“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes.” ― Marcel Proust



Daqui.

Porque é que sempre que questionamos alguém sobre os seus hobbies - seja numa conversa banal ou no quiz da Cosmo -, as pessoas invariavelmente respondem: "viajar"? Viajar, ler, ouvir música e ir ao cinema*. Ora, eu adoro ler, faz parte de mim como 70% da água que compõe o meu corpo. E é uma maneira bastante barata de viajar, diga-se de passagem. Anteriormente só conseguia manter conversas mais longas sobre livros que tinha lido, porém não é o tópico mais popular na adolescência quando os outros relatam e valorizam a última moca ou bebedeira... Sempre ouvi música e trabalho melhor ao som da mesma, porém, nunca fui muito selectiva no que ouvia: desde os hits na rádio ao que o meu pai passava no carro, marchava tudo. Cinema, sim, também gosto muito. Outra das poucas longas conversas que conseguia manter. Actualmente passo mais tempo debruçada sobre séries, seja porque os actores de cinema migraram com sucesso para o pequeno ecrã, ou porque os argumentos são bem mais válidos do que antigamente.


*adenda: também é fixe agora dizer que se gosta de fazer desporto/ir ao ginásio


Mas viajar... pois, lamento, odeio viajar. Pelo menos nos termos em que muita gente o faz. Ultimamente comecei a olhar para as viagens de muitos outros de uma maneira totalmente diferente. Enerva-me a maneira como muitos vivem o turismo, como o expõem, facebookam e instagramam, como é adequado dizer que nesse ano se visitou x e y porque alimenta a imagem que gostamos que os outros tenham de nós, porque a validação externa é a razão pela qual muitos vivem e respiram. A mentalidade burguesinha de quem gasta o seu dinheiro da maneira socialmente correcta e valorizada: consumindo turismo.



Não percebo as pessoas que viajam para determinados países só para dizerem que lá estiveram, para poderem legitimamente (ou não) fazer uma cruzinha no país em questão e partir para outro. Ora, eu já pus um pé na Áustria quando me encontrava no topo do Zugsptize, um pico que faz a fronteira entre a Baviera e esse país - isso significa que visitei a Áustria?? Ok, já visitei esse país também na barriga da minha mãe, mas conta na mesma?



Abomino o pessoal que, voltando da Índia me diz "foi uma experiência de vida, conectei-me com o meu verdadeiro eu, vim outra pessoa!" e que mal lá chega "goes native", vestindo o sari e calçando as sandálias de ráfia. Nem tão pouco suspiro por grandes viagens pela Ásia de mochila às costas porque agora é mais barato do que o Interrail. Na mesma medida, não entendo porque as pessoas se fecham em resorts em Punta Cana, Varadero ou na Riviera Mexicana, alheando-se de toda a conjuntura que lhes permite estar ali. Se fosse eu, só se me deitasse com o sol a bater na cara o dia todo e mojitos sempre a chegar para me esquecer onde estava, a pobreza de muitos desses destinos contrastando com a paisagem local e o luxo dos resorts. Mas isso é um bocado o oposto do propósito de lá estar, ou não?  

Well, sorry for not being part of the cool group.

Daqui.
Depois temos África, onde já estive também. Toda a gente diz que quando vai a África fica apaixonada para a vida toda. Ora, a minha família é de Angola e já estive duas vezes em Cabo Verde e nunca senti nada disso. Embora tenha uma aproximação emocional a África porque fui criada a chupar manga e cana de açúcar, a dizer jindungo em vez de piripiri e jinguba em vez de amendoim e porque sei o que é um embondeiro, não senti que estivesse a regressar ao berço da Humanidade quando visitei o Sal e Santiago. 

Adoro Nova Iorque. Adoro lá voltar. Das três vezes em que lá estive, uma um ano antes do 11 de Setembro, outra uns anos depois, a última na lua de mel, foram todas fantásticas e diferentes. Dizem "New York is beautiful in the fall", "New York is beautiful in the spring", "New York is beautiful at Christmas", mas só lá estive em pleno Verão, com direito a tempestades tropicais e tudo, portanto, tenho sempre uma boa razão para lá voltar. Porém, não há coisa pior do que a alfândega no aeroporto. Uma pessoa sente-se criminosa mesmo sem o ser. Parece que no encontro com o agente subitamente sou levada a despejar os meus mais terríveis segredos. "Sim, eu andava à tareia com os meus irmãos quando era mais nova! Eu tinha a mania de comer açúcar em pó directamente do pacote escondido na despensa! Mas por favor, deixem-me entrar no vosso país!". Na alfândega não há margem para nos armarmos em chicos-espertos. Respondemos às questões, tentamos não parecer muito mexicanos e fazer o que nos mandam, senão os agentes da alfândega, imbuídos do espírito do Patriot Act levam-nos para uma salinha, revistam-nos as cavidades que lhes apetecer e depois mandam-nos para Guantanamo. Curiosamente, quando estamos a embarcar de volta ao nosso país de origem não poderiam ser mais simpáticos...

