Compota sem açúcar de maçã e chia.


Há já uns meses que dou explicações de Literatura. Não é essa a minha área de formação, não sou professora de Português nem nunca foi o meu objectivo leccionar no secundário, mas leio compulsivamente e tenho inteligência suficiente para conseguir articular os objectivos de um programa de ensino com a motivação de uma explicanda. Também não paguei por nenhum CAP nem preciso desse tipo de "licença" para provar que sei ensinar. Acho engraçado que mo exijam para concorrer a dar aulas na Universidade, quando o próprio facto de andar há tanto tempo a viver no meio académico parece não ser suficiente. Assim de repente, que me poderá ensinar esse cursito de algumas semanas que não tenha obrigação de ter aprendido já nos últimos 12 anos?... É preciso sempre um papelinho que comprove que não somos mais do que dizemos ser, não é?... Acho que a nossa formação académica não tem de determinar necessariamente o que nos põe o pão na mesa, fico com os pêlos da nuca eriçados quando leio reportagens nos jornais escritas com erros gramaticais vulgares e mais ainda a penugem se empina quando me defronto com a (falta de) qualidade de alguns dos professores que por aí andam, desempregados ou não. Não utilizo o novo acordo ortográfico a não ser que me obriguem e longe de mim vir para aqui ser conciliadora. Venho apenas expôr a minha experiência pessoal, subjectiva, neste espaço onde eu escrevo e onde, quem quiser, lê, quem não quiser, fecha a janela que faz corrente de ar e escusa de voltar.


Dou, portanto, explicações de Literatura. Noto que a minha explicanda tem evoluído bastante e isso motiva-me cada vez mais. Em cada poeta, em cada obra, a cada soneto, vou relembrando as aulas do secundário, vou aprofundando a teoria, estudo para ensinar (ainda há muitos professores que o façam actualmente?...). Faz-me um pouco de espécie que o programa não permita que os alunos usufruam da Literatura Portuguesa, assim com letra maiúscula, que lhes seja apenas pedido que memorizem uma série de características e que analisem poema após poema, escapando-lhes a essência dos mesmos, quando para os examinadores apenas é essencial que relacionem recursos estilísticos com temas e correntes artísticas.

Lembro-me de ler Cesário Verde nas aulas e de ter sentido uma familiaridade com o realismo mágico que tanto aprecio. A sátira social de Gil Vicente é uma herança demasiado preciosa para se perder. No "Adeus" e no "Poema à Mãe" de Eugénio de Andrade está muito mais de mim do que nas palavras escritas. A "Autopsicografia" de Pessoa do meu manual de escola tem tantas notas ao lado, que até o título está dividido em fragmentos de análises. E as cantigas de amigo são chinês para mim.


É isto que tento passar à minha explicanda, mesmo não sendo professora de Português nem tendo CAP. Parece que tem corrido bem e que ambas temos usufruído desta experiência. Tenho a sorte de poder dedicar-me apenas a ela e de conseguir adaptar o material à sua realidade, já que na escola é mais uma (ou menos uma). E sei que a Isabel não sairá das explicações apenas a saber identificar o tipo de rima e a contar decassílabos.


Esta compota acompanha divinamente iogurtes, granolas, batidos, panquecas, além de que faz uma óptima e saudável sobremesa para quem não resiste a um doce depois da refeição...
 
~ Ingredientes ~

receita adaptada de Oh she glows

675g maçã descascada, sem sementes e cortada em quartos
5 colheres de sopa de sementes de chia
700ml de água a ferver
casca de um limão
2 paus de canela Suldouro
1 colher de chá de noz moscada Suldouro

Misturar todos os ingredientes numa panela grande. Deixar ferver e reduzir o lume. Cozinhar cerca de 20m. Retirar do lume, colocar a compota em frascos esterilizados e virar "de pernas para o ar" para criar vácuo. Guardar em ambiente seco e ao abrir, conservar no frigorífico. Esta compota companha muito bem "overnight oats", panquecas, serve como sobremesa e para satisfazer o mais teimoso dos "sweet tooth". A fotografia não faz justiça à qualidade da receita, mas pronto. Confiem em mim.

tempo de preparação: 45m
dificuldade: *
vegetariana: sim
para crianças:  sim 
ingrediente principal: maçã

 
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Comments

  1. A noz moscada deve ter dado um toque bem especial a esta tua compota ! E sou menina para a fazer ... Ai sou sou!!
    Beijinho doce :)

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  2. Tantas vezes me pergunto o mesmo sobre literatura mas sempre achei que estava sozinha neste tipo de pensamento. No meu secundário o meu português A era a literatura portuguesa e que hoje não mais existe. Havia também o português B para outras áreas que não as de humanidades. Um dia alguém se lembrou de que só haveria um "português" e com alguma tristeza vi que os nosso poetas desapareceram dos programas, um deles Cesário Verde entre outros. Isto dava conversa para muito. Quanto ao papel que prova isto e aquilo infelizmente é assim. Eu esperei 5 anos para ter o meu canudo, (pago 5 anos antes) uma vergonha. Mais tarde descobri que há quem falsifique os dito cujos... A sabedoria não está num papel, está dentro de nós e do que nos propomos a fazer. Sorte a da Isabel ter uma explicadora com garra e cheia de saber. Gostei muito deste post. Boa semana.

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  3. Nunca fui à bola com as cantigas de amigo, mas o Adeus do Eugénio de Andrade é um dos meus poemas preferidos. Faz-me sempre chorar. Por acaso tirei o CAP no início da minha carreira profissional e foi bem útil para os 8 anos de docência universitária que viriam a seguir. Mas para dar explicações acho que é muito mais importante o empenho do explicador e a empatia que consegue estabelecer com o explicando; já perante uma turma, a dinâmica é muito diferente e outros fatores entram em jogo (e sim, eu escrevo com o acordo ortográfico). Mas o que importa é que fazes algo que te dá prazer e vês a tua explicanda a evoluir - como esta compota que de certeza dá um prazer imenso. ;-)

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  4. Português foi das minhas disciplinas favoritas no secundário, apesar de ter escolhido a área das ciências. Foi com o português que descobri a minha paixão por Florbela Espanca, adorava analisar os poemas de Fernando Pessoa e também não podia com as cantigas de amigo!!! Muita sorte tem a Isabel pois a paixão de demonstras por este tema faz-te certamente uma excelente exlicadora! :)

    Quanto à compota QUERO! JÁ!!! :D

    beijinhooo*

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  5. Gostei desse aspeto. parece bem saborosa e leve.
    Bjs

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