Food for thought?


Acho que já expressei aqui muitas vezes o meu ódio intrínseco por modas, manadas, rebanhos. Custa-me sempre assistir à ausência de auto-crítica, de originalidade e, pior, quando isso gera lucros e dividendos, fico realmente incomodada. Sou da opinião que devemos cultivar o que temos de nosso e de único. A necessidade que muitas pessoas sentem em integrar-se numa multidão leva-me a questionar o porquê de haver quem prefira diluir-se no anonimato, quando mesmo os defeitos podem ser mais interessantes do que um falso sorriso branqueado. A carência de auto-reflexão, mesmo que esta nos encaminhe para o nosso lado menos polido, parece-me mais louvável do que o desperdício de energia em manter algo que não nos cabe ser. Prefiro aqueles que não têm receio de se olhar ao espelho, mesmo que possam não gostar do que vêem, do que os que me vendem a imagem retocada da perfeição. 

No entanto, somos todos filhos do nosso tempo. Por muito que me incomodem modas alimentares - e outras -, mais ou menos comprovadas cientificamente e as peregrinações rituais de quem as segue, atrás do profeta, em direcção à luz (do frigorífico, na maioria das vezes...), não posso negar que lhes seja completamente imune. Um dos meus principais pecados* é, sem dúvida, a vontade de experimentar ingredientes diferentes, combinações inusitadas, o quente e o frio, o doce e o salgado, e porque sou uma lady, as sobras requentadas no dia seguinte. Foi graças a esta minha curiosidade que as tapiocas, o kamut, a espelta, a farinha de côco, a abóbora hokkaido, o matcha e tantos outros nomes esquisitos entraram na minha vida. Mas, como li recentemente num artigo muito interessante que me levou a reflectir um pouco mais sobre estas silver bullets da saúde que apelidamos de "Super Alimentos", realmente a maior moda nos dias de hoje é ser diferente. Comer de uma maneira exótica, destacarmo-nos na nossa singularidade, darmos palmadinhas nas nossas costas milenares por termos uma despensa cheia de ingredientes impronunciáveis que nos elevam a estrelas do lifestyle e transportam os nossos seguidores no instagram para valores astronómicos.

Comer super alimentos, encher o prato de ingredientes de diferentes latitudes, subtilmente também introduz a ideia de que podemos adquiri-los e, muitas vezes, estes não são assim tão baratos quanto isso... Existem, obviamente, excepções. Não só há uma maior presença de produtos, dito, saudáveis, nas prateleiras de qualquer supermercado a preços bem mais simpáticos, muitas vezes também ocorre substituirmos ingredientes por outros. Podemos ainda comprar a granel, aproveitar promoções para experimentarmos novidades, optar por cabazes de hortofrutícolas biológicos entregues em casa ou comprar directamente aos produtores. No entanto, como diz a mãe de uma amiga minha, o verdadeiro luxo é poder ir ao supermercado sem ter de olhar para o preço dos produtos. Mas isso, claro, também se paga, de uma maneira ou de outra.

E após esta eloquente mea culpa, digo-vos que sou uma maldita hipster a comer. Quanto mais diferente, melhor. Outro dia perguntaram-me onde tinha ido às compras (quando interrompo o meu trabalho e saio para as minhas voltinhas a pé aproveito para comprar várias coisas de cada vez, o que implica aparecer em todo o lado carregada como uma mula) e a minha resposta foi "Aproveitei para conhecer um novo supermercado de produtos biológicos que abriu aqui perto!". Que isto não vos induza em erro: continuo a adorar o iogurte grego do LIDL, as bolachas de sementes do ALDI e os coentros da mercearia dos bangladechianos atrás de minha casa. Não sou assim tão chique...

Gosto realmente de sair da minha zona de conforto no que diz respeito à alimentação, de experimentar receitas com ingredientes novos, embora isso não signifique que seja tentada por todo o tipo de pratos e alimentos. Todavia, há outros a que não resisto a, pelo menos uma vez, os trazer para casa e experimentar. Retiro realmente prazer em passear pelas filas dos novos supermercados que agora surgem como cogumelos nas ruas finas de Lisboa, muitas vezes demorando-me a ler os nomes dos produtos, a inspeccionar a sua riqueza nutricional, chamando assim a atenção daqueles seguranças extremosos que não tiram o olho de cima de mim. Já estive para enxotar uns quantos com pacotes de sementes de chia, mas achei que não valia a pena dar trabalho à senhora da limpeza.

Embora o que para uns possa parecer estranho na receita abaixo - farinha de grão de bico, farinha de araruta, levedura de cerveja... -, para outros são presenças familiares nas suas despensas. Algumas destas novas aquisições tornaram-se veteranas na minha cozinha, outros entraram e não há maneira de sair (não tem nada a ver, mas alguém quer um pacote de proteína - intragável - de ervilha, cânhamo e arroz?!). Apesar das modas, das correntes e do falso exotismo, penso que há sempre alguma coisa boa a retirar, se soubermos escolher aquilo que nos valoriza e não aquilo que nos apaga. Podemos comer como hipsters, querermos ser diferentes (embora esta também seja uma moda) e mesmo assim não nos perdermos por completo. É que para mim não há verdade maior do que esta: "Only dead fish go with the flow."



