Para as toupeiras que andam a ler-me o blogue.


Andava há tempos a pensar escrever sobre este tema, mas faltavam-me as palavras. Já o tinha abordado ao de leve... Ontem, ao ler o Viagens na Surrealidade Quotidiana, um blogue de que tanto gosto, senti que a RBM me tinha tirado as palavras da boca. Para ser sincera, acho que não me conseguiria expressar tão bem como ela. No entanto, posso garantir-vos que fiquei muito satisfeita em saber que não sou a única a deparar-me com casos como estes. Também me arrepia não perceber onde colocar o sentido (ou será a culpa) nestas situações, ou noutras bem piores em que os filhos nem se dão ao trabalho de acabar os cursos ou de honrar os seus compromissos, para que tenham eternas desculpas para não viver e não se responsabilizar pelos seus actos. Será dos pais, porque sabem que erraram algures e como tal tentam compensar em bens materiais o que lhes faltou em amor e disciplina? Ou será dos filhos, que num total desrespeito pelos pais, gostam de brincar aos Peter Pans de 30 anos, mantendo um determinado nível de vida à custa daqueles que sempre trabalharam? Ou simplesmente, ambas as partes dão sentido às patéticas vidas uns dos outros?

"Não muito isoladamente vou tendo conhecimento de pessoas de idade igual ou próxima da minha que, em empregos precários, mal-pagos ou no desemprego mesmo não têm grandes pudores em viver à custa dos pais. Melhor, de uma forma aparente e para parte de quem os rodeia há grandes problemas e revolta pela falta de oportunidades - que em alguns casos, não é nada resultante da crise e do mercado - mas no quentinho das relações familiares acomodam-se a essa situação. Vejo estas pessoas sem pudores a arranjarem casas que não são eles que pagam, a endividarem terceiros por tecnologia que não precisam, como se o mundo fosse acabar se não tivessem um plasma no quarto e um iphone para usar o instagram. Vejo também aqueles pais,  numa completa deturpação dos deveres parentais, a renegociar prestações com as Cetelem, Credibom e restantes abutres dos créditos fáceis, a sustentarem os hábitos dos filhos e depois dos netos que não tardam em vir, porque não vão custar a criar a quem os fez. Tenho pena daqueles pais, que ficam entalados numa existência paralela que é a vida dos filhos mas também tenho pena daqueles filhos, que nunca saberão o gosto das vitórias pessoais, que nunca apreciarão o pouco que se torna muito por conquistadas. Tenho pena mas não tenho assim tanta no fundo, não sei até que ponto cada um não teve o que mereceu em consequência das suas acções, uns a eterna infantilidade, outros a eterna responsabilização, sempre a infinita estupidez."


Comments

  1. Sinceramente não sei quem é que no seu perfeito juízo, gosta de viver eternamente à custa dos pais. Eu que tenho 22 anos e sei que vou precisar de pelo menos alguma ajuda financeira por parte dos meus pais durante os próximos tempos, não fico lá muito feliz com a ideia.
    Anseio pelo dia em que possa definitivamente já não precisar da ajuda deles, que tenha inteiramente a minha independência financeira, coisa que ainda não acontece na totalidade mas só em parte :S Ainda tenho muito que estudar, muito que trabalhar, muito que batalhar mas um dia espero sair definitivamente lá de casa e não viver à custa deles. Não percebo o comodismo que existe por parte de certas pessoas, não percebo não. E sinceramente se conhecesse um homem com os seus 35 anos ou assim e que dissesse orgulhosamente que vivia em casa dos pais, isso era (e é) coisinha para eu fugir a sete pés :S

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    1. mas isso és tu e sou eu que somos pessoas normais, a quem os pais deram educação para sermos autónomas e terem orgulho nisso. depois há outros casos de pessoas que se arrastam pela vida e que são financiadas pela família, as quais lhes providenciam carros, telemóveis, roupas e pagam cursos em privadas onde não põem os pés. e depois há os outros com casamentos de 6 meses e histórias muito mal contadas que voltam para casa dos pais, porque o "golpe" não deu certo e só conseguem manter um determinado nível de vida se houver sempre alguém a sustentá-los. os pais sustentam isto tudo porque preferem viver em negação ou manter a imagem de família perfeita e feliz, quando toda a gente já percebeu que por detrás desses jogos de espelhos cheira tudo muito mal. e são pessoas assim que não sendo felizes com elas próprias, criam infelicidade aos outros que esperam delas mais do que elas são capazes de oferecer.

