Eu e o miso da Marta.


Anda para aí uma sede de receitas saudáveis que dá dó. Actualmente ninguém enfia nada na boca sem garantir que lhe faz x ao fígado, y ao pâncreas e z ao cólon. Andamos tão conectados com a carne que nos esquecemos de garantir que "mente sã em corpo são" e que tanta fiscalização em nada nos aquece a alma. Já sem falar das supostas nutricionistas do instagram, da perturbação mascarada de saudável, dos sites que se alimentam desta moda, das receitas que primeiro listam os "sem" antes dos ingredientes, das gorduchas bloggers de moda que antes publicavam os seus looks do dia a troco de um fim de semana num time share em Vila do Conde e que hoje não passam sem os seus sumos detox e os passatempos a celebrar a comida saudável...

É todo um rol de disparates que me cansa. Já não consigo ouvir falar em detox sem me lembrar do Ricardo Araújo Pereira e da sua pertinente questão: "mas afinal foram todas passar o verão a Chernobyl?!". E quando ser vegan deixar de estar na moda, como é? Sobre o que vão publicar, de que vão viver? É que a lactose e o glúten já por cá andavam antes de vocês decidirem fazer deles lucro. 

Estas modas fazem-me suspirar. Não, inspirar fundo. Vive e deixa viver. Que uns se entupam de probióticos e outros de açúcar, que te interessa isso? Que a uns brilhem os olhinhos de satisfação face à nova parceria - seja ela de mortadela, de umas botas do Jumbo ou de superalimentos que prometem rebentar com o pneu uma semana antes da época balnear ... -, que interessa isso? É só mais uma moda, amanhã vivem todas só à base de azoto desde que isso lhes garanta descontos no Boticário. 

Há tanto a aprender com a culinária e tanto que a culinária nos ensina. Onde está a obsessão. Onde está a neurose. Onde está o lucro. Onde estão os outros e onde estou eu.

Como fiel consumidora de tudo o que se publica ao nível da culinária por esta internet fora (mas também em livros, conversas de café em que se partilham receitas, restos de papel de jornal onde se rabiscam os segredos de família que garantem uma massa elástica e simultaneamente gostosa) vou absorvendo. Absorvo as parvoíces, as modas, as informações pertinentes e as que dispenso. E no final faço a triagem. 

Posso assim recomendar duas ou três fontes autênticas e fidedignas. Uma delas é a Marta e a sua sopa de miso que me ajudou a recuperar de uma virose. Abaixo segue a minha versão e a recomendação: dinheiro bem gasto é no seu livro. De cada vez que o abro, aprendo sempre qualquer coisa de novo. E aqui fica também um vídeo para aqueles, como eu, que se começam agora a interessar por macrobiótica e a querem descomplicada e livre de vedetismos.



Sopa de Miso


~ Ingredientes ~


adaptado d' O Livro de Cozinha da Marta, pp. 106-109

1/2 colher de sopa de óleo de sésamo
1 cebola
1 alho francês
1 tira de alga wakame
10g de cogumelos maitake secos
5 colheres de sobremesa de miso de cevada
coentros
gengibre

Encher duas tigelas com água e demolhar a alga wakame e os cogumelos separadamente. numa panela aquecer o óleo de sésamo e refogar a cebola em tiras e o alho francês fatiado. Juntar os cogumelos demolhados e saltear uns minutos. Reservar a água dos cogumelos. Juntar 4 tigelas de água e a que sobrou dos cogumelos. Tapar a panela até ferver. Adicionar a alga wakame cortada em tiras e a respectiva água.retirar um pouco do liquido da sopa e aí dissolver a pasta de miso. Juntar este conteúdo à panela, e mal comece a querer ferver, apagar o lume para não comprometer as propriedades do miso. Ralar um pedaço de gengibre fresco e espremer o seu sumo directamente para a sopa, apertando-o. Adicionar coentros picados e servir.







