Das listas de livros.


Em relação às listas de livros a ler, a minha opinião é esta:

"There is only one way to read, which is to browse in libraries and bookshops, picking up books that attract you, reading only those, dropping them when they bore you, skipping the parts that drag–and never, never reading anything because you feel you ought, or because it is part of a trend or movement. Remember that book which bores you when you are twenty or thirty will open doors for you when you are forty or fifty–and vice versa….Above all, you should know that the fact that you have to spend one year, or two years, on one book, or one author means that you are badly taught–you should have been taught to read your way from one sympathy to another, you should be learning to follow your own intuitive feeling about what you need: that is what you should have been developing, not the way to quote from other people."  (Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura 2007)

É engraçado este blogue onde o autor se propõe a ler os 100 romances listados pela Time Magazine, embora discorde da razão que o motiva (faz-me lembrar novamente o Julie & Julia, um projecto que transcende quem o inicia e que à partida os autores não o fariam, mas que se treinam a concluir...). Bom, parece que ele também já se acha estúpido por estar a ler orientado por listas que outras pessoas fizeram. Se os críticos literários forem da mesma raça desprezível dos críticos de cinema, bem podem escolher 3000000 livros que eu não os vou ler. Concordo que cada um tem de fazer a sua lista e, embora não seja da opinião que devemos pôr de parte um livro porque não nos está a cativar (às vezes, como muitas coisas na vida, é preciso insistir até aprender a ganhar o gosto), também é preciso saber quando já chega e temos de desistir. Dizem que se chama maturidade e à porta dos 30 anos, atrevo-me a sugerir que o equilíbrio está entre saber quando desistir ou quando nos devemos forçar a continuar...  em tudo. Eu tenho a minha lista para os próximos tempos, organizada por prateleiras de prioridades que não consigo esvaziar em tempo útil porque 1) passo a vida a comprar livros; 2) passo a vida a pedir livros emprestados e regra geral são calhamaços; 3) muitos dos clássicos estão no iPad, logo o molho de livros não desce.

Não consigo entender, por exemplo, porque é que alguns autores têm mais do que uma obra em algumas listas, porque encontramos um determinado livro de um autor e não outro, porque alguns não aparecem aqui mas aparecem noutras listas, porque é que o Senhor dos Anéis aparece (é só a minha opinião pessoal, porque não sou fã de sagas do fantástico excepto As Brumas de Avalon que li há uns 15 anos atrás de uma enfiada), onde estão os Pulitzer e quantos Prémios Nobel não faltam... No entanto, a título informativo e orientador estas listas são bastante úteis, assim como a lista das compras antes de ir ao supermercado: há sempre bens essenciais a comprar, mas a magia encontra-se precisamente em trazer o que salta mais à vista porque queremos experimentar uma receita mais exótica ou porque - na maioria dos casos - está em desconto. Não se faz nada sem atum ou farinha, mas estes também ficam meses na despensa sem que lhes pegue, enquanto outros ingredientes tornam a nossa vida mais rica.

Outro ponto de que as pessoas quando se metem a ler listas de livros não falam é que não lhes serve de nada ler 50 obras de empurrão se não percebem a conjuntura, os movimentos literários, o contexto social, económico e cultural que os envolve. Já para não falar da capacidade de apreciar um livro estilisticamente bem escrito. Muitas vezes, a biografia do autor também ajuda. Como dizia um amigo meu grande apreciador da poesia de Eugénio de Andrade, nunca mais conseguiu ler o "Adeus" da mesma maneira desde que descobriu que o autor era gay (ele não disse assim, eu é que estou a usar um eufemismo...). Facto é que a nossa percepção de uma obra varia bastante considerando o que sabemos do autor, o que conhecemos sobre o movimento em que se insere, as batalhas pessoais ou comuns que teve de travar, sem contar com as pessoas com quem socializava e o impacto que elas poderão ter tido nas suas obras. Isso tudo se reflecte nos seus livros e ajuda-nos a entender o que não vem escrito ou que se encontra apenas nas entrelinhas. Por isso é que gosto tanto de ler biografias, ensaios académicos sobre obras literárias e páro muitas vezes para consultar o wikipedia enquanto estou a ler um livro. Aliás, as "minhas listas" foram construídas assim: saltando de link em link até encontrar a obra seguinte a acrescentar ao goodreads.

