Rissóis de atum e a família que se escolhe.


Quando eu tinha cerca de 10 anos, bateu-nos à porta uma mulher cabo verdeana com um bebé recém-nascido ao colo. Disse que procurava trabalho como mulher a dias. A minha mãe dispensou-a dizendo que de momento já tínhamos empregada.


Pouco tempo depois fomos de férias. Quando duas semanas mais tarde voltámos a casa, esta encontrava-se exactamente como a tínhamos deixado: as camas por fazer, a loiça suja por lavar. A minha mãe ligou à empregada, que lhe respondeu que por 5 contos lhe devolvia a nossa chave de casa. Fazer queixa à polícia ou mudar a fechadura não pareceu opção e a minha mãe pagou ao marido da chantagista quando nos apareceu com a chave. Com as malas cheias de roupa suja, subiu os degraus até à casa da mulher cabo verdeana que nos batera à porta umas semanas antes. Enquanto galgava as escadas, rezava para que esta ainda se encontrasse disponível. "Sabe passar a ferro?". "Sim." "Então está contratada."

A Tânia desceu as escadas com o Pedro atado num pano à sua cintura. Na altura este já era o seu terceiro filho de um homem diferente, algo comum entre os cabo verdeanos (atenção isto não é racismo, é a antropóloga que habita em mim que vos diz: os cabo verdeanos são conhecidos pela sua poligamia informal, socialmente aceite tanto por homens como mulheres, e nós não somos ninguém para julgar). O primeiro filho estava emigrado e não o via há anos. A segunda filha era criada por uma madrinha no Mindelo, mas acabou por se juntar à mãe uns anos mais tarde. O Pedro era filho da Tânia e de um condutor da Carris de ascendência angolana que a visitava em nossa casa diariamente, sempre muito educado e não passando da ombreira da porta. Pouco tempo depois, numa rixa, foi morto por um conhecido com dois tiros. A Tânia não era a mulher oficial, embora os filhos da mesma se refugiassem em sua casa sempre que necessitavam. No funeral não teve honras de viúva e fez o luto em nossa casa, porque aquela onde morava era partilhada com outras pessoas.

Nessa altura já o Pedro crescia entre nós como um irmão mais novo. Um irmão chorão e barulhento, daqueles que gritam até ficar roxos e lhes faltar o ar enquanto eu tentava fazer os trabalhos de casa. Mas, mesmo assim, um irmão. Chamava tia à minha mãe, jogava à bola no quarto com o meu irmão e espreitava pela porta da casa de banho enquanto eu e a minha irmã tomávamos banho. 

A Tânia tinha pouco, muito pouco. Nem sabia ler. Em criança tinham-na levado para São Tomé onde trabalhou de sol a sol para angariar dinheiro para a família. O padrasto nunca considerou relevante investir na sua educação, mas nas dos irmãos homens, isso sim. Julgo que ainda hoje lê o folheto do Continente de pernas para o ar, mas nunca a enganaram nas contas. 

Quando chegávamos da escola, a Tânia ia buscar-nos à camioneta e oferecia-se para carregar as nossas pesadas mochilas. Servia-nos o lanche e tomava conta de nós até que a minha mãe chegasse do trabalho. Aspirava e passava a ferro com o Pedro atado às costas, muitas vezes a dormitar. E fazia os melhores rissois que já comi, recheados com atum e cuja massa ainda não cozinhada nós roubávamos da bancada da cozinha enquanto ela fingia ralhar-nos. 

Da família que se escolhe e não aquela que nos calha pelo sangue, é talvez da Tânia que sinto mais a falta. Sempre leal, sempre amiga, sempre disponível para carregar os pesos que nós já não conseguíamos carregar. Capaz de nos levantar a mão para instaurar a ordem, mas incapaz de nos bater. Inabalável ao lado da minha mãe quando toda a gente já se tinha cansado. 

Os meus mini-rissóis, saborosos até dizer chega, mas que ficaram tamanho piriri.


~ Ingredientes ~

Para a massa:

receita retirada do blogue O Cantinho da Nanda

125ml de água
125ml de leite magro
1 colher de sopa de Becel líquida
1 pitada de sal
250g de farinha
sal
1 ovo

Levar ao lume o leite, a água, a Becel e o sal. Quando ferver retirar do lume deitar a farinha duma só vez e mexer bem. Levar novamente ao lume sem parar de mexer até que forme uma bola e descole do fundo. Deitar na banca polvilhada de farinha e amassar até que fique bem ligada. Reservar.