Comments

  1. Agora com o indiozinho sopa é coisa que não falta lá por casa. Mas fico mesmo pelo básico. Ai madrinha, como eu adoro a tua frontalidade! É mesmo verdade, é o boom do saudável, daqui a uns tempos já não vai render tanto, acho eu :P
    Por acaso já tinha visto esse vídeo da Marta há alguns meses atrás, e fiquei :O , mas também lembro-me que estava naquela época dos enjoos e nem liguei muito. Essas paparocas chiques-saudáveis deixam-me doida e cheia de vontade para experimentar :)

    Madrinha publica sempre, tenho muitas saudades de picar o ponto aqui :P Tens de dar-nos mais luzes sobre a vertente macrobiótica, a minha única experiência com esse tipo de comidas foi na faculdade e no celeiro lol


    Beijinhosss

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    1. Afilhada, já te deixei um comentário no blogue há dias: os teus pães de mandioca fizeram sucesso cá em casa!
      Olha só tu me entendes e à minha frontalidade. Até neurótica já me chamaram hoje! :p
      O Miso provavelmente não é desaconselhado na gravidez (mas informa-te com a tua médica) até pq ajuda bastante com os problemas gástricos e a reforçar a imunidade. Logo que tenhas luz verde experimenta a receita que vais gostar!
      Beijinho

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  2. Já fiz algumas versões mas acabava sempre por achar que sabia pouco a miso... agora percebi porquê! A quantidade que pões é bastante maior do que a que eu punha! Da próxima vou carregar no miso! :-)

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    1. Depende também do tipo de Miso que utilizes. O de cevada é mais forte, enquanto que se usares o claro ( de arroz?...) tens de reforçar a dose senão mal sentes o sabor. Eu prefiro este!

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  3. Concordo contigo parcialmente… É verdade que a alimentação saudável se tem tornado um vício para muitos – sem dúvida. É verdade que há muitos distúrbios alimentares por aí justificados com uma vida saudável, sim, e que chegam a ser propiciados pela mesma propaganda e indústria que alimentam. Mas não nos esqueçamos de que nós funcionamos a modas, e que o odiá-las, ironicamente, é apenas mais uma moda entre tantas, até menos natural e mais forçada. Não acho que seja saudável (má escolha de palavras? :P) analisar tão profundamente tudo isto, odiar tudo… Porque tudo tem pontos positivos e negativos, principalmente estas modas de que falas, que geram sempre os mesmos grupos: aqueles que se concentram nos primeiros e desprezam quem não o faz e aqueles que se concentram nos segundos e se acham especiais por ter uma opinião contrária à dos outros (como é óbvio, não se encaixa aqui toda a gente, mas sem dúvida que estes são os dois principais grupos que se formam). No lado oposto ao teu, também me cansa esta moda de criticar todo e qualquer costume ampliado pela natural difusão (intencional ou não), cada comportamento mais socialmente aceite (e atenção, não me refiro particularmente a ti mas a todos os que nela se reveem e muitas vezes até mais radical e intensamente). Crítica cujo único argumento é no geral a generalização: toda a gente que quer ter cuidado com a alimentação e partilhar o estilo de vida tem um DCA digno de internamento. Não é uma obsessão, uma neurose, considerar obsessivamente os outros neuróticos?
    Não te quero ofender de todo, mas a impressão com que fico sempre que leio um post neste blog é a de que quem escreve os textos se irrita com particularidades em todos os assuntos… Claro que todos temos as nossas personalidades e as nossas opiniões, e esta é a minha como essa é a tua :)
    De qualquer maneira, essa sopa parece-me fantástica. É uma coisa que nunca experimentei e em relação à qual tenho curiosidade!

