Sementes de abóbora com canela e stevia.


Já disse por aqui muitas vezes que o meu gosto pela cozinha me foi transmitido pela minha Avó materna, aquela pessoa que praticamente vivia nessa divisão da casa, fosse a cozinhar ou a costurar. Era aí que socializávamos, onde existia o amor que unia a nossa família. Como só vivemos juntas até aos meus 10 anos, não tive oportunidade de aprender muitas técnicas ou segredos culinários com ela. Memorizei o bolo de bolacha e pouco mais. No entanto, sei sem qualquer sombra de dúvida, que foi com ela que ganhei este afecto pelos tachos e panelas, o qual fui desenvolvendo e aperfeiçoando ao longo da vida.

O que nunca contei no blogue é que os meus avós paternos também tiveram um papel importante na minha iniciação no mundo culinário. Com estes avós nunca partilhei tardes na cozinha. Chegávamos a sua casa à hora de almoço ao sábado, onde a mesa já se encontrava pronta e serviam-nos quase sempre a mesma coisa: havia cestos de pão, azeitonas e, invariavelmente, carne assada. Não eram almoços muito felizes, para ser sincera. A proximidade que os meus avós tinham ao meu pai - que era muito pouca -, transmitiram-na também aos netos. Senti muitas vezes que ia a sua casa "picar o ponto", uma obrigação de família. O ambiente em sua casa nunca foi muito familiar, diria mesmo que era tenso, mas como não passava de uma criança, ficava suficientemente satisfeita porque o meu avô fazia questão de terminar esses almoços sempre com um saquinho de Pintarolas e pastilhas Gorila, daquelas que enfiávamos na boca todas de seguida até acabar o pacote e que depois nos deixavam com terríveis dores nos maxilares.
No entanto, quando entrei na Faculdade, perguntei aos meus avós se poderia começar a almoçar com eles uma vez por semana. A minha avó trabalhou até quase aos 80 anos na sua loja e o meu avô, que se reformou aos 50, ia todos os dias ter com ela, almoçando juntos num restaurante de bairro na Estefânia. Eu passei a fazer parte dessa rotina, quebrando com o ciclo de tensão familiar que se instaurava nos quinzenais almoços de família em conjunto. Consegui uma aproximação possível aos meus avós paternos, dentro das limitações emocionais que todos nós temos nesta família e sempre ciente que esta relação tinha partido de mim aos 18 anos. 

Como já contei algures por aqui, saí de casa dos meus pais muito cedo. Com 21 anos, já estava a viver sozinha na Graça. Nessa altura, os meus avós começaram a ter uma presença mais intensa na minha vida. Viam-me um pouco desorientada, sem saber bem como tomar conta de mim, da casa, sem saber cozinhar nada de jeito. Dando o auxílio que sabiam, convidavam-me quase todos os dias para almoçar com eles. O meu avô insistia sempre que comesse pão com pasta de sardinha de entrada, um prato bem cheio e sobremesa. Não admira que tenha engordado nesses primeiros tempos! Uma vez por semana levavam-me ao minimercado para comprar legumes e frutas, explicaram-me como deveria fazer sopa (basicamente bastava cozer os vegetais que quisesse em água e sal, depois passá-los, de maneira que me tornei pró em sopas em pouco tempo). Levavam-me também ao talho, de onde saía com sacos cheios de carne. O meu avô chamava um táxi e eu voltava para casa carregada. Houve várias vezes em que me levaram a uma loja de produtos vegetarianos na Estefânia que ainda existe - a Espiral, talvez conheçam - onde eu escolhia e me compravam 1001 coisas que não conhecia e que levava para casa para experimentar. Foi aí também, graças aos meus avós que nunca me disseram "não compres isto que é demasiado caro", que começaram as minhas experiências vegetarianas. A sugestão que trago hoje é mais uma incursão nesse mundo e que me fez relembrar essas primeiras.

A minha relação com os meus avós paternos foi a possível. Hoje, 8 anos depois do falecimento do meu avô, relembro com carinho toda a preocupação que tinha em que eu estivesse bem e alimentada, que não me faltasse nada em casa (um amigo deles com quem almoçávamos frequentemente até me ofereceu uma torradeira!), que tivesse saldo para podermos falar (certa vez coloquei-lhe um lembrete no telemóvel que tocava hora a hora com a mensagem "carregar o telemóvel à neta favorita!" e depois esqueci-me de o retirar...), insistia com a minha avó para que me desse 10€ todas as semanas para ajudar nas despesas (e que falta me fazia esse dinheiro na altura...) e, acima de tudo, nunca me fez qualquer tipo de pergunta ou observação sobre as razões da minha saída de casa dos meus pais. Já a minha avó era outra história, mas as pessoas também são diferentes, e ela ajudava como podia e sabia. Foi também a minha avó que me contou, que o meu avô quando já estava internado no hospital e poucas horas antes de morrer, lhe disse que eu tinha sido uma agradável surpresa e que estava muito feliz comigo. 

Não sei que lição tirar desta história, para além da que é tão óbvia. Achei apenas que estava a negligenciar os meus avós paternos que, mesmo não sabendo amar o filho e os netos da maneira mais convencional, quando me viram necessitada, tentaram dar-me o que podiam e da melhor maneira que encontraram. Só precisavam de uma segunda oportunidade. E eu também.



~ Ingredientes ~

receita adaptada do site Tone it Up

1/2 cup (1 cup = 250ml) de sementes de abóbora
1/2 colher de sopa de óleo de côco
1/2 colher de chá de stevia em pó
1 colher de chá de canela

Retirar as sementes da abóbora, lavá-las sob água corrente e secá-las (eu sequei-as ao ar vários dias, mas podem ser colocadas no forno a 150º cerca de uma hora, como diz a receita original). Colocar uma colher de óleo de côco numa frigideira anti-aderente, saltear as sementes com a stevia e a canela até que alourem. Guardar num frasco quando arrefecerem e comer como petisco saudável!

tempo de preparação: 10m
dificuldade: *
vegetariana: sim
para crianças:  sim 
ingrediente principal: sementes de abóbora


♥ Lovely Sponsor ♥

Comments

  1. Foi mesmo uma segunda oportunidade para as duas partes, eles ficaram a conhecer-te melhor, e tu a eles. Ainda bem que conseguiste ver além da imagem que eles transmitiam e dar o primeiro passo para ficarem mais próximos.
    Gosto muito de sementes de abóbora, vou experimentar. Eu costumo fazer isto mas com cajus e amêndoas e montes de especiarias :)

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  2. Que bela história Maria, foi mesmo uma oportunidade de se conhecerem melhor e descobrir que há várias formas de se demonstrar amor. Sabe que nunca experimentei sementes de abóbora, fiquei curiosa para experimentar, me parece bem gostosa!!
    Beijinhos

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  3. Que bonito, Maria! Gosto mesmo da forma simples como descreves algumas coisas que podem ser tão complicadas, como as relações humanas... Conheço bem a Espiral, trabalhei lá perto numa altura mais complicada da minha vida e, ia lá muitas vezes com vontade de trazer 1001 coisas!
    Agora, a tua receitinha... como eu adoro sementes, estas sementes de abóbora ficam na minha lista para experimentar!
    Beijinhos

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  4. lindo post! E gostei da ideia das sementes! nunca fiz!
    Beijinhos,
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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