Tiras de frango saudáveis.



Quando estive a estudar em Cambridge, o meu college dispunha de refeições na cafetaria que não lembravam a ninguém. Para começar, o horário. Como não tenho 87 anos, jantar às 18h não me parecia sensato. Além de que me obrigava a comer duas vezes, visto que às 21h já andava eu de volta do frigorífico lá de casa à procura de algo para petiscar...

Depois nunca me entendi com a quantidade de molhos que usavam na comida. Todas as refeições era abundamentemente regadas com uma capa espessa e cheia de sal, ao passo que as sobremesas nadavam todas em custard. Estas vibravam com cores berrantes, fruto de uma fixação mórbida com corantes artificiais, e apenas uma dentada equivalia à dose recomendada de açúcar por dia... Os legumes e as saladas eram raros e nunca temperados com azeite e vinagre como fazemos por cá. Era dressing atrás de dressing com maionese, queijo e ervas...

Antes de pagarmos ao lado da caixa encontravam-se sempre pastilhas, gomas e chocolates. O mesmo nas máquinas de venda automática. As bebidas eram todas energéticas, carregadas de açúcar e uma substância chamada taurina cujas suspeitas acerca da origem sempre me perturbaram... Mas era o que havia para comer e beber, nada mais.

A determinada altura alguém deve ter refilado. Alguém não britânico, suponho. E foi aí que introduziram no menu a healthy option. Portanto, um prato sem carne, sem sal, sem cor e sem sabor. Só faltava mesmo colocarem um letreiro em baixo do resto da oferta dizendo unhealthy option para que o quadro ficasse completo.

Na casa onde morava em frente ao colégio viviam 9 pessoas (três alemães, dois franceses, um holandês, um inglês, um chinês e eu), partilhávamos dois frigoríficos e quatro hotplanes. E duas casas de banho para os estrangeiros mais uma só para o inglês. Não havia forno. Podíamos ser inteligentes para estudar numa das universidades mais exigentes do mundo e a melhor da Europa, mas não nos consideravam aptos o suficiente para ligar um forno sem incendiar a casa. Aliás, os ingleses têm uma fixação qualquer com o fogo... uma espécie de fetiche que não encaixava bem com os franceses que moravam comigo, visto que volta e meia faziam disparar o alarme. O barulho era ensurdecedor. Acho que nem a Tomada da Bastilha foi tão histriónica.

Quando comia em casa as refeições eram geralmente pré-feitas, congeladas e aquecidas. As sopas não eram más, mas vinham em potes comprados no Sainsbury's e mais pareciam uma refeição inteira do que uma entrada, tal era a quantidade de coisas que metiam lá para dentro. Quando passava o dia todo fora de casa, na biblioteca - que adoptei como segunda casa e onde dormia 20m a sesta de braços cruzados em cima dos livros, e onde também, certo dia, me cruzei à porta com o Príncipe Carlos (juro!) - sobrevivia à base de sandes, uma arte culinária em que os ingleses são exímios. Até as sandes do pequeno almoço levavam alface! Era vê-los enchê-las de caril, peixe e tudo o mais que se lembrassem. Depois pegavam nas suas sandochas e lá iam eles todos satisfeitos aproveitar uma nesga de sol, sentavam-se em frente ao King's College num muro baixo e comiam o seu almoço em 30m, os ombros tocando os de outros desconhecidos mas os olhos não. E depois lá voltavam eles para o trabalho até às 17h, altura em que, imediatamente e pela graça do Espírito Santo, ficavam estupidamente bêbedos.

Quando me recordo do mestrado, não há como não me lembrar da comida. Ou da falta dela. Dos chocolate cornflake clusters e dos jantares na buttery. Das idas aos noodles no Dojo, um restaurante reservado para as datas especiais. Do meu jantar de anos no Maharajah.

Acho engraçado quando vejo tantos chefes ingleses destacando-se nos dias de hoje, porque em muitos aspectos, para mim "boa comida" e "Inglaterra" nunca serão sinónimos. E ainda mais divertido é para mim gostar tanto das saudáveis e saborosas receitas da Mafalda Pinto Leite, uma chefe portuguesa que começou a vingar precisamente em Terras de Sua Majestade e cujas sugestões são sempre bem vindas cá em casa.


