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Ontem tive de tomar uma decisão difícil, daquelas das quais provavelmente irei arrepender-me a longo prazo, mas que teve de ser tomada. Pela minha sanidade mental, pelo bem estar de quem me apoia e me rodeia. Sendo eu a única responsável pelos meus erros, não me compete fazer com que outros os paguem por mim. Literalmente. Já não bastam as situações que não posso evitar, não me posso agarrar por capricho a pequenos luxos que mais não são do que isso mesmo: caprichos.

Eu sou uma pessoa muito orgulhosa e crítica. Há determinados comportamentos que não admito nos outros, não sou perfeita, mas esforço-me por ser uma pessoa melhor e por aprender com os meus erros. Por pedir desculpa quando percebo que agi mal ou magoei alguém. Porém, há limites. Há limites que me imponho a mim e que estabeleço para os outros. Deixei de ter tempo ou disponibilidade mental para determinadas coisas e aprendi da pior maneira onde traçar a linha. Deixei de ter paciência para pais que deixam as filhas no hospital quando elas vão ser submetidas a uma cirurgia porque não se querem cruzar com a ex-mulher nem admitem que esta faça parte deste momento. Para pais que não desejam um feliz aniversário às filhas - vários anos e por diferentes razões. Para pais que envolvem as filhas nas suas guerras eternas com outras pessoas ou instituições, que impõem a sua lei pela violência e através do medo. Para mães egoístas, tóxicas e manipuladoras. E para pseudo-mães com a verticalidade moral de um polvo e interesses pessoais mal disfarçados.

Quando se torna muito claro para mim que não sou a prioridade, que a suposta rede de segurança composta pela família funciona como um poço sem fundo onde volta e meia torno a cair (ou para onde sou empurrada, para ser mais exacta), que não posso esperar nada para além destas variações de humor e hormonais de que se compõe quem me trouxe ao mundo, então as decisões a tomar, mesmo que difíceis e dolorosas, são as mais acertadas. E mesmo quando duvido, quando me apercebo com toda a clareza quais serão as consequências no futuro para mim e me sinto vacilar, recebo notícias inesperadas que me confirmam os meus anseios e percebo que sim, estou sozinha.


Comments

  1. Pelos vistos a coisa está difícil para esses lados...muito força para estes momentos, custam agora mas a longo prazo acaba por compensar.
    Beijinhos e muita força.

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    1. sim, tudo passa. a bem ou a mal... beijinho e obrigada

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  2. No momento de decidir o que pensamos ser o melhor para nós, estamos sempre sozinhos. No entanto, não tomes nenhuma decisão definitiva se não tens a certeza de poder carregar um fardo tão pesado para o restante da tua vida. Pensa, comunica, faz com que as pessoas envolvidas percebam a tua dor e tristeza, o teu desespero e em último recurso, tomas uma decisão definitiva. Como eu costumo dizer, só a morte é que não tem solução, tudo o resto pode ser resolvido.
    Head up little princess :)

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    1. para haver comunicação é preciso que dois lados conversem. quando existe uma lei que é obrigatório seguir e nada mais, deixa de haver comunicação possível. já houve várias tentativas para tentar encontrar um equilíbrio e voltamos sempre ao mesmo porque nesta família não há democracia, mas apenas guerras de poder. a decisão que tomei pode afastar-me ainda mais de quem já se afastou de mim, mas vai melhorar a minha vida e a de quem está perto de mim e me apoia. é a única maneira de manter a cabeça erguida e mostrar que não cedo a pressões e que se é para mudar, então mudamos todos, não apenas eu. infelizmente não sou eu que decido os fardos que tenho de carregar, apenas posso controlar como reajo a eles.
      obrigada pelo teu comentário, estive a pensar bastante no que escreveste para te responder, mas ajudou-me ainda mais a esclarecer as minhas ideias. :)

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  3. Não estás sozinha...por várias razões eu estou contigo!
    Coragem!

    **
    Aida

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    1. imagino que não seja pelas melhores razões. mesmo assim, obrigada, aida*

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  4. É difícil definir família... Eu ainda tenho o cordão umbilical ligado à minha mãe, e um outro invisível que me liga aos meus dois irmãos. A minha família acaba ai... O resto são todos apenas familiares com quem me dou em comemorações mais exigentes. De resto, não nos fazem falta à volta se apenas trazem discussões, guerras, ressuscitações de um passado que devia morar no passado e se não há ninguém com disposição suficiente para fazer um esforço e tornar a convivência algo melhor, apetecível ou simplesmente suportável.
    E quando assim não é... a melhor escolha é mesmo optar apenas por quem nos faz bem. Parece simples, sei que deve ser muito mais complicado do que isso, mas penso que no teu lugar optaria por uma decisão difícil mas necessária...

