Sandes aberta de tomate, carapau Nero picante, salsa e um pai divorciado.


Os meus pais divorciaram-se eram ainda uns meninos. Já carregavam na bagagem três crianças, uma de 6, outro de 5 e a última de 3. Mas eles próprios mal sabiam como sobreviver, ela com 34 anos e ele com apenas 32. Agora que me aproximo das idades que eles próprios tinham na altura, percebo que não tinham como não errar. Estavam ainda a aprender a viver... e os erros vieram por acréscimo. E as consequências também.

O meu pai nunca tinha cuidado de nós. Nem sozinho, nem acompanhado. A minha Avó era uma presença constante e proeminente no nosso cuidado, seguida pela minha mãe. O meu pai devia vir em terceiro ou quarto lugar... Quando se divorciaram e nós ficámos a viver em Leiria, ele mudou-se para Lisboa. Trabalhava ao mesmo tempo que fazia o doutoramento em Florença, para onde se deslocava ocasionalmente. De quinze em quinze dias, muito raramente faltava ao compromisso assumido em tribunal. O problema é que não conduzia. Arranjou um vizinho taxista que, por uma tarifa pré-combinada, o levava a Leiria, onde nos apanhava, à sexta-feira. Voltávamos ao domingo ao fim do dia, conduzidos pelo mesmo taxista, eles à conversa à frente e nós os três a dormitar no banco de trás. Quatro viagens num fim de semana pela estrada nacional e sem ar condicionado. É de louvar. Houve pais que desistiram dos filhos por muito menos.

O fim de semana era preenchido com visitas ao Jardim Zoológico, à Feira Popular e pelo fiel almoço de sábado em casa dos meus avós. Nos entretantos o meu pai ocupava-se de nós não como sabia, mas como foi aprendendo. Não sabia como nos pentear, por isso passava os dedos afastados pelo nosso cabelo e espetava-nos com uma bandolete na cabeça (excepto ao meu irmão) para controlar a electricidade estática. Dizia que era assim que os grande cabeleireiros franceses penteavam os seus clientes - sem pentes, com as mãos. Ia à banca dos jornais e comprava-nos a caderneta e todos os cromos da colecção que lá houvesse. Passávamos o fim de semana meio drogados pelo cheiro da cola. Aos sábados de manhã tínhamos os desenhos animados prontos e comíamos cereais enquanto o meu pai aproveitava para dormir até mais tarde. Se nos portássemos mal, adoptava a política muito pouco piagética de nos dar uma palmada e pôr de castigo. Porém, resultava.

Não me lembro exactamente do que comíamos nessa altura. Sei que em casa dos meus avós paternos nos serviam invariavelmente carne assada com imensas cenouras. Havia sempre azeitonas num pratinho para a entrada. Pintarolas quando nos íamos embora. São estas as minhas memórias culinárias mais fortes dessa altura. Sei que uma vez o meu pai nos pôs a apanhar caracóis, os quais cozinhou num panelão gigante com a ajuda de um amigo que entendia um pouco mais dos temperos. Não me recordo se os comemos. Mas lembro-me que o meu pai, na sua ignorância e aprendizagem contínua, tentou dar-nos o melhor que sabia. Errou muitas vezes. Não tinha também grandes exemplos por onde se guiar. Foi desbravando caminho, palpando, tropeçando e caindo por vezes, mesmo que raramente o demonstrasse. Sei que todos os fins de semana nos ia buscar a Leira de táxi e que nos ligava quase todos os dias. Que eu lhe lia anedotas da minha revista infantil mensal ao telefone e ele do outro lado fazia de conta que prestava atenção e ria-se forçadamente quando lhe perguntava "então, não achaste graça?". Sei que tentou alimentar-nos o melhor que pôde quando tomava conta de nós. Sei que, no geral, sempre fez e quis o melhor para nós. Sei que ainda é assim, por muito afastados desse conceito que hoje estejamos.

Sei que se ele tivesse tido conhecimento, estas sandes abertas teriam feito parte dos nossos menus de fim de semana. Cortaria fatias de um bom pão (feito em casa na MFP), picaria um tomate maduro e abriria uma lata de conserva de carapau de qualidade. Polvilharia com salsa para lhes dar cor e servi-las-ia aos filhos. Uma refeição completa, fácil e rápida ao alcance de qualquer pai divorciado que se preze com três filhos a seu cargo aos fins de semana.


