"You can't help that. We are all mad here." - Cheshire Cat


É um pouco difícil para mim explicar o importante papel que os meus gatos têm na minha vida. Correndo o risco de soar como a Crazy Cat Lady dos Simpsons, posso afirmar que o Che e o Forlán são os filhos que (ainda) não tive e que não sei se pretendo vir a ter. Para que não pensem que não sei distinguir a diferença entre gatos e crianças, eu explico. Como não sei o que é estar grávida, aguentar 9 meses de barriga a crescer, suportar as dores do parto, deitar os olhos pela primeira vez num ser que depende de mim para tudo e que devo amar desde o primeiro momento... então para já vou-me dedicando aos meus gatos com a mesma intensidade. Vou sentindo por eles aquele amor incondicional de quem acha graça a todas as patetices, que ralha quando é preciso, que educa e castiga com o mesmo peso na consciência. E penso que eles não se sentem muito rogados em demonstrar-me o que sentem por mim.

Há 7 anos e meio que o Che faz parte da nossa vida. Um dia caminhava na Graça em direcção ao supermercado e vi uma ninhada de gatos na montra de uma loja de animais. Fiquei a olhar para um, sem dizer nada chamei-lhe "Che" e entrei. A funcionária tirou um, dois, três gatinhos da montra e não chegava ao que tinha ficado com os olhos pendurados nos meus através do vidro. "Porque não leva esse que já tem nas mãos?". Baixei o olhar para aquele ser minúsculo. Pêlo verde e ralo, luvas e peúgas brancas, nariz rosa. Bigodes compridos e sobrancelhas em bico. O gatinho que me cativara misturava-se com os irmãos e já não o distinguia com facilidade. Poderia ser este que estava no meu colo. Ou não. Mas e o coração para o devolver à vitrine? 15€ depois, levei-o para casa. Miou a tarde toda escondido atrás do móvel e depois saltou para o sofá. Agora é um gatão de mais de 5kg. Pelas minhas contas, actualmente vale cerca de 75€ e é isso que lhe digo quando me zango, que foi um bom investimento porque pesava pouco mais do que uma embalagem de fiambre e agora já dava para uns suculentos bifes. Cá em casa brincamos que o Che não sabe que é adoptado, quanto mais comprado numa loja de animais. Verdade seja dita, este gato nem sabe que é gato. Pensa que é pessoa e nós deixamos. Abusa como poucos, salta para cima da mesa e dá-nos turras quando estamos a comer. "Salta daí, Che! Que falta de educação!". Ralha connosco quando a areia não está do seu agrado. Grita da casa de banho quando está com sede para lhe abrirmos a torneira do bidé. Desvia o que tivermos no colo para se deitar confortavelmente. Bufa quando lhe corto as unhas. Aninha-se nas nossas pernas quando quer dormir.

Durante 5 anos foi filho único, até o Forlán - "O Maluco" - ter entrado nas nossas vidas. Foi daqueles encontros fortuitos impossíveis de esquecer e mal pôs as quatro patas neste t1, encarregou-se de virar a nossa vida do avesso. Ainda hoje nos finta para correr em direcção ao vaso dos girassóis: trinca-os, atira com a terra para o chão, arranca-os pela raiz. Esconde-se dias inteiros no cesto da roupa dentro do armário. A roupa fica com mais pêlos laranja do que os que sou capaz de contar ou de tirar. Furou o forro da cama e escondia-se lá dentro. Por três vezes tive de salvar-lhe a vida e por pouco não me morria nos braços enquanto lutava por um pouco mais de oxigénio depois de uma operação de rotina. É o gato mais medroso e ao mesmo tempo mais esfomeado, agradecido, carente e aterrorizado. Passa os dias com cara de ponto de interrogação à procura do próximo inimigo, imaginário ou não. Assumiu-se como dono desta casa e posiciona-se estrategicamente ao lado do Che para que este lhe lamba as orelhas. Adora apanhar banhos de sol sozinho na varanda e botijas de água quente no inverno.

