Tu e eu. Eu e tu.


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Acho que o meu marido já não lê este blogue. Sei que no início vinha cá amiúde a ver se eu dizia mal dele, mas entretanto cansou-se. Apercebeu-se que dia sim, dia não, levava com uma tarte, uns muffins ou uma sopa, e não querendo perder a magia de quem não precisa de espreitar para dentro do caldeirão da bruxa para perceber o segredo e uma vez que está mais interessado no resultado final do que nas etapas preliminares, simplesmente dedicou-se à tarefa que o ocupa diariamente - o seu trabalho - e deixou de aparecer por aqui. Tenho pena que tenha deixado de fazê-lo. Ao fim ao cabo, cheira-me que me conheceria um pouco melhor se viesse cá mais frequentemente. Mas ele lá sabe até que ponto precisa, realmente, de conhecer-me e eu respeito isso. 

Sou uma pessoa muito pouco tolerante e ele sabe disso. E sabe também o porquê de eu ser assim. Não tenho paciência para pessoas que se queixam a toda a hora. Gosto de questionar os outros quando os silêncios se impõem e de me mostrar interessada. Ele diz-me que me preocupo demais e que, como invariavelmente me lamento por não ter a retribuição equivalente, a culpa é minha quando me desiludo.

Não tenho paciência para aquelas pessoas que não percebem porque não têm um amigo, porque todas as suas relações acabam em baldes de água fria ou porque num raio de 1 km não encontram vivalma que se preocupe com os seus humores. Estou cansada de tentar explicar, usando paninhos e pachos de água quente, qual é o único denominador comum: elas próprias. E estou cansada de servir de antidepressivo para os outros quando preciso de canalizar energias para resolver a minha própria vida que também se encontra de pernas para o ar.

Assim mesmo. Com todo o egoísmo a que tenho direito.

Estou farta das invejas alheias, sejam elas em relaçãos aos cuidados XPTO que dedico aos meus gatos (sim, eles só comem comida de marca, dormem na minha cama e são vítima de ataques de beijos), ao sítio onde moro, ao carro que conduzo, ao blogue que mantenho, às coisas boas que me acontecem.

Estou cansada de muitas coisas. Estou cansada porque gosto dos ritmos compassados, das frases com pontos finais e me incomodam as reticências. Estou farta de me justificar, estou farta que me acusem de ter mau feitio, estou farta do quão descartável sou para determinadas pessoas quando tantas outras mais me fazem o mesmo. Estou farta de sorrisos cínicos, incomoda-me ter aprendido a ser hipócrita e, actualmente, é-me fisicamente impossível continuar a mostrar-me interessada. 

O meu marido não se apercebe de quão catártico para mim é escrever aqui. Eu escrevo quando me sinto inspirada e as receitas acompanham essa cadência. Não há grande planeamento dos temas - bom, há algum, não sou assim tão desligada... - e sei que já não agrado a muita gente que cá passava no início e não se deparava com tanta receita e - blasfémia! - parcerias. Mas as coisas evoluem e eu evoluí com elas. E, no fim do dia, só tenho mesmo é de prestar contas a mim mesma. E, até agora, as contas têm batido certo.

E eu agradeço ao meu marido por, apesar de todas as minhas tentativas inconscientes de tentar afastá-lo, continuar por perto, mesmo quando a onda teima em engolir-me e ele faz os possíveis para me manter à tona, por mais água que ele próprio engula. E lamento que na minha saturação por todas as más influências que agora tento manter afastadas, ele seja, por vezes, arrastado, mesmo sendo das poucas pessoas que me aceita como sou. Mesmo que tenha sempre pontos de tolerância extra para mim quando já passei todos os limites do bom senso. Mesmo que eu nem sempre consiga estar à altura do que ele espera de mim e do que me comprometi a cumprir, ele aceite, ajude e aguarde que me volte a restabelecer para estar à altura. Ou então manda-me dois gritos para ver se eu volto à realidade. E mesmo não sendo ele mesmo perfeito - e eu não espero isso dele, sei bem a carga que é tentar chegar aos limites da perfeição sempre distantes e fixados por terceiros -, é ainda assim a única pessoa que me acompanha quando a onda chega.


"If you could give one piece of advice to a large group of people, what would it be?"
"When a wave comes, go deep."
"I think I'm going to need an explanation for that one."
 
"There's three things you can do when life sends a wave at you. You can run from it, but then it's going to catch up and knock you down. You can also fall back on your ego and try to stand your ground, but then it's still going to clobber you. Or you can use it as an opportunity to go deep, and transform yourself to match the circumstances. And that's how you get through the wave."
                                                            Humans of New York 

Comments

  1. Bom dia Maria,
    Bem, que inspiração tinhas tu quando escreveste este desabafo. às vezes também me apetecia mas não tenho "força" para escrever, e sim, não podemos passar a vida a lamentar-mo-nos, pois há sempre algo bom que aparecerá e quem esteja bem pior do que nós. Temos que aprender a viver um dia de cada vez e a saborear cada momento.
    Kiss, Susana

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  2. Uiiiii! Já há muito que deixei de dar importância ao que as pessoas pensam de mim. Sei quem sou, sei o que quero e sei para onde vou, doa a quem doer. Quem gosta de mim verdadeiramente, não me julga, todos os outros não têm importância a meus olhos. E sou tão feliz assim :)

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  3. Beijo Grande
    (estou a gostar muito de conhecer-te ;) )

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  4. Podia alongar-me mas fica o essencial: eu cá, continuo a gostar de ti ;)

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  5. Gostei muito deste teu post. Falaste em várias coisas e eu vou deter-me em duas (mesmo que não tenham sido centrais no teu texto):
    i) o teu blogue mudou realmente muito desde o início. Eu sou das primeiras visitantes e vejo como desenvolveste aqui um conceito. Um conceito teu, que não vejo em mais nenhum blogue. Gosto. Continuo a vir sempre que posso.
    ii) há já algum tempo que perdi a tolerância, que me fartei das desilusões que algumas pessoas me provocavam, da falta de retribuição, do queixume desmesurado. Agora mantenho as relações de amizade que considerei que me faziam bem (assim egoisticamente falando) e que já são muito muito antigas. Tenho dificuldade em deixar entrar pessoas novas na minha vida, simplesmente porque já não estou disponível para correr o risco de me desiludir novamente.
    :)
    xo

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  6. Que bonita carta de amor.:) Espero que ele a encontre, mesmo que não seja já.

    Olivia

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