~ Ingredientes ~

uma fatia de pão de cereais
1 tomate

salsa

tempo de preparação: 10m
dificuldade: *
vegetariana: não
para crianças:  sim  (o molho não pica muito)
ingrediente principal: carapau em óleo vegetal picante Naval das Conservas Nero

Cortar o pão em fatias e picar o tomate. Reservar. Abrir a lata de carapau em óleo vegetal picante e não escorrer para não perder o molho. Dispôr os tomate cortada em cima do pão, sobrepôr os filetes e salpicar com a salsa picada. Servir imediatamente.

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Comments

  1. entendes agora porque te disse ontem que a tua maneira é diferente?

    gosto. beijo

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  2. Não deve ter sido fácil, nem para ele, nem para vocês, mas foram momentos assim que acabaram por criar memórias e recordações.
    Estas sandes têm muito bom aspecto! Eu que ando um pouquinho preguiçosa, é uma óptima sugestão ;)

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  3. Gostei de ler. É mto engraçado as recordações que nos ficam, e como quando crescemos nos lembramos do que os nossos pais faziam por nós... Na altura até me parecia tudo muito exagerado, mas ao fim de uns anos dou por mim a fazer o mesmo à minha filha!!! O teu pai foi um grande PAI, há muitos que por menos desistem e é feio...
    Qt às sandes, é mesmo do que gosto, simples e muito apetitoso :)
    beijinhos

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  4. Bem, que espectáculo de texto. Parabéns por o teres escrito, pois é magnífico e parabéns aos teus pais que tentaram fazer o melhor que sabiam e podiam e parabéns ao teu pai que, como dizes e muito bem, vos ia buscar de taxi todos os fins de semana, enquanto outros arranjariam desculpas e apareceriam de mês a mês.
    AMEI!!!
    A tua sandes, simples mas altamente deliciosa, nutritiva e linda! Fabulosa sugestão!
    Beijinhos,
    Lia.

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  5. Adorei ler-te e conhecer mais um pedacinho do que te faz ser. Um texto lindo!
    E gostei também muito da tua sandes aberta, simples e deliciosa.
    Beijinhos

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  6. Essa sandes parece-me maravilhosa!
    Gostei de saber mais um pedacinho da tua história :)
    Beijinhos
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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  7. Mas que óptima ideia para um belo lanche :O
    Tenho de experimentar!!!

    xoxo,
    Lovely Seventy One

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  8. que história linda! adorei ler!

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  9. Olha Maria, apesar de não te conhecer muito bem, sempre tive alguma empatia por ti! Mostras-te um pessoa com garra e ao mesmo tempo revoltaste com o mundo se for preciso! E é fantástico... Talvez se deva a estas experiencias que passaste!!! Os pais, sempre vão ser uns trapalhões no que diz respeito ao pentear as meninas!! Os meus pequenos não têm o pai por perto, e mto menos de 15 em 15 dias, mas sei que qd estão com ele aproveitam ao máximo!! Fiquei aqui com uma lagrima no olho de te ler!! E olha eu já alinhava numa sandes desta!! :)
    Beijinho,
    Mena.

    PS - Já li a resposta e o teu comentario!! Vou tentar, a serio que vou!

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  10. Ola Maria,
    Muito obrigada pelas visitas!
    Eu aceito uma sande, please, tem tao bom aspecto! :)
    Beijinho bom...


    Katia
    http://entretachosebimby.blogspot.pt/

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  11. Obrigada por partilhares essas tuas lembranças connosco :)

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  12. Que bonito :) As sandes abertas são um almoço muito típico para os Dinamarqueses, o smorbrod.
    (Já comecei a escrever o meu texto e já tenho a receita pensada)
    Beijinhos

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  13. Ao ler este teu texto, tive vontade de primeiro ir ler o que tinhas escrito sobre ti...
    Penso que sais ao teu pai, cheia de garra e força para vencer obstáculos. Mostraste-me um homem, o teu pai, cheio de força para vencer profissionalmente e como pai, mesmo que tenha cometido erros. Quem não os comete?
    As sandes estão muito apetitosas
    Bjns
    Isabel







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