~  Ingredientes ~

receita adaptada do livro Dia a Dia com Mafalda, p. 144

1 chávena de pão ralado (tinha este congelado) 
1/3 chávena de farinha de milho
4 peitos de frango do campo
3 colheres de sopa de fromage blanc sem gordura (ou iogurte magro)

para o molho

2 colheres de sopa de fromage blanc sem gordura (ou iogurte magro)
2 colheres de chá de tempero tzatziki (compro na Tiger Store)
1 colher de café de pimenta de caiena (também da Tiger Store)

Aquecer o forno a 200º e forrar um tabuleiro com uma folha de papel vegetal ou base de silicone. Numa tigela misturar o pão ralado e a farinha de milho. Numa outra tigela colocar o fromage blanc. Cortar o frango em tiras não muito finas, passá-las pelo fromage blanc e depois pelo pão ralado. Repetir até acabarem as tiras de frango. Colocá-las no tabuleiro de forno regadas com um fio de azeite. Levar ao forno cerca de 20m ou até que estejam prontas. 
À parte preparar o molho juntando todos os ingredientes. Servir juntamente com as tiras de frango ainda quentes e acompanhadas de uma salada.


tempo de preparação: 40m
dificuldade: **
vegetariana: não
para crianças:  sim 
ingrediente principal: frango
 

Comments

  1. Olá!
    Também comprei esse livro há pouco tempo, mas ainda não experimentei nenhuma receita. Estas tiras de frango parecem-me ser uma boa forma de começar.
    beijinhos

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  2. Olá Maria,
    Começando por não concordar com tudo o que escreves, até porque se vires bem as coisas, os tempos mudam e com eles, muda muita coisa e o mesmo se passa em Portugal, senão re-visita a nossa dieta alimentar de há uns anos a esta parte e verifica o quanto evoluímos...
    Quanto à obsessão dos ingleses por fogo, não é bem assim, eles não são obcecados por fogo em particular e sim por health and safety em geral e se os portugueses o fossem só metade, evitariam muitos acidentes, especialmente os acidentes de trabalho.
    Bom, isto para dizer que sim, a cozinha inglesa mudou muito nos últimos anos e não é por nada que o Reino Unido, Londres nomeadamente, é considerada neste momento o hot spot da culinária e um local de visita obrigatória para os food lovers.
    Adoro a Mafalda, tenho esse livro e adoro essa sugestão que hoje nos trazes.
    Beijinhos grandes,
    Lia.

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    1. Olá Lia,

      É perfeitamente normal que não concordes com a minha opinião. Esta experiência deu-se entre 2007 e 2008 e desde então que a culinária inglesa tem vindo a melhorar. Prova disso são os chefes que se vêm a destacar, tais como Jamie Oliver, o Ramsay ou a Nigella. Por isso foi importante para mim contextualizar a minha experiência universitária: sem forno, só com 4 hotplates e recorrendo às refeições na cantina do colégio que eram muito diferentes do que estava habituada cá. Ainda bem que os ingleses se vêm alimentando melhor, temos todos a ganhar com isso. E suponho que noutros sítios que não Cambridge as pessoas também tenham hábitos diferentes: que comam mais do que sandes ao almoço e que se sentem frente a frente a disfrutar de uma refeição, mesmo que num dia de trabalho. Nevertheless... foi esta minha experiência pessoal. Com comida e com alarmes de incêndio extremamente sensíveis! ;) Beijinhos e experimenta as tiras de frango! :)

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    2. Eu estive 3 meses em Londres e tenho a mesmíssima sensação. Tal e qual. Só fui uma vez à cantina da universidade, era como tu a descreveste e cara de doer. Tentei sopas instantâneas mas não conseguia comer.
      Lia, as coisas mudaram, mas no Reino Unido sem termos uma cozinha apetrechada (por exemplo, na residência não havia nada para fazer sopa) torna-se muito difícil comer bem, enquanto em Portugal mesmo quem não possa cozinhar ainda encontra refeições minimamente equilibradas. Claro que agora há cada vez mais opções saudáveis, até nos aeroportos (no de Paris encontrei uma Exti que usei na Bélgica também e é óptima), mas a parte dos refrigerantes consumidos no Reino Unido é assustador.
      Mas bom, depois têm aquelas bibliotecas maravilhosas e you just have to bear with it.

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    3. faz parte do pacote quando se estuda em inglaterra: má comida e boas bibliotecas. apesar das novidades culinárias (não acessíveis a todos os bolsos), continuo a achar que a comida portuguesa dá dez a zero à que comi lá. e são os próprios chefes ingleses, como jamie oliver por exemplo, quem tenta mudar os hábitos enraizados dos seus conterrâneos. não que em portugal SÓ se coma saudável, mas a base e as tradições da nossa culinária são mais interessantes... do meu ponto de vista, of couse my dear!! ;)

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  3. Bela sugestão!
    Beijinhos,
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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  4. Que experiência fantástica e que marca para toda a vida.
    Também já olhei para essa receita e, vista aqui ainda tenho mais vontade de experimentar!
    Bjs, Susana

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  5. Acredito que tenha sido uma experiência académica e tanto, mas certamente não o foi a nível gastronómico :)
    Gostei imenso destas tirinhas de frango!

    Beijinhos*

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