Audição: Bacalhau com crosta de alho, azeite e coentros.




Talvez seja da idade. Quem sabe é o meu mau feitio a apurar-se. Ou simplesmente começo a ter cada vez menos paciência. Mas verdade seja dita, não há nada que me irrite mais do que o barulho dos outros. Quer sejam os meus vizinhos a ouvir música brasileira aos berros o fim de semana inteiro (obrigada senhores agentes da polícia pela ajuda em erradicar este mal). Ou os meninos do Liceu Camões que comigo partilham a viagem do autocarro e falam, cantam e expressam as suas vontades sentados lá ao fundo mas de maneira a que todos os tripulantes os oiçam. E aquelas pessoas cujos fones libertam mais som nas redondezas do que para dentro dos seus ouvidos?! Ou piores: aqueles que nem fones usam e é mesmo de telemóvel em punho para o pessoal todo escutar a mesma música que eles?! E não esquecendo as velhas que em qualquer lugar expõem as suas vidas, mágoas, as tristes existências da sua descendência e os resultados ao sangue para que qualquer pessoa oiça e se compadeça. Seja quem for. Os canais de televisão que abusam do volume nos intervalos das séries. Os paizinhos que não sabem ensinar modos aos filhos quando os levam à rua e acham imensa graça que eles berrem e gritem enquanto eu tento almoçar tranquilamente no restaurante. E os palermas que comentam o filme no cinema?! Ou aquela rapariga que mascava pastilha elástica de boca aberta à minha frente na fila para pagar?!

Sim, a audição é o sentido com o qual tenho mais dificuldade em lidar. Às vezes percebo a angústia do protagonista d' O Artista quando sentiu a hecatombe aproximar-se mal os filmes ganharam som. Palavra que o percebo. 

Mas se não fosse a audição, não conseguiria ouvir os estalidos da crosta de alho, azeite e coentros neste bacalhau assado. O barulho que esta faz ao ser trincada é metade do prazer de degustar esta refeição. Mesmo que me servissem este prato num restaurante cheio de crianças aos gritos eu não me queixaria. Tenho a certeza que me conseguiria abstrair e retirar apenas o que de positivo aquele momento teria.


~ Ingredientes ~

3 postas de supremas de bacalhau
2 fatias de pão alentejano duro
coentros
2 dentes de alho
1 batata doce grande
azeite de Trás os Montes Alecrim aos Molhos
bouquet de especiarias Alecrim aos Molhos

Descongelar as supremas de bacalhau e passá-las por água fria corrente se desejar que fiquem menos salgadas. Dispô-las num pirex, retirar a pele e reservar. À parte cortar o pão da véspera em cubos, colocá-lo num robot de cozinha juntamente com os coentros e os dentes de alho descascados e um fio de azeite. Picar até conseguir uma mistura arenosa. Colocar este pão ralado aromatizado por cima das supremas de bacalhau, pressionando. Salpicar o pirex à volta e por cima do bacalhau com azeite.
Ligar o forno a 190º. Lavar e descascar a batata doce, cortando-a em fatias. Regar com um pouco de azeite e com o bouquet de especiarias. Levar ao forno num pirex à parte (ou num suficientemente grande onde caiba com o bacalhau) e assar cerca de 45m. Servir acompanhado de salada de alface e tomate.

tempo de preparação: 60m
dificuldade: **
vegetariana: não
para crianças:  sim 
ingrediente principal: bacalhau


E não se esqueçam de participar no passatempo [Limited Edition] x Alecrim aos Molhos até dia 31 de Dezembro!!


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Comments

  1. Olha, estamos em sintonia com as crostas (credo, que isto assim parece mesmo mal)... esse bacalhau está com um aspeto tão, tão bom!
    Para mim, o sentido mais apurado é mesmo o cheiro... e, por muitas vantagens que possa ter (eu juro que consigo cheirar se já pus sal na comida!) acredita que às vezes sofro tanto! Imagina nos transportes... no Verão... em hora de ponta (repara que eu tenho 1,57m e dou pelo sovaco da maioria das pessoas)... I rest my case!
    Beijinhos ;)

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  2. És como eu, híper fónica, ou como se costumava dizer antigamente, tens ouvidos de tísica ;)
    Eu também acho que vivemos num mundo muito barulhento, as pessoas têm medo do silêncio, ou de ficar a sós com os seus próprios pensamentos, então precisam de se rodear de ruído inútil. Eu sou daquelas que têm a televisão no mínimo e só eu é que ouço, falo muito baixinho, ou então as pessoas é que são surdas. Enfim, é a vida. E só mesmo pessoas como nós para conseguir ouvir o estalido da crosta de alho no forno, certo?
    Muito bom aspecto, adooooooro, alho, mesmo sabendo que fico com um hálito capaz de afastar uma matilha de vampiros durante 150 anos ;)

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  3. Aaahhh! Que linda e estaladiça crosta! Eu às vezes também me sinto invadida pelo barulho dos outros mas a maior parte das vezes tenho a capacidade (muito bem vinda, diga-se de passagem) de desligar!

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  4. Olá Maria,
    Cada vez que passo pelo teu blog, me delicio mais (não só com as receitas, mas também) com as tuas histórias e com a ligação que fazes às tuas comidinhas. Adorei este relato e, claro está que a receita é demais. Podes participar, vê aqui
    http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2013/11/1-aniversario.html
    http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2013/12/strudle-de-bacalhau-e-couve-com-chourico.html

    Bjs, Susana

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  5. Revi-me em muito do que escreveste sobre a audição.
    Sabes que sofro imenso, porque acho que oiço mais que os outros? está super apurada a minha audição.
    E às vezes, preciso mesmo de descnasar e é complicado!!
    Adorei este bacalhua, essa crosat aromática, perfeita.
    Um beijinho.

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  6. A parte do barulho a mim tem dias em que me afecta outros nem por isso.Com 3 crianças há dias em que é caótico e o barulho faz parte das brincadeiras ou brigas, enfim coisas da criançada.
    Quanto ao teu bacalhau acho que tem tudo o que precisas para te abstraíres do que te rodeia...Perfeito!
    Bjoka
    RIta

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  7. Absolutamente divino este teu post e acredita que me revejo nele, pois tenho uma tamanha sensibilidade ao som, especialmente ao incomodativo, que é quase que microscópica e irrita solenemente o meu marido que diz sempre "eu não ouço nada...".
    Adorei o teu bacalhau em crosta crocante.
    Beijinhos,
    Lia.

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