Acho que uma pessoa que não tem um mínimo de cultural geral (o que quer que isto signifique), até pode queimar as páginas dos livros todos e snifá-las que a absorção será a mesma. Quero acreditar que é por isso que quando em miúda li o Siddhartha ou o Perfume não gostei nada, e não porque são obras claramente sobrevalorizadas e que, se se reparar bem, nos questionários das revistas do social, actrizes da TVI e pseudo-modelos-quase-actores-da-TVI apontam sempre como os seus livros de eleição. Às vezes não basta fazer um traço em cima de uma obra para se dizer que já se leu (até porque ler um livro destas listas da Times ou do The Guardian são projectos em si só que, como uma boa refeição, levam o seu tempo a digerir; não é fast food que se despacha em 15m para se ter fome passadas 2h) e leve-se o tempo que se levar, se aquilo que estamos a ler não faz sentido para nós agora, pode vir a fazer sentido noutra fase da nossa vida. O que eu gostava mesmo era de ter tempo para ler TUDO para saber TUDO e perceber as conversas TODAS, porque se há assunto sobre o qual gosto de conversar é sobre livros e porque os projectos pelos quais me interesso são sempre megalómanos. Não pelas listas que os outros fazem, mas pelo prazer que me dá ler e pelo conhecimento que adquiro a seguir. Quando falo com alguém que me recomenda este ou aquele livro, automaticamente sinto-me como se estivesse a dever-lhe qualquer coisa que se resume na maioria das vezes a uma troca de impressões sobre o que ela quer falar. Invariavelmente a conversa acaba com um: "parece-me giro, emprestas-mo?". E lá vai mais um para o molho.

Seja como for, há determinados autores que lamento imenso ainda não ter lido, pelo impacto que têm em termos históricos, em termos sociais, em todos os aspectos. Um deles é sem dúvida Saramago, mas não consegui terminar o Memorial do Convento aos 20 anos e acabei por só ler um conto sobre uma ilha deserta ou lá que era (uma edição da Expo 98, vejam lá o meu interesse!). Mas como Saramago uma vez me deu um grande abraço, estrafegando-me debaixo da sua axila de homem adulto com 1m80 (ou pelo menos assim me pareceu), sinto que lhe devo ler o Ensaio sobre a Cegueira. Correndo o risco de perder a imagem de avô simpático que tão solicitamente me autografou um livro depois de me asfixiar e poucos minutos antes de um carro se espetar contra a minha porta num cruzamento em Algés, acho que lhe vou dar uma chance nos próximos tempos. 

E para concluir, uma frase dita pelo meu professor da aula de escrita criativa (onde não aprendi a escrever nada, mas muito sobre literatura, o que enriqueceu a minha lista de livros a ler antes de consultar outras): se recomendasse um livro a alguém que aprendeu a ler aos 35 anos e tivesse a partir daí apenas o tempo até à sua morte para ler, qual seria? De acordo com ele, certamente não "os russos" ou "os franceses" (é tão pedante chamar-lhes assim como usar "o" antes de Eça, como se fosse possível alguém chamar a Lobo Antunes, "o" Lobo) ou livros que demorassem uma eternidade e fossem massudos de ler. Ele aconselhou Henry Miller, eu aconselhava Isabel Allende. Pode não ter a aura de glamour ou o charme, pode ter uma inclinação esquerdista muito mal disfarçada e preencher as fileiras de feministas de uma maneira com a qual me identifico pouco (embora recentemente se tenha moderado), mas como para mim A Casa dos Espíritos é muito mais do que o que se encontra naquelas linhas, então essa será sempre a minha recomendação. Quer se tenha deixado de ser analfabeta aos 30 ou se dê o salto da Anita para algo com mais consistência aos 14 anos, A Casa dos Espíritos é para mim a solução. E se esta obra não se encontra em nenhuma lista obrigatória de livros a ler, well... shame on them.


Comments

  1. O Senhor dos Anéis imperdoável. ;) As Brumas de Avalon, tentei mas desisti apesar de muita insistência da minha C. A Zimmer Bradley é o Ken Follett dela, if you know what I mean. Lobo Antunes não! Talvez pelo facto de ser professor, de ter estado numa aula com ele e de ter ficado com uma péssima opinião dele.

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    1. As Brumas de Avalon é livro de gaja, é natural que não tenhas gostado. Por acaso tenho curiosidade em relação ao Ken Follett, apesar do estilo em que escreve. Li algures que uma das razões apontadas para o António Lobo Antunes ser como é (genial, rude e anti-social) se deve a um possível síndrome de Asperger. Eu nem me lanço nos livros dele porque li algumas crónicas e não percebi nada, acho que ainda fiquei mais confusa... O João Lobo Antunes conheci numa conferência e achei-o muito "nós médicos é que sabemos tudo!", mas tenho aqui um ensaio dele a ler para dsmistificar a coisa. Já a minha imagem de Saramago oscila entre a tal vez em que o conheci e a pinta de comuna ressabiado, que é algo que odeio visceralmente. Por isso é que também ainda não insisti muito para os lados dele. Agora quem eu tenho muita curiosidade de ler é António Damásio... tenho várias obras dele aqui em lista de espera e sei o quão importante se tem tornado para a Antropologia Médica e das Emoções recentemente pela ponte que faz entre natureza e cultura, pelo que tenho duplo interesse no que ele tem para me contar...

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