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    1. exactamente, difícil mas necessária. começam a ser muitas em poucos anos, sabes? mas espero que desta se resolva de vez. estou disposta a arcar com as consequências e a lutar para que a minha decisão me favoreça a mim e ao p., já que dificilmente poderemos contar com mais alguém. e o futuro logo se verá...

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  5. Força!! Às vezes é preciso tomar medidas mais radicais... Mas se elas garantem a nossa sanidade mental, seja! Mais vale estarmos com quem gosta realmente de nós e nos quer bem!

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  6. Minha querida LE, é difícil colocarmo-nos na pele dos outros, por isso a minha opinião é só mesmo isso, uma interpretação a partir de onde os meus pés pisam. A minha mãe tem quase o dobro da nossa idade e acho que ela devia ter tomado uma decisão, quando ainda era tempo. Agora já não pode. Por isso, antes cedo que nunca (e não o contrário). Se tomaste uma decisão tão ponderada, tem que ter sido uma boa decisão. Força. :)

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    1. mais do que ponderada, foi necessária e vai significar uma viragem positiva na minha vida tal como um corte simbólico com relações que existem sem sentido. obrigada*

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    2. E em relação à tua mãe, sabendo muito pouco da situação, só posso dizer que ambas as decisões são difíceis: ficar ou nao ficar. Não há uma correcta quando se trata de família, porque, por mais que tentemos cortar e nao faça sentido manter proximidades, há algo que nunca se perde. Por isso é que às vezes nem tarde nem nunca.

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  7. Por vezes temos de cortar as amarras e seguir em frente mesmo que o caminho seja sinuoso e cheio de obstáculos! Coragem e força é o que te desejo e tenho esperança que vai correr tudo bem!
    Para o que precisares estarei por aqui!

    beijinhos e bom fim de semana

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  8. Como eu, infelizmente, conheço tão bem essa realidade... E ao fim de 34 anos disso, procurei um psicólogo! Ajudou e muito... Muita forca!

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    1. nada contra e já tive de fazer o mesmo, mas neste caso não se justifica. o que havia para aprender, já eu sei. beijinho

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  9. Felizmente, revejo-me apenas em parte da tua descrição, digo felizmente já que a minha mãe depois do divorcio soube sempre manter uma relação muito saudavel com o meu... Já o mesmo não se pode dizer do outro lado.
    Sabes que, durante muito tempo sente-se uma réstia de esperança e insiste-se, mesmo que o bom senso nos diga que tudo irá falhar. Por isso, chega a um ponto que o mais saudavel, para a mente e para o coração, por muito que possa custar é o afastamento.

    Um abraço apertado

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    1. Marisa, obrigada pelas tuas palavras. Começo a assustar-me que tanta gente se reconheça no que escrevi, directa ou indirectamente. Mas por outro lado faz-me sentir menos sozinha e sem dúvida menos insegura acerca da decisão tomada.
      Outro abraço*

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  10. Se eu percebi bem o teu post..... felizmente eu não sei o que é passar pelo que tu tens passado, mas infelizmente a minha filha mais velha sabe muito bem o que isso é, o nome que consta no bi dela é isso mesmo, um nome.... neste momento ela tb nem quer falar sobre "aquele senhor" mas nunca sabemos o dia de amanhã, Eu como mãe durante uns tempos fiz de tudo para que isso não acontecesse mas ele em nada ajudou por isso tenho eu feito os dois papeis e ela sabe que eu estou sempre onde ela precisa......
    Decisões dificeis, sim, mas definitivas!!!! nunca se sabe.... só o tempo o dirá. Mas o mais importante é sentires que neste momento a tua decisão é a melhor para ti e se daqui a uns tempos achares que deves mudar, tudo bem, como já alguém disse, só não há remédio para a morte

    Bjokas e sê feliz :-)
    http://saboresleveslena.blogspot.pt/

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    1. lamento imenso pela tua filha. não percebo porque em algumas alturas os pais põem quezílias à frente do bem estar dos filhos. provavelmente nem querem saber o quanto os afectam.
      beijinho

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  11. Já tenho aqui uma nota a vaguear pelo telefone sobre este post.

    Apesar de tudo isto te custar, parabéns! Significa que a tua personalidade está a crescer. Os pais e restante família nuclear são sempre uma referência nos primeiros tempos. Por isso, é tão fácil desculpar comportamentos, erros graves e manipulações. Mas à medida que a nossa personalidade cresce, os nossos valores e princípios evoluem. Comportamentos que tolerámos no passado podem tornar-se intoleráveis no presente. A distância emocional torna-se inevitável e quase sempre é dolorosa. Mas tudo isto é saudável!

    A tua parte está feita...

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