Não sei como alguém pode virar costas a relações de uma vida, que nos fazem crescer, ser responsáveis, carinhosos, aprender o valor da paciência, passar noites em branco, preocupados com resultados de análises ao sangue e faltas de apetite. Como pode alguém prescindir desta riqueza na vida sem se sentir invariavelmente mais pobre? 

Já não entro em discussões desnecessárias sobre os meus gatos. Neste momento aproveito para olhar para ambos, dormindo deitados nas cadeiras ao meu lado, uma companhia que não se demite por intrigas, mal entendidos ou se move por segundas intenções. Não me dou ao trabalho de explicar o quanto valem para mim, o quanto de mim lhes dou e o muito que recebo em troca. Não tenho pretensões de mudar mentalidades. Se tivesse esse poder, começava por outro lado, nem seria esta a minha prioridade. Não espero que a maioria me entenda, que tolerem a minha "mania dos animais". Muito sinceramente, há muitas manias alheias e vícios que eu não tolero nem procuro compreender. Já só peço respeito por estes gatos e pelos muitos outros animais que não tiveram a mesma sorte. E lamento que muita gente não tenha também tido um encontro fortuito a caminho do supermercado ou num parque de estacionamento de noite e à chuva para poder alcançar o que pretendo realmente dizer.





Comments

  1. Eu compreendo-te completamente. Tens uma relação com os teus animais idêntica à que eu tenho com os meus. Desde pequena que tenho animais de estimação, como se costuma chamar, cães, gatos, coelhos, mas sempre foram muito mais que isso, são membros da família a tempo inteiro, dormem dentro de casa, de preferência em cima de uma cama ou de um sofá, vão sempre de férias comigo, quando têm um problema de saúde, deixo de comer, quase que deixo de respirar, penso que é de facto o que mais se aproxima de ter um filho. Há muitos que não percebem esta forma de estar na vida, mas sinceramente, pouco me preocupo com o que os outros pensam. Sou muito feliz assim, e os meus bicharocos também :)

    ReplyDelete
    Replies
    1. exacto, o que os outros pensam pouco importa. desde que haja respeito...

      Delete
  2. ♥ eu sei o que isso é. Tive um encontro fortuito numa noite de chuva, adopção em associação, e resgate da rua. Tive as três muito pouco tempo mas nunca ninguém vai perceber o que significaram para mim.

    ReplyDelete
    Replies
    1. acredito, é sempre uma dor quando partem (nem quero imaginar como será com estes!!!)...

      Delete
  3. E ainda ontem falavamos dos nossos meninos :)
    Eu acho que existem coisas que só quem adora gatos, pode cmpreender

    ReplyDelete
    Replies
    1. eu não distingo, gosto tanto de gatos como de cães. completam-nos de maneiras diferentes!

      Delete
  4. Eu não tenho nem filhos nem animais! Acho que tenho uma relação assim com a minha irmã que às vezes confundo e penso que é minha filha! :D

    São lindos os gatinhos!

    Um beijo,
    Aida

    ReplyDelete
  5. Hummmmm, que gatos mais saborosos!!! Tenho um de 7kg e duas com quase 4... já dá um bom cabrito para o ano novo ;)
    Aqui uma ainda era pequena: http://apanificadoraribeiro.blogspot.pt/2010/10/bolo-de-capuccino-com-nozes-amendoas-e.html
    E também eram todos abandonados. Estão aqui todos agora, dois à janela e uma numa caixinha forrada com um cobertor da Serra ;)

    ReplyDelete
    Replies
    1. esses gatos têm vida de aristogatos! que linda a tua menina quando era bebé!

      Delete
  6. Também tenho um o "Jimmy" o Hendrix sabes? hehehe e já não me via sem ele e nisto de filhotes eu que já tinha 4 rapazes vê lá tu que ainda me saiu mais um lol

    beijokas!