Não gosto de me preparar para viajar. De fazer as malas. De verificar 300 vezes se tenho os documentos todos. Depois a espera para entrar no avião é terrível, a ansiedade cresce. E se esta porcaria cai? Com a minha sorte, cai mesmo. Não sabem, mas eu tenho um longo histórico de "coisas que só me acontecem a mim", entre dois grandes acidentes, daí que o meu marido deteste andar de avião comigo. É um medo compreensível. Eu viajo frequentemente com uma madrasta que só se aventura dentro de um pássaro mecânico sob o efeito de um cocktail prescrito pelo médico e com uma minha irmã que não prescinde de umas margaritas pré-descolagem. Cheira-me que há aqui um problema familiar grave…




Tive a sorte de já ter viajado um pouco. De viver um ano fora do país sem ser em regime de Erasmus, de conhecer aprofundadamente a Europa. Longas viagens de comboio. Um mês em Itália. Paris aos 7 anos. Eurodisney e Parque Asterix em dose dupla. Viagens a dois para experimentar o Eurostar de Londres a Bruxelas. Castelos do Loire. Bolsa do Goethe Institut para um mês a passear e estudar na Alemanha. Tatuagens feitas no Red Light District em Amesterdão. Todas estas viagens ajudaram a construir a pessoa que hoje sou. Daí que me custe perceber que algumas pessoas valorizem estes momentos como mais uma moeda de troca nos seus jantares de amigos.

Gosto de chegar ao meu destino e aproveitar o que tem para me oferecer. Não gosto de seguir guias turísticos nem de planear antecipadamente as visitas. Não frequento obrigatoriamente como um carneiro os "pontos turísticos de interesse", nem vou ao museu x porque toda a gente foi ou porque é suposto ir quando lá se chega. Gosto de andar nas ruas. Do imprevisto. Se for ali vou, se não for, não vou. Adoro a cara de espanto dos outros quando lhes digo que, da última vez em que estive em Nova Iorque, não pus os pés num museu. Come on, já lá estive tantas vezes, não acham que vi todos os Picassos e estátuas gregas? Adoro dizer que só fui ao Met para apanhar wifi grátis e descansar no ar condicionado. Adoro as caras escandalizadas. Esqueci-me de lhes dizer que estava em lua de mel e que fomos a Nova Iorque por....... outras razões. Que andámos nas ruas de mãos dadas. Que conversámos e conversámos. Que tivemos peripécias em Chinatown que não lembram ao Diabo. Que fugimos de uma tempestade num rooftop na Quinta Avenida. Que jantámos numa esplanada ainda molhada da chuva e iluminada com pirilampos. Que da próxima vez que viajarmos será para a costa de Amalfi, mas quem sabe também poderei voltar a Londres para rever amigos, porque Inglaterra faz parte de mim e sempre fará. Ou vou conhecer um bairro parisiense com mais detalhe. Não vou viajar no sentido em que as pessoas viajam, mas vou fazer uma viagem e ninguém tem nada a ver com isso. No entanto, se não o fizer, também não me sentirei menos por isso nem que não estou a viver ao ritmo dos restantes.

No entanto, não posso deixar de me questionar: porque é que as pessoas gostam tanto de visitar outros países e não se dão ao trabalho de dar uma volta ao quarteirão para conhecer quem lá mora? Porque não falam com os vizinhos e se perdeu o hábito de pedir xícaras de açúcar quando este falta para terminar um bolo? Porque é que estas pequenas coisas perderam o seu valor e o que importa é a competição, muitas vezes gerada entre casais, para ver quem consome e mostra mais, perdão, quem é mais feliz?

“Why do you go away? So that you can come back. So that you can see the place you came from with new eyes and extra colors. And the people there see you differently, too. Coming back to where you started is not the same as never leaving.”
Terry Pratchett, A Hat Full of Sky

 

Comments

  1. Muito bem analisado, sim senhora! :)
    Eu adorava MESMO era ir a Nova Iorque MESMO MESMO MESMO

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    1. Nova Iorque é um sítio tão complexo e intenso que nem que vás lá uma vez por ano consegues absorver metade. Foi sempre o nosso destino de eleição para a lua de mel e preferimos fazer uma semana em grande do que escolhermos outros destinos mais baratos ou exóticos. Fala com o teu J. e poupem para ir a Nova Iorque que vale mesmo a pena!

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  2. Eu adoro viajar, tiro sempre imensas fotos e gosto de as mostrar... quando regresso!
    Mas faz-me imensa confusão as pessoas que vão de férias e todos os dias metem fotos no facebook ou no blog ou que são vão a certos destinos porque é moda e não sabem nada sobre o país em questão!

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    1. Nem são as fotografias que me incomodam, é a maneira como as pessoas encaram as viagens, como se fossem um troféu. Ou como diz o meu marido, uma prova de que "eu fui lá e tu não". Deve ser por isso que postam tanto no facebook, o que diga-se de passagem também tem vantagens porque assim vejo se quiser. Não tenho mesmo paciência é para sessões de fotografias, álbuns ou projecções de slides (acho que esta caiu em desuso) das férias dos outros...

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  3. Vá até agora ainda viajei muito pouco: andei a descobrir um pouco mais de Portugal, fui a alguns sítios de Espanha, fui a Paris e Estrasburgo. O resto fica para quando tiver mais posses económicas :)
    Claro que pretendo viajar mais um pouco, não porque é giro e tal e fica bem, mas porque tenho mesmo curiosidade em conhecer outros países, outras culturas, outras gastronomias. Quero perder-me em Londres, palmilhar as ruas, quero ir à Finlândia, outra vez a Paris, à Alemanha, a Roma, a Madrid até e sabe-se lá que mais. Quero mais, sim, mas para mim, não para apregoar aos outros :)
    Já que só tenha esta vida, quero viver o máximo que puder, experimentar, sentir. Quero mais, sim, mas para mim não por causa dos outros ^^
    Beijinhos

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    1. Ora nem mais. De dentro para fora, nao de fora para dentro... ;)

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