Sopa de abóbora, cenoura e gengibre.


Foi há poucos dias atrás, no copo d'água do casamento de uma amiga de infância no restaurante Tágide, com uma vista lindíssima sobre Lisboa, que me deram a provar esta deliciosa sopa. E eu gostei tanto que não vi a hora de partilhá-la aqui também, juntamente com esta história que data do século passado.
Estávamos nesse dia à porta da igreja, quando a mãe da noiva me viu (depois de um interregno de quase 20 anos), e veio a correr dar-me um abraço apertado. Quando me libertou um pouco, disse logo: "Continuas reguila?!". E depois virou-se para o meu marido com um ar entre o brincalhão e o preocupado e perguntou-lhe também: "Ela continua reguila?!". Optei pela verdade e respondi: "Reguila, sempre!!" [Na dúvida, lanço sempre um grito à la guerrilheiro sul americano com um punho no ar para sustentar o meu mau feitio, embora raramente ande de boina preta e espingarda às costas. Raramente não é sinónimo de nunca, atenção.]

Logo a seguir a mãe da minha amiga contou uma história que se passou há muuuito tempo atrás (teria eu uns 8 anos ou pouco mais) e da qual eu já não tinha qualquer memória, mas que é um bom exemplo do tipo de pessoa que sou e da impossibilidade de mudar este meu rico feitio. Esta mania de ir à luta, mesmo quando estou em desvantagem, mesmo sabendo que me vou magoar, mas cujo impulso não consigo evitar. E depois seja o que Deus quiser. Ou as freiras.
Numa visita de estudo que fizemos à Vieira de Leiria, uma antiga colega minha (dessa eu lembro-me perfeitamente, pois era completamente execrável) deixou um cesto com as suas coisas na passagem do autocarro e eu ao passar deitei-o ao chão, sem querer. A estúpida da miúda esperou a mãe chegar para largar a correr fazer-lhe queixa. Elas chamaram-me de parte e a miúda relatou a sua versão do sucedido para eu ser repreendida, apenas com o objectivo de me humilhar, já que sozinha não tinha a mínima hipótese de me fazer frente. Eu ouvi a descompostura e, minúscula, em frente à miúda e à mãe dela, não me desfiz em desculpas e arrisquei-me mesmo a levar uma bofetada. Em vez disso, virei-me para a minha colega e, à falta de melhor, respondi-lhe: "Tu só estás para aí a falar armada em forte porque tens a tua mãe que te defenda. Eu estou aqui sozinha e tu sabes que não fiz nada de mal!"
De repente surgiu a minha professora da primária, a Irmã Amélia, que me pôs o braço por cima dos ombros e disse: "Não tens aqui a tua mãe, mas não estás sozinha. Eu vi o que se passou. Tens-me aqui a mim e eu defendo-te!" E como toda a gente sabe, no xadrez da vida, freira ganha sempre a mãe, portanto eu escapei-me sem um arranhão e a estúpida da Carla Sofia, bem como a respectiva progenitora, enfiaram o rabo entre as pernas e voltaram para a sua miserável existência na Batalha.
E esta foi a segunda grande lição que a religião me ensinou: que nunca estamos sozinhos quando dizemos a verdade e que vale sempre a pena ir à luta, por mais pequenos que sejamos. É por estas e por outras que eu acredito mais nas freiras que em Deus. Porque elas, sim, são omnipotentes e omnipresentes. Ou pelo menos a Irmã Amélia era, e pelos vistos continua a contar esta história e a lembrar-se orgulhosamente de como eu realmente sou, mesmo já sendo uma freira velhinha.

E limpar o pratinho antes de tirar a fotografia, não?...
~ Ingredientes ~

1 talha grande de abóbora (entre 400g e 500g)
4 cenouras grandes
1 cebola grande
10g de gengibre fresco ralado
1 pitada de sal marinho Necton

Descascar a abóbora, as cenouras e a cebola. Lavá-las, cortá-las e colocá-las numa panela grande. Juntar água a ferver até cobrir. Deixar cozinhar com um pouco de sal marinho em lume brando e com a tampa tapada até que estejam bem cozidas. Desligar o fogo, reduzir a puré com a varinha mágica e ralar o gengibre, misturando com uma colher de pau.


tempo de preparação: 70m
dificuldade: *
vegetariana: sim
para crianças:  sim 
ingrediente principal: abóbora

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Comments

  1. Adorei a história! E vou levar a lição comigo, há situações em que outros nos fazem sentir muito pequeninos, temos mesmo de ganhar forças e não baixar a cabeça!

    E sobre a sopa, já uma vez fiz parecido cá em casa e adoro o sabor do gengibre com a cenoura, é maravilhoso :)

    beijinho**

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  2. Adorei essa história e é bem verdade. A tua sopinha deve ser deliciosa.
    Bjs, Susana
    Nota: Ver os passatempos a decorrer no meu blog:
    http://tertuliadasusy.blogspot.pt/2014/01/tronco-de-ano-novo-trunk-of-new-year.html
    https://www.facebook.com/Tertuliadasusy

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  3. Que bela sopa e que bonita história :)
    Gostei muito! :)

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  4. Linda e saborosa sopinha!
    (Achei a história muito engraçada!)
    Beijinho

    Sílvia
    http://bocadinhosdeacucar.blogspot.pt/

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  5. Uma sopinha bem deliciosa e tão reconfortante!
    Bjs

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  6. Quando falamos a verdade, somos verdadeiros, e felizmente ainda hoje em dia isso é relevante e temos sempre de ganahr forças para ser verdadeiros sem medo dos outros nos derrubarem!
    E sim, sempre reguila, adorei :)
    Sopa de abóbora, cenoura e gengibre é bom!
    Um beijinho.

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  7. Bem reconfortante!
    Beijinhos,
    http://sudelicia.blogspot.pt/

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  8. Valha-nos a irmã Amélia...eheh! Adorei ler a tua história e tentei imaginar-te de boina preta e espingarda às costas... a comer sopa de abóbora e cenoura... muito bom. :)
    Agora a sério, a sopa está apetitosa e é bem reconfortante, com sabores da época. Uma delícia. ;)
    Beijinho.

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  9. Nem sabes o que eu já me ri! Adorei a sopa e a história, viva a freira!

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