    ReplyDelete
    Replies
    1. ahaha! não sabia que também tinhas um gatão! quantos mais "filhos" melhor, não é? ;)

      Delete
  7. Ai, eu percebo bem o que é essa coisa de haver um gato (ou dois) que tem o nosso coração em sequestro para a vida! E não o trocava por nada. ;)

    ReplyDelete
    Replies
    1. um gato, dois gatos, vários cães... estes animais levam o nosso coração e não o devolvem! ;)

      Delete
  8. Oh! Que fofinhos! Têm a sua personalidade, já vi.
    Eu não sou muito fã de gatos, sou mais pelos cães, mas não tenho nem uns nem outros.
    Acho bonito o que sentes por eles e acho que era capaz de me sentir assim com um cão cá em casa. Infelizmente não tenho possibilidades. :(

    xo

    ReplyDelete
    Replies
    1. eu também era assim em relação aos gatos até ter ido viver sozinha e, como não podia ter um cão, comecei a arranjar gatos. eles têm uma personalidade muito distinta e diferente do que o que as pessoas têm tendência a generalizar. os meus são como azeite e vinagre e sabes que adoro cães também. são animais e como tal gostam de nós na mesma medida em que gostamos deles :)

      Delete
  9. Tive sempre gatos em casa (geralmente um de cada vez) e são, de longe, o meu animal preferido. Aliás, nem sou muito de loucuras por animais, respeito-os e ficamos por aí, mas percebo que se criem grandes relações (até porque, cá em casa, gato é membro da família).

    ReplyDelete
    Replies
    1. Gafo, cão, hamster, periquito... São todos membros da família :)

      Delete
  10. Eu nunca tive gatos, mas sim cães. Desde que nasci que há cães em casa dos meus pais e posso dizer-te que são tratados como filhos.
    Desde a dormirem connosco na cama, a irem de férias para tudo quanto fosse sitio connosco, a abdicarmos de irmos a determinados sítios porque os bichinhos não eram aceites, a chorarmos quando faleciam ou como quando um deles foi internado por ingestão de veneno (alguém o tentou matar) e passamos um dos Natais mais tristes da nossa vida. Só quem tem estima e carinho pelos animais é que sabe o que queremos dizer.
    Para mim são como os filhos que ainda não tenho.

    ReplyDelete
    Replies
    1. Eu sei como é esse sentimento de perda que se instala quando um deles nao está bem. E entao quando os queremos ajudar e nao está ao nosso alcance?...

      Delete
  11. É isso tudo! Tudo, tudo e ainda um bocadinho mais que só se sente e não dá para passar para papel! São os meus animais que me agarram aqui... e são criaturas que dependem inteiramente de mim e é em mim que confiam, é a mim que ficam mais felizes por ver e é a mim que se chegam e se sentem os mais protegidos do mundo (sim, eles dizem-me isto tudo;D)! Tudo o que um filho humano representa portanto, sim, são filhos que temos!:)

    Ainda bem que tens leitores muito mais simpáticos que eu, lol, não te aparecem logo haters em catadupa quando mencionas as palavras animais e crianças no mesmo post!

    ReplyDelete
    Replies
    1. Essa parte do que se sente e nao dá para passar para o papel é crucial, porque fica por dizer muito ainda assim.
      Ah os meus leitores são todos esclarecidos! Nao vêm cá só pelas bolachas! ;) por acaso nem nunca recebi um comentário desagradável que tivesse de apagar. Tambem nao entram cá anónimos que eu nao deixo! Nao estou para aturar as frustrações dos outros e ódio destilado sem razão de ser...

      Delete
  12. Eu compreendo-te perfeitamente, os meus são como filhos para mim. Sempre tive animais e tenho uma relação especial com o meu gato porque veio para casa muito pequeno e doente e alimentava-o a biberão e enfiava o medicamento pela guela abaixo. Não tenho filhos biológicos mas tenho de coração :D

    Bjokas.

    ReplyDelete

Post a Comment

Popular Posts