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    1. nao, claro que não me ofendo!! Mas já agora, não te usei como referência (nao leio o teu blogue) e acho q se não gostas do que escrevo se calhar é melhor não passares por cá nos próximos dias que tenho outras "irritações" agendadas. uma segunda leitura do texto vai certamente ajudar-te a perceber que não é o "saudável" que me irrita, mas o exagero e a acefalia seja em que forma estas se apresentem. sigo muitos blogues de culinária (uns mais saudáveis do que outros, uns mais na moda do que outros) e por isso é que consigo fazer a triagem (segunda leitura! segunda leitura!) e escolher aqueles que - para mim - valem a pena e aqueles que não acrescentam nada. Olha e à saída aproveita para levares a tua carapuça para não apanhares frio na cabeça.

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    2. Nunca considerei sequer que tenha sido usada como referência. Não posso dizer que estar algo mais dentro do 'mundo saudável' não me deixe parcial, mas sei que também me faz ter consciência de que há muita gente que se encaixa mais no que descreveste do que eu.
      Nunca disse que não gostava do que escrevias, disse que não concordava. Aliás, sigo o teu blog há algum tempo e gosto tanto dos textos como das receitas, simplesmente acho cansativo ler textos que transmitem ódio a tanta coisa...
      Acredita que percebi o que disseste, tanto que não disse que o saudável te irritava mas sim a moda que lhe está associada. Talvez devesses ter lido melhor o comentário (segunda leitura?).
      Eu li o texto e não concordei, mas para a próxima vou ver se arranjo um comentário em que concordo com tudo o que dizes. Acho que esse irá ser mais bem aceite por aqui - as frontalidades... Mais uma moda.

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    3. Sim, eu só quero comentários que concordem a 100% comigo. Aliás, são só esses que publico.

      Acho curioso que no meio de tantos comentários que ao longo do tempo me deixaste aqui, apenas o de ontem (e o de hoje) tenham sido tão pouco simpáticos. Provavelmente porque te sentiste atacada, o que não era de todo o objectivo, mas já esclarecemos isso não foi?

      O que agora consideras "excesso de ódio que te cansa" em nada difere do tom normal do que escrevo, aliás como já referiste. Eu não escrevo para não te cansar ou para agradar a quem quer que seja (excepto a mim!) e se isso te incomoda, então sugiro que reflictas antes de ler e de comentar por aqui, porque em nada vai mudar. E se leres com atenção (terceira leitura!!) encontrarás um sincero e frontal elogio a todas as Martas que, mesmo na moda do saudável, se destacam. Só quem se sente emocionalmente atacado não consegue destrinçar os dois exemplos sobre os quais argumentei.

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    4. Só para avisar que o tom dos comentários está a piorar pelo que estão a ser apagados automaticamente. Afinal é para isto que serve a moderação!
      Sugestão para passar a azia: pastilhas Rennie.

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  4. Maria, adoro o livro da Marta! Ainda não consegui por muita coisa em prática mas as recordações que me trás já valem a pena. Relembrei tanta coisa e já aprendi outro tanto.
    Curiosamente recordo-me de não apreciar muito o sabor do miso quando o usei na adolescência, no período em que aderi à macrobiótica com o meu pai. Provavelmente hoje conseguiria fazer algo que me agradasse mais, mas na altura não fiquei mesmo fã! Tenho de rever isso ;)

    Bjinhos

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    1. Pode ser do tipo de miso que usas. Eu do branco inicialmente não gostei, mas também foi porque o experimentei nuns brócolos assados e não correu nada bem. Em sopa corre melhor, mas confesso que este mais escuro é o meu favorito.
      Eu sei que tu também és uma das fãs confessas da Marta. Eu gosto muito do livro dela, do da Joana do Passe Vite e de tantos outros que me estão a ensinar MUITO. Mas não me fico apenas pelos livros, há blogues fantásticos e grupos de facebook onde os participantes partilham com o principal intuito de ajudar, informar... (outras vezes só o fazem mesmo para andar ao estalo...). Enfim, acho que percebes o que quero dizer. Fico feliz que em pessoas como tu - e noutras tantas - as minhas palavras não se percam.
      Beijinho

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