nas proximidades, onde comprei dois livros da Isabel Allende. Um para mim, "A Casa dos Espíritos", versão soft cover em inglês, e outro para a mãe da minha madrasta (grande fã da autora). Fomos visitar uma exposição sobre o surrealismo no Tate Modern porque era gratuita. Nunca me senti tão esperta na vida...
Perto da hora de jantar (sabem a que horas jantam os bifes?), encontrámo-nos com uma amiga da Andrea e comemos umas sopas de noodles numas mesas corridas do Wagamama junto ao Tamisa. A seguir seguimos para a apresentação do livro. Não vou negar, mas quando me sentei naquela sala de espectáculos, tremia. Pouco depois vi um homem alto e louro, muito branco, entrar na sala, tipo torre que se movia lentamente e encabeçado com um chapéu de cowboy e disse à Andrea: "é o marido da Isabel." Ela olhou-me como se fosse maluca. Eu nunca o tinha visto, mas sabia que era ele. Qualquer pessoa que tenha lido "O Plano Infinito" e as autobiografias da Isabel Allende, consegue reconhecê-lo na multidão. Depois a sala perdeu a luz. Ao fundo do palco uma figura pequenina entrou, ninguém dava nada por ela. Sentou-se. As luzes reacenderam-se. O público (99.9% feminino) explodiu em palmas. A senhora em questão apresentava a cara com uma pele cirurgicamente esticada e eu não pude como não pensar "então e a Deusa interior, cadê?". Isabel leu alguns excertos do seu último livro "O Meu País Inventado". Eu quase os sabia de cor. Alguém ligado à sua editora inglesa colocou-lhe algumas questões. O público teve a oportunidade de fazer circular entre si o microfone e de também lhe fazer umas perguntas, tanto em espanhol como em inglês. Recordo-me de uma jovem que lhe disse "sou chilena, estou aqui sozinha a trabalhar em Londres, quero seguir o meu sonho, a Isabel inspira-me, o que devo fazer?". Passou tão rápido... e depois Isabel sentou-se cá fora, atrás de uma mesa, uma fila gigante em L esperava pela sua vez. Nós ficámos quase no fim. Eu pedi à Andrea que me tirasse uma fotografia enquanto falava com ela. Perguntei-lhe se podia assinar o meu livro e o que tinha trazido para entregar à minha avó. Ela respondeu "Of course!" E olhou rapidamente e de relance para mim.

E eu cristalizei todos estes momentos, guardo-os dentro de mim e às vezes limpo-lhes o pó.




Comments

  1. Gosto muito de Isabel Allende. A Casa dos espiritos é um dos meus livros preferidos :)

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  2. Nunca li nenhum livro desta autora. Estou a ver que tenho de mudar isso rapidamente ;)

    Big Kisses

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  3. "e depois houve aqueles livros que escreveu aos netos..."

    foram esses que devorei e fiz questão de integrarem na minha futura biblioteca que agora não passam de meras estantes do meu quarto.

    adorei a autora. esses livros entraram na minha adolescência e daí secalhar justificar a indiferença da minha mãe em relação a eles. de não perceber como não adorar os livros...

    sou capaz de reler algum em pouco. para ver se a adrenaline de outrora regressa :)

    obrigada por me recordares a autora :)

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    1. não foram de todo os meus favoritos, acho que isso fica bem claro. o estilo de escrita é diferente, o objectivo é distinto e o público a que se dirige também. talvez por ter começado na adolescência pela "eva luna", esse lado supostamente mais juvenil de isabel allende nunca me convenceu. mas li-os à mesma porque foram escritos por ela e na avó aventureira identificava muito da sua biografia que já vinha descrita no "paula" e outros.
      obrigada pela visita :)

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  4. Ola Maria,
    Estou a ler o meu 1º livro dela, Paula e estou a adorar!!!
    Maria Filipe

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    1. lê a casa dos espíritos a seguir para veres onde a vida dela se cruza com a ficção! ;)

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