What I talk about when I talk about reading.


Este ano fiz apenas uma resolução ao soar das 12 badaladas: ler sempre à noite antes de adormecer. Logicamente não tenho cumprido esta resolução, como aliás raramente cumpro qualquer uma das decisões que tomo acompanhadas de passas e champanhe. Já tinha reduzido as minhas promessas para o mínimo a contar com o meu alto grau de abstenção, mas aparentemente nem uma sou capaz de cumprir. Shame on me.

Para me motivar comecei por ajustar o meu desafio no Goodreads: ler vinte livros em 2016. A verdade é que todos os anos aponto este objectivo o mais alto que consigo, visto que se me propusesse a ler apenas cinco, o mais certo seria começar em Novembro e deixar pelo menos quatro livros na prateleira. Propus-me então a ler todas as noites um pouco e pelo menos vinte, de preferência de qualidade, o que contabiliza aproximadamente um a cada duas semanas e meia. Assim, se as minhas contas estiverem correctas, por esta altura já deveria estar mais ou menos a meio do quinto livro. 

Recapitulemos então o meu percurso literário até Abril de 2016.

Cheia de energia, em Janeiro agarrei-me com unhas e dentes às quase 700 páginas d' O Tambor de Lata de Gunter Grass, um livro que me despertou interesse porque se apresenta como um dos símbolos do realismo mágico em terras europeias. Só conheço este género pela pena de escritores latino-americanos, de maneira que mal o encontrei na livraria com um simpático desconto (provavelmente em função do peso...), trouxe-o para casa. Para além de ser a obra mais importante de um autor controverso (devido à sua aproximação ao nazismo, a qual escondeu durante grande parte da vida), está na minha "pilha dos Nobel", basicamente obras de escritores galardoados com este prémio que vou lendo seguindo o conselho que W. E. B. Dubois deu à filha numa carta de 1914:
"Read some good, heavy, serious books just for discipline: take yourself in hand and master yourself. Make yourself do unpleasant things, so as to gain the upper hand of your soul."
Não sendo eu da estirpe humana perfeita, tive de intercalar o senhor Tambor com algo mais entusiasmante para não desistir do desafio logo no início do ano. Peguei então no Humans of New York Stories, a segunda obra baseada na página de facebook mais linda e inspiradora de sempre. Quem não a conhece não sabe o que perde. Com a cidade como pano de fundo, o fundador do Humans of New York Brandon Stanton percorre as ruas fotografando as pessoas com quem se cruza: novos, velhos, crianças, jovens, mulheres, coxos, homens, imigrantes, empresários de sucesso, desempregados, sem abrigo, doentes, ... e consegue, numa imagem e em poucas frases, fazer surgir a sua humanidade. No meio de toda esta diversidade, eu - que fui treinada a acreditar que não existe tal coisa como a natureza humana e que o universalismo é uma falácia - dou por mim a pensar porque me identifico tanto com indivíduos aparentemente tão dispersos...

Pouco depois de terminar este livro - e cheia de vontade de mudar o mundo! - , tentei novamente fazer as pazes com O Tambor, mas fui uma vez mais vencida pela força da gravidade que puxa aquele calhamaço para o fundo da pilha dos meus livros interrompidos a meio. Isto só me leva a concluir que o senhor W. E. B. era um pai muito exigente... E foi aí que me cruzei com uma das obras com a qual mais me identifiquei nos últimos tempos, aquela que melhor se adapta à minha personalidade e que me ajudou a reformular a minha relação com a leitura: What I talk about when I talk about running de Haruki Murakami. Sem entrar ainda em detalhes acerca do real impacto que esta obra teve em mim - isso fica para outro dia que a publicação já vai longa -, posso apenas adiantar que a premissa "vou ler um pouco antes de adormecer por mais que me custe", foi abandonada. Eu li o livro em pé, sentada, deitada, eu arranjava nem que fossem dois minutos para me aproximar mais do final - será que ele consegue melhorar o tempo na próxima maratona? como foi correr uma ultra-maratona? e o Iron Man? será que eu alguma vez conseguirei correr 42 quilómetros sem parar? Roubei minutos à televisão, à companhia dos outros, até alcançar aquela sensação agridoce a poucas páginas do final: "só espero que este livro nunca mais acabe".

Mas voltaremos às corridas mais tarde. Se este livro me ensinou alguma coisa foi a importância do que aprendemos sobre nós numa corrida, mais do que chegar ao final. 

