20 anos sem ti.


Já comecei a escrever este post vezes sem conta, na minha cabeça, no computador. Fará sentido que assinale esta data para que todos saibam porque hoje não deveria existir? Queria tentar explicar porque me fazes tanta falta todos os dias, mas fogem-me as palavras. Porque é que há 20 anos carrego comigo para onde quer que vá uma pequena moldura dourada com a tua fotografia. Mais um objecto de transição que não transitou para lado nenhum... Não sei em que pensavas para quereres registar num suporte tão pequeno os teus olhos bondosos, a tua testa alta e o cabelo grisalho. Atrás, uma dedicatória: "da avó amiga". Pensarias que já não te restava muito mais tempo connosco? Foste feliz até ao fim? Ou doeu-te quando morreste?

Sempre pensei que quando partisses, eu morreria também. Não admitia a ninguém que gostava mais de ti do que dos meus pais porque não queria arranjar mais problemas, nem to queria dizer a ti. Tinha tanto medo que se expressasse alto e por palavras tudo o que sentia por ti, me serias tirada. Tornei-me assustada e supersticiosa. Por isso nunca to disse. Mas quero acreditar que soubeste. Deves ter percebido porque nunca adormecia se não estivesses por perto. Tinha febre quando o meu pai nos vinha buscar para passar o fim de semana e, quando ele partia zangado apenas com os meus irmãos, a temperatura voltava ao normal. E jogávamos Monopólio o sábado todo sem que nos cansássemos. Vivia na cozinha entre o forno e a mesa da costura porque era esse o único espaço que podias chamar de teu, já que nem um quarto só para ti tinhas. Envelheceste, não viam em ti mais utilidade do que em casa e tornaste-te um peso de receitas para a diabetes e meias para a má circulação. Nem três maços de Português Suave todos os dias anulavam essa ansiedade toda de ser um fardo. Vivias dependente da boa vontade de quem muitas vezes te faltava ao respeito e dizia que eras melhor avó do que tinhas sido mãe. E foi por isso que sempre disse que não queria ter filhos, mas apenas netos.

E naquele último domingo, na véspera da operação que te salvaria a vida, estivemos contigo. Os meus 10 anos arrastaram aquele dia no hospital, já não havia o que fazer, escadas para subir, nem mais revistas para ler. Foi um alívio quando voltámos para casa. E depois à noite tocou o telefone. E eu soube. Soube antes que alguém falasse, soube antes da cara da minha mãe se ter modificado, soube antes que alguém mo dissesse. Esse dia deixou de existir para mim. A estrada à frente daquele hospital deixou de fazer parte do meu mapa. E meses depois convenci-me que não fazia sentido ter ficado para trás e acreditei que vinhas buscar-me. A sensação de sufoco, o aperto, a perda de segurança entrou pela minha pele e tornou o meu corpo insuficiente para me conter. E lamentei não ter aproveitado melhor aquele domingo, tal como lamento todos os domingos que não voltámos a passar juntas. E continua a doer exactamente o mesmo, todos os dias destes últimos 20 anos.

Quero acreditar que estás comigo, que olhas por mim, que não te reduzes a uma campa ao longe. Quero acreditar que tens orgulho em mim, embora faça muito pouco para o merecer. Quero acreditar que um dia voltaremos a estar juntas, senão nada disto faz sentido. Mas no fundo eu sei que já te deveria ter dito adeus. Que quando saímos do teu quarto no hospital eu soube que seria a última vez que te veria e por isso larguei a mão da minha mãe e voltei para o pé de ti, sozinha, para te dar um último beijinho. E no dia em que eu conseguir perceber isso, ou quando encontrar alguém que tenha por mim todo esse amor incondicional que era recíproco mas que nunca to transmiti correctamente, sei que nesse dia vamos ter finalmente paz. 



Comments

  1. A melhor recompensa que a tua avó poderia ter, é saber que vives feliz. Não te preocupes, ela está sempre contigo, zela por ti e acompanha-te todos os dias, o bater das asas de um anjo que sentes por vezes, é ela que está ao teu lado.
    O teu texto é lindo, estou com lágrimas nos olhos.

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  2. As palavras são poucas para dias destes....um abraço forte e sentido meu!!!
    Bjinho
    Rita

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  3. Sinto-me ridícula a comentar este post (o que é que posso dizer, eu que venho de fora, a um texto tão carregado e sincero?) mas não podia passar como se não o tivesse lido - porque li e aproximei-me de ti de alguma forma que não sei bem explicar. Deixo-te as melhores palavras que queiras ler neste momento (que não sei quais são, mas se soubesse diria com todo o prazer). *

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  4. fiquei comovida, este texto está cheio de amor.
    eu já não tenho avós e sinto muito a falta deles...

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  5. O texto é realmente comovente... Também perco as palavras perante um texto cheia delas, que transborda significado. Não sei o que isso é, não sei o que é amor de avós, é diferente de amor de pais? Nunca saberei. Mas por aqui consigo ter uma pequena ideia do que é... Um grande beijinho

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  6. Obrigada a todas pelos vossos comentários. Beijinhos

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  7. Como sou uma Maria Madalena, acabei de ler com as lágrimas a caírem-me.
    Já vi partir pessoas que amei e continuo a amar, porque as sinto vivas no meu coração, como tu sentes a tua avó.
    São as boas recordações, os bons momentos que a nossa memória recorda e o coração guarda como se fossem tesouros.
    Não construas muralhas, deixa entrar o amor de novo, porque nada te vai fazer esquecer aqueles que amas.
    Beijinhos

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    1. Obrigada pelo teu comentário. Acho que a chave do que disseste é mesmo "não construas muralhas". Beijinho

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  8. AO ler o teu texto não posso deixar ficar comovida.
    Transmite bem o que sinto... Não foi há 20 mas faz amanha 12 anos perdi a minha mae.
    Também nunca lhe consegui transmitir o amor que por ela tinha...
    Aprendi uma coisa... Nunca devemos deixar nada por dizer. Li uma vez num livro "Doi menos a ausência que aquilo que entre nos ficou por dizer".
    Beijinhos

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    1. Lamento imenso, Rosário. Um beijinho e obrigada pelo teu comentário

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  9. Tão bonito e cheio de amor MJ. Um beijinho e um abraço apertado

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  10. Tão bonito e cheio de amor MJ. Um beijinho e um abraço apertado

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  11. Muito bonito....não há muito a acrescentar...

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