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  2. A mim pessoalmente custa-me muito ver pais a trabalhar horas e horas a fio seja para outros ou negócios próprios, sendo que os filhos não sabem reconhecer o esforço e limitam-se a dar o 10 nos exames que chega muito bem. Mais, custa-me pensar no que vai acontecer depois, dói saber que houve gente que trabalhou a vida inteira para outros gozarem e não terem de fazer nada porque já tinham tudo quando cá chegaram. E sim, também me espanto quando vejo gente que diz que as coisas não estão bem mas depois recebo mensagens no meu telemóvel pré-histórico que no fim dizem: "enviado do meu iphone"...são uns a tentar dar o que não tiveram, com a melhor das intenções (nalguns casos, claro), e outros a aproveitarem-se disso com o maior descaramento do mundo...

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    1. sim, sem dúvida. esse exemplo do 10 nos exames porque chega e sobra quando os pais passam o dia a trabalhar é a melhor. estão a comprometer não apenas o seu futuro, mas também o dos pais caso um dia precisem do apoio dos filhos. mas também não sei até que ponto é que os pais não serão responsáveis não só no presente mas nos valores que transmitiram aos filhos ao longo da vida e no que aturam. às vezes um bom pai não é o que passa a mão pelo lombo, é o que atira o filho do ninho para que ele aprenda (de vez) a voar. por isso, é como dizia a RBM, não sei se tenho assim tanta pena.

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  3. Também gostei de ler! No meu círculo não há indivíduos com essa lata (que é o que lhe costumo chamar, mas poderá apenas ser falta de noção da realidade, não sei, os motivos podem ser vários) mas sei de um ou outro caso do género.

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    1. à lata e falta de noção da realidade acrescento a negação. há pessoas que não conseguem aceitar o facto de que, no fundo, não valem nada.

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  4. Às custas dos pais, do marido, dos subsidios ... é sempre chato (digo eu, claro, mas não critico ninguém)! Ensinaram-me a ser independente e quando as coisas são compradas com o nosso dinheiro, têm outro valor.

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    1. Se isto nao é criticavel, entao nao sei o que será. Há pessoas que dão valor ao ter, nao interessa como e que ate têm gozo em dizer que nao fizeram nada para ter o que têm. Acho óptimo que as pessoas se ajudem mutuamente, mas ha uma grande diferença entre isto e abusar. No caso dos subsídios, também ha muitos casos flagrantes, especialmente de quem se vangloria do que consegue sacar. Se os princípios estao errados, nao interessa de quem se depende, é o mesmo tipo de gente em todos os escalões sócio económicos.

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    2. Não gosto de criticar porque primeiramente o mal é dessas pessoas! Não pensam no dia de amanhão para quando a "chucha" terminar. E quando há casos assim, não atribuo as culpas todas aos "dependentes" mas também aos pais que contribuem para eles serem assim. E alguns dos pais são assim porque na altura deles, não levavam nada dos pais e agora dão tudo aos filhinhos que não tiveram no tempo deles! Nem 8 nem 80. E o pior é quando os pais deixam de ter para dar aos filhos (conheço tantos casos destes!).

      Ps. Vou experimentar as batatas no forno mas temo não gostar poque eu gosto delas estaladiças e no forno as coisas tendem a ficar mais tenras.

