Fettuccine com atum, cogumelos, tomate e aprendendo a viver sozinha.



Tinha 21 anos quando fui viver sozinha. Para alguns, fui tarde, para outros, cedo demais. Não sabia cozinhar nada. Zero. Nicles, pickles, batatóides. Fui aprendendo à medida que cozinhava. Errava aqui, intoxicava o P. ali. Experimentava com ingredientes com os quais não estava familiarizada até começar a acertar.

Não sou um caso especial, por muita importância que goste de dar à minha existência. Suponho mesmo que seja a norma. A não ser que saiamos de casa de enxoval pronto, naprons a rebentar pelas costuras das arcas das avós - as quais agora trabalham para além do que era a antiga idade da reforma, sobrando-lhes pouco tempo para os ensinamentos e para as costuras -, vamos todos com o coração apertado, alguns tupperwares cheios de comida para aquecer durante a semana e os inocentes pulsos mal preparados para se esquivarem à resistência do forno.

A diferença é que eu não saí de casa dos meus pais porque quis. Não saí porque mudei de cidade quando me inscrevi na faculdade. Não saí por iniciativa própria para morar com amigos ou com o namorado. Não saí para fazer Erasmus. Saí porque teve de ser. Saí porque o ambiente era insuportável tanto na casa de um como na do outro e foi-me dada a oportunidade de provar que me conseguia safar sozinha.

Claro que a coisa descambou. Não apenas na cozinha, mas em todas as divisões daquela casa. Não sabia limpar uma casa de banho. Nunca tinha aspirado. Não sabia estender roupa sem deixar as marcas das molas em todo o lado. Não tinha paciência para a estender mal o programa da máquina terminava e deixava-a uns dois dias no tambor a ganhar cheiro até que me lembrava de abrir o estendal no meio da sala - já que não havia outro sítio onde o abrir! - e lá ficava a secar o tempo que fosse preciso. O P. não morava comigo, mas passava lá em casa o tempo que achava conveniente. Na hora das limpezas e das refeições, voltava convenientemente para casa dos pais. E lá ficava eu sozinha, tristíssima, sem saber bem o que fazer comigo mesma.

Decidi arranjar uma gata - até então nunca tinha tido animais em casa que não coubessem dentro de uma jaula ou aquário - para me fazer companhia, mas a que me foi oferecida não era fã de humanos e muito menos da caixa de areia. Era um pesadelo viver naquela casa e cedo me fui abaixo. Gostava tanto de ter saído de casa dos meus pais com poupanças, depois de escolher o apartamento onde gostaria de morar, depois de o mobilar, de ideias sintonizadas com as do namorado, bem depois da idade recomendada para deixar o ninho e cheia de saudades do que deixava para trás. Não foi esse, de todo, o meu enquadramento. Mas as coisas são como são, e eu acabei por transcender tudo o que me puxava para trás. Será?... Ainda hoje me questiono se esta afirmação será mesmo verdade, mas quero crer que o que aprendi nesses dois anos e meio a viver sozinha na Graça foi algo de valioso.

Seja como for, daquele apartamento saí para Cambridge. Fui para esta universidade fazer o mestrado com uma bolsa de mérito. Consegui alcançar um dos meus sonhos, no meio da confusão que eram as minhas ideias na altura e suspeitando que se tratava de uma fuga para a frente para não enfrentar o que todos os dias me atormentava. Parti, voltei, e aqui estou eu a partilhar convosco os pratos que fui, aos poucos aprendendo a fazer. Foi naquela kitchnet que fui experimentando na culinária. Foi aí que o que fui aprendendo - muitas vezes na internet e tentando lembrar-me do que fazia na cozinha da minha Avó na sua companhia, vários anos atrás - ultrapassou os limites dessa mesma micro-cozinha. Não sei se é sina minha ou partida do destino, mas tal como na Graça cozinhava numa kitchenet, hoje cozinho numa minúscula cozinha americana com janela para a sala e em Cambridge partilhava os quatro hotplates do fogão com mais 10 companheiros de casa. E aí durante muito tempo só tive direito a uma prateleira no frigorífico onde cabia meia dúzia de iogurtes e algumas refeições pré-preparadas. Um dia, quando escolher a minha casa de sonho, vou começar pela cozinha. Porque foi nessa divisão da casa que me comecei a definir e a conhecer melhor. Sim, desses dois anos e meio na Graça, esse foi talvez um dos ensinamentos mais valiosos que retirei.

Uma das primeiras receitas que me atrevi a fazer, não fosse ela tão fácil que até uma naba como eu nas lides domésticas aos 20 e poucos anos conseguiria repetir, é a de atum com cogumelos e polpa de tomate. Servia para misturar com o esparguete, para rechear canneloni ou para compor a lasanha. Basicamente, servia para quase tudo o que precisava na altura: fácil, barata e à prova de erro. Por muito simples que seja esta receita, era impossível não a incluir aqui, tendo em conta que foi a base da minha alimentação durante bastante tempo.