Na décima primeira semana do ano - e eu apenas com dois livros lidos - comprei o Vozes de Chernobyl de Svetlana Alexievich, prémio Nobel de 2015, para suceder a Murakami. Conhecem aquele ditado popular: "mais vale dois Nobel na cabeceira do que um lá sozinho a ganhar pó"?... Vozes de Chernobyl foi escrito por uma jornalista de investigação, a qual recebeu a maior distinção literária numa competição que geralmente premeia apenas obras de ficção. E pela segunda vez em tão pouco tempo - e contra as minhas mais pessimistas previsões - fiquei agarrada a uma obra. Se calhar até posso dizer que ela me agarrou a mim. Cravou as suas mãos nos meus ombros e tornou-me testemunha da outra realidade da explosão do reactor ucraniano, que não aquela difundida pelas autoridades soviéticas. Desde a recusa em abandonar as raízes, especialmente entre aqueles que viviam da terra nas propriedades rurais da Bielorrúsia (as mais afectadas), ao retorno furtivo à zona de exclusão; passando pelo heroísmo daqueles ensinados que acima do eu existe um nós, submetendo-se (voluntariamente ou não) a doses elevadas de radiação para evitar a explosão dos outros reactores nucleares; relatos de um quotidiano de quem deve temer um inimigo sem rosto, que lhes envenena as células traiçoeiramente, gente essa que ao mesmo tempo não conhece nem quer conhecer outra realidade... Esta é uma obra onde a intervenção da autora propositadamente se difunde na selecção dos testemunhos para que estes não percam, pela segunda vez na História, o protagonismo que merecem. Omnipresente e omnisciente, o modo como a autora tricota os testemunhos, enlaçando-os uns nos outros discreta mas firmemente, faz da polifonia um acto político. E já agora, spoiler alert: este foi o início do fim do Império Soviético. 

Não quis ficar por aqui no que a obras polémicas diz respeito: do balcão da Bertrand, por apenas mais três euros e meio, trouxe comigo a INFAME obra de Henrique Raposo, Alentejo Prometido. Depois de ler as suas crónicas no Expresso e que tanto gozo me dão, esperava muito mais desta obra. O autor baseia-se em várias etnografias sobre o Alentejo - Ricos e Pobres de José Cutileiro é uma das monografias base da Antropologia de Portugal que estudamos obrigatoriamente na faculdade - e na sua experiência pessoal, bem como em fontes estatísticas públicas para procurar as suas raízes. Não, não retrata o Alentejo como um paraíso de kamikases. Não o retrata também como um poço de machismo. Apresenta as razões e, especialmente, a genealogia do que ele considera ser o Alentejo actual. É uma interpretação, não uma telenovela da TVI. E bem escrita por sinal. Bastante actual, sem papas nem língua e não fugindo aos temas quentes desta região. Não deixa de ser curioso que as pessoas se percam em programas da SIC Radical para julgar uma obra que se lê mais rápido do que esta publicação no blogue. Sinceramente, eu esperava mais sangue, fiquei um pouco desiludida. Prefiro as crónicas, têm mais taninos. Mas pronto, como também eu sofro de má interpretação por terceiros, decidi inaugurar a hashtag #JeSuisRaposo e usá-la-ei daqui para a frente sempre que tal se justifique.

Concluindo a minha longa dissertação - o que me livra de comentários palermas porque o excesso de letras provoca distração - chegada à décima quarta semana do mês, estou um livro e meio atrás do meu objectivo. Em minha defesa, O Tambor devia contar por três: é muito longo, difícil de transportar e ainda agora cheguei à adolescência do protagonista sem perceber que raio simboliza o instrumento! Freud explica?...


E o que é para mim ler? É vida. É imergir numa realidade na qual me identifico totalmente - ou de todo -, que me agarra pelos tornozelos e me obriga a respirar única e exclusivamente aquela matéria. É ansiar por virar mais páginas e ao menos tempo desejar que estas nunca tenham fim. É sentir as sinapses estalar, novas ideias formarem-se e derrotarem presunções antigas. É perceber que "aceitamos o amor que achamos que merecemos" (The perks of being a wallflower); que podemos começar a pintar as rochas enquanto ainda há luz, mas quando a escuridão as tolda, temos de decidir de que modo as queremos recordar (Humans of New York Stories). É entrar no acampamento religioso de mão dada com a ultra-cristã e simultaneamente incrivelmente sádica mãe da protagonista de Why Be Happy When You Could Be Normal? e exclamarmos em uníssono: "Hmmm it smells like Jesus!". É não perceber como obras fantásticas como O meu irmão e O teu rosto será o último ganharam Prémios Leya e Uma outra voz também (whattttt?!). 

Ficava aqui o dia todo. Durante anos o meu tema favorito de conversa foi apenas sobre livros. Basicamente, o interesse que as pessoas me despertavam era directamente proporcional aos livros que liam. Conversava sobre os livros que li. Os que gostava de ler. Sobre aquele que te vou emprestar (e nunca mais vou ver) porque é mesmo a tua cara. Os que nunca terei tempo de ler, porque, tal como Umberto Eco, acredito que os livros por estrear são bem mais valiosos do que aqueles que nunca lerei. 

E pronto, calei-me. A seguir há uma receita de noodles.