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    3. Sem dúvida que a culpa é partilhada por quem depende e por quem sustenta. Não sei se será pela razão que apontaste, porque os meus pais tambem nao cresceram com muito e nunca nos incutiram esses valores, muito pelo contrário. Em alternativa, educaram-nos e penso que é ai que os outros pais falharam. E continuo a dizer que é extremamente criticavel este comportamento por todas as razoes e mais alguma: porque nem sempre é um problema so deles (no caso dos vários dependentes dos subsídios, é um grave problema social que nos afecta a todos), porque pessoas que nao têm esses valores (sejam suportados por pais, namorados ou maridos) são indivíduos que falham noutro tipo de valores e é esse o tipo de gente que conheço e, por última, porque só através da crítica e nao fechando os olhos é que se consegue mudar alguma coisa. Claro que na casa de cada um cada um sabe de si, mas pelas razoes que enumerei em cima, nao me parece que sejam situações estanques que afectem duas ou três pessoas.
      Em relação às batatas, sim, ficam mais moles e menos estaladiças, mas há várias marcas que as comercializam e quem sabe encontras umas mais saborosas do que outras. Experimenta e procura no supermercado nos congelados que encontras muita variedade.

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    4. Gosto de falar (neste caso, escrever) com pessoas ligadas às ciências sociais, pá :P
      Este país está a precisar é de uma reforma geral. Por muitas boas intenções tenham os pais, eles acabam por formar pessoas mimadas que pensam que o dinheiro cai do céu e transmitem a ideia que viver à custa de alguém é a coisa mais normal do mundo e isso afecta todos nós,claro. Para além de sermos um pais envelhecido, ainda temos aquelas pessoas em boa idade para trabalhar que não querem - para quê? os papás dão tudo! Temos um Estado a passar recibos verdes e a dar subsidios de desemprego superiores a um ordenado minimo. As pessoas trabalharam para terem direito mas o problema é quando se acomodam e também quem é que vai aceitar um trabalho com um salário inferior ao do subsidio? Acho que acabam por fomentar a lei do não fazer nenhum!
      Muito mais havia a dizer e como já disse: isto queria era uma reforma total.

      Bjokas.

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    5. Se o estado também funciona como um papá que dá tudo, entao nem os bons exemplos vêm de cima. Por acaso é engraçado q menciones isso de recusar emprego pq ainda esta semana uma amiga me disse que desde que nao lhe renovaram o contrato como técnica das novas oportunidades (este dado é importante para a história...) que está no subsidio de desemprego e tem ido a algumas entrevistas até na própria área. Disse-me tambem que recentemente recusou um estágio porque lhe pagavam 650€ e ela está a receber cerca de 800€ do estado. Prefere estar em casa a planear o casamento do que várias horas a trabalhar por esse dinheiro. Eu nem sabia que podias recusar empregos assim sem perderes o subsidio! Diz q de 15 em 15 dias passa pelo centro de emprego, nuns minutos dão-lhe um papel em como lá esteve e volta para casa. Quais são os incentivos entao? Mas há exemplos piores na minha família, de pessoas já com mais de 50 anos que nunca trabalharam um dia na vida e que quando viram os maridos de quem dependiam perder os seus empregos nao tiveram vergonha nenhuma em expropriar a mãe da sua reforma de 600€ para comprar sapatos e roupa. Tens aqui casos distintos e ao mesmo tempo mt semelhantes onde custa perceber quais as reais razoes que motivaram, mas fazer o quê? Digo à outra que aceite o estágio? Digo a esta para ter vergonha na cara que tem idade p ter juízo? Por acaso a esta até disse e ainda se conseguiu controlar relativamente os danos na altura, mas penso que voltou ao mesmo. E em relação aos visados por este post que vivem em total negação do que é certo e errado, faz-se o quê se é toda uma dinâmica familiar que está em jogo? O que percebi por estas diferentes situações é que pessoas que são assim, nao valem mt mais noutros aspectos e se for necessário, intervenho, noutros prefiro afastar-me e estar calada, mas acho que são casos condenáveis e criticáveis. E ainda bem (ou nao) que mais gente os detecta além de mim, quer dizer que nao sou eu que estou a fazer filmes na minha cabeça.
      Ah and social scientists do it better! ;)

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