Book review - Julie & Julia.





Autora: Julie Powell
2010 [2005]
Editor: 11X17
ISBN: 9789722521215

No ano passado, durante um dos meus períodos de exílio para dar um avanço na tese de doutoramento, assisti a este filme interpretado por Amy Adams (Julie) e Meryl Streep (Julia). Tinha de relaxar de alguma maneira, certo? O filme é muito divertido, muito bem interpretado (chegou a valer mais uma nomeação ao Oscar a Meryl Streep, para variar...) e leva-nos numa viagem muito interessante entre duas vidas aparentemente tão diferentes, distando em paralelo no tempo e no espaço, que misteriosamente se cruzam na cozinha. Antes de abordar a temática do livro, devo acrescentar que o adquiri na Bertrand (não online, mas na loja de Picoas, que é muito sossegada e tem uns funcionários simpatiquíssimos e muito prestáveis) por um preço irrisório, visto tratar-se de um livro de bolso com desconto. Não tenho nada contra os livros de bolso: são mais baratos, são mais fáceis de transportar e a história é a mesma. Tudo prós. Excepto que num livro com quase 400 páginas, somos obrigados a fazer a ginástica constante de forçar as páginas para conseguir ler o centro das mesmas. Não tem graça, mas que esperava eu por pouco mais de 5€?...

Agora, a história.

Julie tem quase 29 anos e recebe a notícia de que dificilmente poderá vir a ter filhos. Sente que o seu corpo a atraiçoa e falha, obrigando-a a prestar atenção a um relógio biológico que corre mais rápido que o das outras mulheres. Ao mesmo tempo, a virada para a terceira década é acompanhada pela falta de realização profissional. Mais uma actriz que se mudou do interior dos Estados Unidos para Nova Iorque e não vingou, Julie recorda-se da luxúria que a culinária lhe desperta aquando de uma visita aos pais. Leva na mala de volta a casa o exemplar da mãe de Mastering the Art of French Cooking de Julia Child e que supostamente estaria presente na cozinha de todas as mulheres americanas (à semelhança do que cá acontece com o Pantagruel ou pelo menos com uma obra da Maria de Lurdes Modesto) e após uma refeição bem sucedida, Julie decide completar um ano de receitas publicando-as num blogue. Não tinha nada a perder, queria experimentar fazer algo que a obrigasse a chegar até ao fim. Motivada pelo sempre encorajador Eric, o seu marido e companheiro de longa data, Julie embarca neste projecto numa fase indefinida da sua vida em que "talvez precisasse de fazer como uma batata, reduzir-me, fazer parte de qualquer coisa que não era fácil, mas apenas simples" (p. 35).

E começa assim. Julie muda radicalmente a sua rotina: sai do escritório onde trabalha como secretária e percorre as mais exóticas mercearias para encontrar ossos com tutano, miudezas, lagostas vivas. Os seus amigos e família envolvem-se na sua vida através do blogue, desconhecidos apoiam-na ou criticam-na. Televisões querem entrevistá-la, críticos de culinária pedem para jantar no seu diminuto apartamento. A vida mudou para Julie apenas porque se decidiu a levar algo até ao fim, que não fácil, mas simples. Que só lhe custou começar e depois manter. O resto fluiu.

O livro é claramente diferente do filme, mas muito interessante e motiva-me a reflectir vezes sem conta até que ponto é que uma pessoa investida num projecto, seja ele qual for e por mais manteiga e natas que envolva, pode usá-lo para se superar a si própria e sair da sua zona de conforto. É sem dúvida um livro de leitura rápida e leve, uma abordagem interessante à maneira como chegados a uma determinada altura da vida somos obrigados a reflectir sobre qual o nosso papel neste grande planeta azul. Até onde chegámos, o que queremos a partir daqui, o que conquistámos e será que isso importa alguma coisa. Certamente não para o planeta azul. Mas para nós, para os outros, para os projectos em que nos envolvemos e que convém terminar, para as diferentes e improváveis maneiras que nos permitem transcender os planos que fizemos, a importância de dar um passo atrás para avançar dois em frente, o significado do acaso... Podia encher o parágrafo de clichês que, mesmo assim, continuariam a ter algum sentido para mim. Talvez porque em breve também eu chegarei aos 30 anos e me vejo obrigada a reflectir sobre as últimas três décadas. Ou pelo menos as últimas duas, já que a primeira está entregue às memórias da minha infância e ao papel que a minha avó teve nela. Não porque não faça sentido reflectir sobre os meus primeiros 10 anos de vida, mas quando somos felizes, porquê rebuscar nessas memórias? E depois vêm os 20 anos seguintes e eu penso como cheguei aqui, os planos que fiz e o que me esperará depois de dia 11. Como se a vida não fosse um contínuo e as decisões e consequências dos meus actos não estivessem há muito determinados... 

Vou então terminar com outro clichê, se me permitem. Porque nem todas as boas histórias têm de vir embrulhadas em grandes calhamaços e obrigar-nos a perder o sono. E porque acredito num bom final feliz, para quem caiu na asneira de ainda não ter visto o "Silver Linings Playbook" ou se atreveu a julgar muito rapidamente as interpretações dos actores neste filme, cá vai:

"You have to do everything you can and if you stay positive you have a shot." (Pat Solitano Jr)




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