Noodles com Legumes Asiáticos


receita adaptada do livro Receitas Saudáveis de Jamie Oliver, p. 138

~ Ingredientes ~

150g de espargos selvagens, arranjados e cortados na diagonal
100g de floretes de brócolos
1 alho fresco, lavado e cortado em fatias finas
250g de tofu firme, cortado em cubos
100g de noodles de arroz
1 pedaço de gengibre, ralado
3 dentes de alho, ralados
raspa e sumo de 1 limão
1 colher de sopa de molho de soja light
2 colheres de sopa de óleo de sésamo
1 colher de sopa de vinagre balsâmico
1 folha de alga nori
1 colher de sopa de sementes de sésamo
1 colher de chá de malaguetas vermelhas secas
sal
pimenta preta

Começar por fazer a marinada do tofu (deve ser deixado de molho o máximo de tempo possível para que o tofu adquira os outros sabores): juntar o gengibre, o alho, a raspa e sumo do limão, o molho de soja, o óleo de sésamo e o vinagre balsâmico. Envolver bem e reservar. Entretanto preparar a mistura de sésamo, tostando-o numa frigideira anti-aderente com as malaguetas. No copo misturador colocar a alga nori partida em pedaços, o sal e a pimenta e reduzir. Adicionar a mistura da sésamo e malaguetas e continuar a pressionar até ficar com um pó fino. Guardar num frasco para poder utilizar noutras receitas. 
Cozinhar os legumes a vapor até que estejam al dente. Cozer os noodles em 4m, reservando alguma da água. Colocar os legumes e a massa num prato fundo e tapar para que não arrefeçam. Numa frigideira anti-aderente colocar o tofu aos cubos e grelhá-lo, virando-o até que esteja pronto e dourado. Juntar a marinada aos noodles e misturar bem, adicionando um pouco da água da cozedura da massa para soltar os noodles. Adicionar o tofu e salpicar com o tempero de alga e sésamo. 

Comments

  1. Gostei tanto, tanto! Identifico-me tanto, tanto! Confesso que já li muito mais, sou dessas pessoas que já fizeram várias diretas porque não conseguia largar o livro (e sentia esse sentimento de pena por terminá-lo). Quando se acumulam tantas coisas, alguma tem de ficar para trás e, no meu caso, a leitura diminuiu muito.
    Este post já aumentou a minha lista de livros a comprar e, apesar de eu já me ter deixado de estabelecer objetivos que sei que não vou cumprir, prometi a mim mesma voltar a ler mais, porque me deste saudade de me apaixonar por histórias! Ah! E vou roubar a hashtag, a par da outra que usaste no outro dia! :P
    Os noodles... eu não sou fã de tofu, mas isso está com um aspeto tão bom que, se calhar, era desta que me conquistava!
    Beijo!

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    1. Em relação ao tofu, devo dizer-te que partilho da tua opinião. Aquilo não me sabe a nada, mas tem tantas aplicações que me obrigo a comprar um pacote pelo menos uma vez por mês para o utilizar em receitas diferentes. Devo dizer-te que desta vez fiquei muito satisfeita com o resultado, provavelmente uma combinação da marinada com o facto de ter sido grelhado: ganhou um sabor cítrico muito agradável e crocante. Resumindo, não desistas do tofu!... mas também não desistas das leituras! Eu leio muito por obrigação durante o dia e chego à noite sem vontade de pegar em mais nada, mas com alguma disciplina (e sorte na escolha dos títulos) acaba por se recuperar um hábito muito saudável.
      Beijinhos

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  2. Adorei a tua dissertação sobre livros (para variar...), identifico-me tanto com o que dizes :)
    Ah e fartei-me de rir sobre a hashtag #raposo, lolol, sinceramente não percebo a algazarra toda em redor do livro...
    ah e claro, noodles e tofu... perfeito ...
    beijinhos
    sara

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    1. Eu tenho de ver o tal programa da SIC Radical se o encontrar por aí para perceber a razão de tanta celeuma... Certamente que do livro não se pode retirar tanto ódio! A não ser que não o leiam e andem a repetir o que ouvem dizer de quem apenas viu o programa.
      Tu és fã de tofu, contigo não preciso de argumentar a favor dele! ;)
      Beijinhos e boas leituras!

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  3. Gostei de ler o que lês. Eu antes lia imenso, mas fui dando prevalência a calhamaços de veterinária e a livros de culinária. Mas de facto volta e meia há um livro que me diz algo e me prende, alguns escritores portugueses têm esse efeito em mim.
    O próximo a ler é o da corrida, comecei mas prefiro mesmo ler em livro e vou ver se o compro. Tenho pena que o tempo me roube tanta coisa que gosto de fazer.
    E adorei os noodles, adoro tofu e espargos!
    Um beijinho e boas hashtags.

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    1. Eu também lia imenso, agora tenho de me socorrer destas estratégias. Às vezes resultam melhor do que outras e também convém ter sorte no livro que calha estarmos a ler (o que tenho agora em mãos está a dar-me cabo das estatísticas... embirrei com o protagonista!). De certeza que encontras o livro do Murakami em qualquer livraria e depois vais ver que não consegues largá-lo como eu. Beijinho

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