 ~ Ingredientes ~

1 fio de azeite
1 dente de alho picado
1/2 cebola pequena picada
uma folha de louro
1 lata de 250g de polpa de tomate
1 lata de 355g de cogumelos
vinho branco qb
fettuccine para duas pessoas
pimenta qb
cominhos em grão

tempo de preparação: 45m
dificuldade: *
vegetariana: não
para crianças:  sim 
ingrediente principal: filetes de atum português Catraio das Conservas Nero

Cozer o fettuccine em água a ferver com uma pitada de sal e reservar. Numa frigideira refogar o alho e a cebola com a folha de louro no azeite. Adicionar os cogumelos e o atum escorridos. Deixar cozinhar cerca de 15m e adicionar a polpa de tomate. Tapar parcialmente a frigideira e deixar apurar cerca de 20m ou mais, se necessário. Refrescar com o vinho branco e temperar com sal e pimenta quando estiver pronto. Servir com o esparguete ou guardar este recheio para outro tipo de massas, para rechear rissóis ou empadas... O céu é o limite! ;)

 

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Comments

  1. adoro a forma como escreves, é viciante, alegórica e pormenorizada..adoro mesmo!
    raquelita

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  2. Por mim, um prato de pasta, calha sempre bem:)
    Digamos que teres saído de casa dos pais aos 21 te forjou a personalidade. Sabes à partida que és auto suficiente, mesmo em situações mais complicadas.

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  3. é delicioso ler-te. é mesmo

    beijos

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  4. Pois eu lembro-me da primeira vez que fritei batatas, ficaram cruas, mas eu comi com muito orgulho!
    Também foi cedo que fiquei a morar sozinha, já sabia fazer algumas coisas mas muito do que sei recorri ao que me lembrava, acho que há momentos, paladares e cheiros que nunca nos largam.
    Com essa massa ninguém diria que eras uma novata na cozinha, ficou excelente :-)

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    1. eu nunca fritei batatas, que me lembre, mas ia matando o p. com pão de alho... eheheh1 ;)

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  5. Pode ter sido difícil no iníçio habituares mas foi de certo que essa vivência foi a que te fez tornar na pessoa que és hoje.
    Gostei da sugestão!
    Beijinhos e uma linda quarta-feira

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  6. É mesmo um prazer ler os teus textos... Gostei da sugestão culinária, bem versátil!
    Beijinhos

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  7. O teu começo foi do tipo atirarem te para o mar sem saberes e nadar e agora desenrasca te!!!E que bem que te sais te já viste?!?
    Este prato é bullet proof mesmo!!!!
    Bjoka
    Rita

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    1. tal e qual: "ora agora nada que senão afogas-te!!" este prato funciona mesmo bem, então naqueles dias em que estou preguiçosa para cozinhar, há sempre uma lata de atum e outra de cogumelos para compor a coisa... :)

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  8. Não sei se gosto mais da receita ou do texto, consigo entrar na história e imaginar-te sem nunca te conhecer.
    A sugestão para além de simples é deliciosa costumo fazer uma bem parecida, gostei bastante.

    Beijinhos

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  9. Olha eu já sai tarde da casa dos meus pais, tinha 25 anos...e nao me arrependo nada por isso. Mas no entanto, sempre cozinhei, mas onde eu aprendi mesmo a cozinhar foi fora de casa, por incrível que pareça. Adorei ver esta receita aqui, pois recorda-me a minha adolescência, os molhos de tomate com cogumelos e atum era prato famoso entre estudantes.

    Beijinhos

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    1. fácil e prática, seja qual for a situação, atum e cogumelos com tomate e massa funciona sempre! ;)

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  10. Caramba! Que história de vida, hein? Gostei da forma como superaste! :)
    xo

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  11. Pode ser simples, mas se é saborosa e tem essa história por trás então claro que tem lugar neste blogue!
    Beijinhos
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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    1. impossível não ter, foi a base da minha alimentação! ;)

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  12. Adorei ler a tua história, encontrei decididamente algumas coisas em comum entre nós. Saí de casa mais ou menos com a mesma idade (20) e sem saber fazer grande coisa. Durante a adolescência eu ajudava com algumas tarefas mas apenas esporadicamente. Ao contrário de muitas amigas minhas, nunca passei os sábados ou domingos em casa a ajudar a mãe com as limpezas. Na altura isso parecia-me um privilégio mas mais tarde, quando saí de casa direitinha para o estrangeiro (e em parte para fugir ao ambiente familiar) senti-me completamente perdida pois havia imensas coisas que eu não estava habituada a fazer... coisas simples como fazer a minha própria cama. Mas enfim, vivendo e aprendendo... :)
    Beijinhos

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    1. tal e qual. em casa da minha mãe tb não fazia nada e achava isso mt normal. quando saí de casa, se não fosse a internet, não saberia fazer nem metade do que sei hoje... e por tentativa e erro lá cheguei. beijinhos

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