Aos meus irmãos.


Sempre pensei que em virtude do divórcio dos meus pais, da violência com que crescemos, das decisões abruptas que fomos obrigados a tomar cedo demais, nunca teria uma relação saudável com os meus irmãos. Cresci a pensar que necessitaríamos sempre de mediadores, de redes de segurança e de aceitar que a agressividade que sempre permeou a nossa infância seria o metrónomo da nossa relação. Três filhos usados como bolas de ténis. Levanta o braço para o serviço, atira com mais força. A bola cruza os dois campos com a velocidade de quem a atira. O jogo começou.

Quem teve o interesse em instituir as regras de "uma relação saudável" retirava benefícios desta dinâmica. O ego de quem se acha essencial para o normal funcionamento das instituições, a falsa caridade, o desejo de entregar em bandeja de prata o que outros nem se deram ao trabalho de manter, tudo isso motiva quem entra mais tarde no jogo de uma família em farrapos. Sempre marionetas... com a diferença que, ao crescer, consegui ver os fios que nos moviam. De um lado e de outro, puxa para cima, cria um triângulo em que três crianças, jovens e adultos são apertados, esticados, manipulados, remodelados, atirados, jogados, acomodados e embalados. Não há como errar quando o interesse maior não é o de quem não tem como se defender e só aprende a fazê-lo replicando os gestos e comportamentos que abomina. Porque a melhor defesa é o ataque, sempre pensei que não haveria no mundo lugar para nós os três, para que nos déssemos os três ou para que nos sustivéssemos por nós apenas. Porque quando quem nos colocou cá se odeia e nos odeia porque os lembramos dos erros passados, torna-se difícil não nos odiarmos um pouco mais a cada dia. 

Até que percebi que todo o boneco manietado eventualmente ganha vida. Alguma estrela cadente cruza o céu e um desejo é gritado. Quando a esperança é vã e o dia seguinte custa a chegar, olhamos mais para o céu à procura de respostas. E os bonecos ganham vida. Soltam-se da rigidez da madeira, rebentam os fios com a mesma violência com que estes foram atados. Novas perspectivas são ganhas com a liberdade de movimentos. E fica tudo para trás, excepto a base que nos uniu, as recordações que são as nossas e a compreensão de algo que não se explica. Depois vêm as outras irmãs, as que gostam de nós pelo que somos e que não se aventuram em jogos que nem sequer foram obrigadas a jogar. De todos estes momentos, somados, calculados e apreciados, ficamos com o que é essencial. E o que é essencial aqui não é a base, mas o que construímos e que nos une.

E se estiverem a ler, obrigada.


"You don't always get what you want. But if you try sometimes you get what you need." ~ The Rolling Stones


Comments

  1. Bom... o que dizer depois de um texto destes. Tenho muitos irmãos, se for contar os que são só da parte do pai, os que são só da parte da mãe, os que são da parte do padrasto... no entanto, considero meu sangue os dois que partilharam a mesma barriga que eu. Estivemos os três ali naquele espaço apertadinho e isso para mim é o maior laço que temos. Não posso dizer que tenha tido uma infância fácil, tanto é que nunca irão me ouvir dizer que tenho saudades de ser criança, porque não tenho. Mas por alguma razão nós os três sempre nos agarrámos uns aos outros. Mais eu a eles do que o contrário, já que era mais velha e sentia um instinto de protecção inexplicável. Amo estes miúdos mais do que a própria vida e não consigo imaginar, de forma alguma, um futuro sem eles à mesa num jantar, sem as piadas de quem se conhece desde que nasceu. Acho que os irmãos são o que podemos levar de melhor na vida, sangue do nosso sangue mas melhores amigos por opção!

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    1. a minha relação com os meus irmãos não é de todo perfeita e tem muitos altos e ainda mais baixos. mas nas alturas importantes, como ontem, eles estiveram comigo. e face a quem poderia ter estado e não esteve, para mim diz tudo. beijinho*

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  2. Eu não tenho irmãos, como sabes, MJ, mas gostaria muito de os ter.
    Tu tens a tua história, mas tens pessoas do teu sangue, que são como tu, que partilham raízes. Eu não tenho isso e às vezes sinto que se a lei da vida seguir o seu curso, haverá um momento em que não terei raízes. Esta realidade não me frita o cérebro, mas está latente.

    xo

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    1. raízes tens sempre, MJ, porque as recordações ninguém tas tira. e tens a família do j. que, não sendo de sangue, é igualmente especial. beijinho*

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  3. Opa, puseste-me a lágrima no olho..e sim, um dia a personalidade ganha vida e as pessoas são aquilo que querem e não o que os outros querem que elas sejam! É bom teres irmãos que quiseram ser de facto irmãos, no verdadeiro sentido da palavra;')

    E eu fico com um bocadinho de inveja de não ter uma catrefada deles:P

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    1. eu tenho quatro, posso ceder-te alguns fim de semana sim, fim de semana não! aceitas? ;)
      e a lágrima no canto do olho só apareceu porque tu sabes exactamente ao que me refiro e para bom entendedor meia palavra basta. e os amigos também são família, sabes? ;) beijinho*

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  4. Eu e os meus pais somos filhos únicos para é "tradição" na nossa familia os irmãos não se falarem, por isso ...
    Mas é triste quando os pais usam os filhos quando deveriam pôr os seus interesses e bem-estar em primeiro lugar.

    Bjokas.

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    1. pois é, mas infelizmente também acontece. beijinho*

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