Para o recheio:

1 fio de azeite
1 cebola pequena picada
2 dentes de alho picados
3 colheres de sopa de farinha
320ml de leite magro 

tempo de preparação: 60 minutos
dificuldade: **
vegetariana: não
para crianças: sim
ingrediente principal: atum


Refogar a cebola e o alho no azeite. Juntar os filetes de atum escorridos e deixar cozinhar cerca de 15m. Juntar a farinha, envolver, e depois lentamente o leite até engrossar.
Esticar a massa com um rolo e cortar círculos. Colocar uma colher de recheio em cada e fechar com a ajuda de um garfo. Pincelar com o ovo batido e levar ao forno a 170º cerca de 20m ou até que os rissóis estejam dourados.


E não se esqueçam de participar no 

♥ Lovely Sponsor



Comments

  1. Por norma não gosto de rissóis porque são fritos, mas estes que vão ao forno, devem ser óptimos.
    A Tânia era boa pessoa. Perdeste o contacto com ela?

    ReplyDelete
    Replies
    1. olha que ficaram mesmo muito bons! o molho bechamel feito na frigideira juntamente com o atum ajuda a apurar o sabor do recheio. não perdi o contacto com a tânia quando saí de casa da minha mãe, mas acabámos por nos afastar, infelizmente.

      Delete
  2. Que bonito :) O "tamanho piriri" fez-me rir!
    beijinho

    ReplyDelete
    Replies
    1. é porque eu também sou tamanho piriri, faço rir as pessoas! :p

      Delete
  3. Os rissóis ficaram maravilhosos e bem mais saudáveis! E adorei mais esta história que partilhaste...
    Beijinhos

    ReplyDelete
    Replies
    1. obrigada! estou à espera da tua participação :)

      Delete
  4. Que história bonita...Se formos a pensar há tanta gente que não escolhemos que passa pela nossa vida e mesmo que por breves momentos nos marcam tanto..Tenho muitas assim...
    Estes piriris estão nham nham....
    Bjoka
    Rita

    ReplyDelete
    Replies
    1. e, por outro lado, quanto família temos que disso só tem a designação... beijo

      Delete
  5. A tua historia toca ca fundo rapariga...a Tania parece ser uma senhora de armas e uma pena que se tenham afastado. Estes teus rissois tamanho piriri parecem-me bem a aparencia as vezes nao e tudo.

    Beijinhos

    ReplyDelete
    Replies
    1. tens razão! ficaram saborosos, posso garanti-lo, e são muito fáceis de fazer. foi à conta dos famosos rissóis de atum da Tânia que nunca fui capaz de comer rissóis de camarão ou de carne sem que me soubesse a pouco. bjs

      Delete
  6. Adorei a história da Tânia e ultimamente ando tão nostálgica que até fiquei de lagriminha no olho... e depois fiquei com o estômago a roncar depois de ter lido a receita, as saudadinhas que tenho de uns rissóis estaladiços :)

    ReplyDelete
    Replies
    1. andas mesmo sensível! ;) ainda bem que gostaste. se pudesse mandava-te uns quantos pelo correio... mas não só os ctt seriam capazes de não gostar, como já os comi todos :D

      Delete
  7. Que bonita homenagem! E que rissóis soberbos, devem ser um espetáculo!

    ReplyDelete
  8. Uma história muito bonita. A Tânia foi deveras uma pessoa especial nas vossas vidas. É verdade, muitas vezes, estranhos acabam por ser família.
    Bjs

    ReplyDelete
  9. Agora fiquei na dúvida se já tinha comido rissóis de atum alguma vez.
    P.S.: Não recebi nenhum comentário teu! *

    ReplyDelete
  10. Que história linda!
    E esses rissois... huuummm
    Beijinhos
    http://sudelicia.blogspot.pt/

    ReplyDelete
  11. Olá! Que história tão bonita! :) Não conhecia o blog, mas já estou a seguir para não voltar a perder mais nada!

    Beijinhos e uma óptima semana,
    http://madamexicaras.blogspot.pt/

    ReplyDelete

Post a Comment

Popular Posts