*FULL DISCLOSURE: O meu maior pecado é, na realidade, a GULA!! 


Mini-Quiches de Legumes


receita adaptada de Divine Healthy Food, sugerida pelo Universo dos Alimentos 

1 1/2 cup de caldo de legumes caseiro
1 1/2 cups de farinha de grão de bico
1 cup de ramos de brócolos
1 cup de cenoura, cortada em rodelas
1 cup de alho francês, cortado em rodelas
2 colheres de sopa de levedura de cerveja em pó
1 colher de sopa de farinha de linhaça castanha
2 colheres de sopa de farinha de araruta
2 colheres de sopa de vinho branco
2 colheres de sopa de azeite
1 colher de sopa de cebola em pó
2 colheres de sopa de óregãos
2 colheres de sopa de molho de soja
1 colher de sopa de salsa seca
1 colher de chá de paprika fumada
1 colher de chá de flocos de piri piri piri
sementes de girassol qb, para salpicar

Começar por lavar bem os legumes e cozê-los ao vapor (convém que não fiquem moles). Ligar o forno nos 180º e preparar as formas de muffins. Misturar todos os ingredientes numa tigela grande, adicionando o caldo aos poucos enquanto se mexe para que absorva o líquido aos poucos. Colocar bocados de massa nas formas, salpicar com sementes de girassol e levar ao forno cerca de 30m ou até que estejam bem cozidos.

Comments

  1. Nunca usei farinha de araruta, os restantes ingredientes agradam-me
    Acho que ia ser um otimo almoço.

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    1. é um bom "espessante", à falta de palavra melhor...

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  2. Hipster foodie :) percebo bem o que dizes, e também eu sou curiosa.
    Adoro conhecer tudo o que seja diferente, que encontro não com muita facilidade como por aí em Lisboa, mas adoro quando vejo algo novo e tento experimentar.
    Olha a farinha de araruta curiosamente nunca encontrei. Há coisas que pego e quero levar comigo, mas depois penso, será mesmo que vou usar? e acabo por não trazer.
    Mas desde que tenho o blog noto que conheci muitas coisas, até a senhora da lojinha de produtos naturais cá da terra, conheceu a par comigo, e eu serei sempre para ela a "menina da quinoa".
    Acho que é bom experimentar de tudo, mesmo as coisas da moda, sem nos perdermos, e sem extremismos.
    Um beijinho.

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    1. eu aproveito muitas vezes promoções para trazer alguns ingredientes que não conheço. alguns vingam e volto a adquiri-los, como é o caso da farinha de grão de bico que adoro, mas há outros que ficam para lá esquecidos. tenho para ali um saquinho de farinha de amêndoa há que tempos que ainda nem abri... ;)

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  3. Li o post todo hoje de manhã, mas como voltei a adormecer não cheguei a comentar. Estou mesmooooooo cansada :( Bem, adorei!!! Indentifico-me bastante. Ser diferente a meu ver é bom e sempre interessante. Quando é genuíno, melhor ainda. E isto aplica-se a várias áreas da vida.
    Infelizmente é muito caro ter uma despensa chique com produtos "exóticos". Existem produtos em conta mas também convém cuscar de loja em loja, coisa que não tenho feito, porque estas pernas já não aguentam loool.
    Eu um dia adorava poder comprar apenas produtos orgânicos, sem olhar para o preço ihihih, mas está complicado :(
    Meeeesmo, o mal dessas lojas são os seguranças ou mesmo as funcionárias colas...OMG!Nem dá gosto cuscar os produtos!
    Esta receita realmente leva muitos produtos estranhos para a maioria. Sabes que mais, lembrei-me agora da tua despensa com os frasquinhos. Podias mostrar as tuas novas aquisições e organização? lol

    Beijinhoss

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    1. os meus frasquinhos multiplicam-se pela casa fora: desde a estufa com as plantinhas que começam a despontar, aos vazios nos armários, aos que coloco nas gavetas cheios de ingredientes impronunciáveis! :D o meu marido odeia de morte os meus frascos, diz que são uma praga, mas eu acho que são óptimos: ecológicos, reutilizáveis e fofinhos!!
      beijinho

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  4. Acabei de perceber que também sou um bocado hipster, mas tenho-me controlado um bocado, agora só compro quando sei que vou mesmo usar!! (Diz a rapariga que tem uma embalagem de wraps de arroz à mil anos por abrir na despensa.... damn you Martim Moniz!!)
    cá em casa não faltam farinha de grão, nem levedura, são coisas que já não acho nada estranhas, mas tu realmente compras coisas muito esquisitas! Matcha? Pfff... :P

    Olha eu fico com essa proteina indesejada! É assim tão horrível? Sempre podes fazer uns batidos disso ao marido quando ele se portar mal XD

    Beijooo*

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    1. eu também tento controlar-me mais, mas isso funciona melhor quando evito entrar em alguns sítios, caso contrário já sei que me perco. devias ter-me visto no outro dia a entrar na nova miosótis, que é um mundo de coisas bonitas!! eu dou-te a proteína, é um favor que me fazes. já tentei com sumo para disfarçar o sabor, mas não consigo mesmo. se gostares, é tua!
      beijinho

      ps - temos os mesmos wraps de arroz!!

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