O Cartel.


Quando a noite cai resgatamos a balança. A luz não se presta a estas medições. Grão a grão somamos a quantidade exacta, nem um grama a mais - não foi esse o combinado. Dividimos em frascos, em tempos esterilizados e hermeticamente fechados. Cada um tem direito à sua dose, mas apenas àquela. O tempo dos abusos ficou para trás.

Preparamos a seringa. Fazemos retroceder o êmbolo, evitando bolhas de ar. Descemos rapidamente -ainda não foi desta que acertámos na dose exacta. Voltamos a tentar. As mãos tremem, não estamos habituados, mas cedo conseguiremos fazê-lo de pulso firme. Nunca pensei um dia vir a afirmar isto, mas injectar é um processo. A anterior visão de uma agulha causava-me arrepios. Agora é um acto mecânico, necessário, que repetimos diariamente. Duas vezes ao dia. 

Distraímo-lo. Virado de costas, entretido a comer a dose racionada, nem dá pela agulha a entrar. Apanha-se uma prega, não se pensa muito no que se está a fazer, insere-se até sentir a barreira da pele, pressiona-se o êmbolo e já está. Custou mais o antes, prolonga-se o depois na angústia do que poderá ter corrido mal. 

Entre a administração das doses, suamos um pouco. Terá sido o suficiente? O sossego será normal, sinal do sucesso da operação ou prova de que abusámos? Será letargia ou contentamento? Uma soma de ambos? Não sabemos quanto será de menos, quanto será demais. Temos de começar a medir. Picar mais vezes, fazer sangrar, reduzir as gramas, subir o êmbolo. 

Por mais cuidados que tenhamos, há sempre riscos. Que tenhamos injectado mal. Que tenhamos aberto e infectado uma ferida. Que não esteja a resultar. Que não possamos sair de casa, deixá-lo sozinho, que a qualquer momento tenhamos de correr com ele para o hospital. Porque exagerámos com a seringa ou porque não lhe demos o suficiente.

E os dias seguem assim, desde o diagnóstico até à (eventual) remissão. Os horários são definidos pelo tipo de agulha a usar, quando e onde. Não sabemos o que o dia de amanhã nos trará, mas deitamos sempre a cabeça na almofada esperando acordar mais leves: nas rotinas, nas medições, nas inseguranças.

É duro ter um gato diabético.

Muffins de Alfarroba e Côco

receita adaptada de Cozinha Vegetariana Para Quem Quer Poupar de Gabriela Oliveira, p. 189

~ Ingredientes ~

1 cup de farinha de trigo
1/2 cup de farinha de trigo integral
1 colher de sopa de linhaça moída
2 colheres de sopa de farinha de alfarroba
1/2 cup de açúcar amarelo
1 pitada de sal
1 colher de sobremesa de fermento em pó
1 colher de café de bicarbonato de sódio
1 cup de leite de soja
1/2 cup de leite de côco
sumo e raspa de uma tângera

Ligar o forno nos 180º. Numa tigela grande juntar todos os ingredientes secos peneirados. Numa tigela à parte misturar com uma vara de arames os líquidos. Juntar os segundos aos primeiros, envolvendo-os apenas. Colocar a massa em formas de muffins e levar ao forno por 20m.



Comments

  1. devem estar cheios de sabor, devem ser bem apetitosos.


    O Cantinho dos Gulosos

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  2. E no meio da desgraceira, ainda me fizeste dar uma gargalhada :P só tu mesmo! Olha, ainda tens destes ou já os comeram todos? Só para saber se vou directa para casa ou se te toco à campainha! :P

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    1. oh pá, tem de ser... se não nos conseguirmos rir com isto, que será de nós cá em casa? já é a desgraceira que é... :p lamento, mas os muffins foram à vida num instante. eram realmente deliciosos, mal sentias o bacon! :p

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  3. Tadinho do gato, imagino que deve ser um sufoco. Espero que ele não seja gulosos e dado a comer comida de humanos, porque se for..esses queques são uma tentação!!
    Bjs

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    1. oh não, comida de humanos nem pensar. ele agora anda meio descompensado porque os níveis de glicémia ainda não regularizaram totalmente e tem-se tentado atirar ao nosso prato. primeiro ia roubando um bocado de leitão ao meu marido e hoje ao almoço queria um bocadinho do meu robalo!! haja paciência! :p

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  4. opah, que coisa... já tinha visto pelo Facebook que sangravas com o teu gato, mas não me apercebi que a "coisa" era assim mais prolongada. Pois, deve mesmo ser muito duro, para ti e para ele!
    Já esses muffins, não me parecem nada difíceis de fazer e nem de comer! :P
    Beijinhos

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    1. ah, pensavas que era uma sangria ritual? não, isto não é a guerra dos tronos! :p mas sim, basicamente pico-o a ele, pico-me a mim, as orelhas do gato já dão para por piercings em três sítios (ou um daqueles brincos que afastam os buracos das orelhas e que me dão vómitos quando vejo o outro lado da rua através do lóbulo de um estranho) e qualquer dia aproveito mas é para medir a minha glicémia...
      os muffins são realmente deliciosos, fofinhos e com aquele sabor achocolatado que a alfarroba tem, sem se tornar pesada. aliás, os livros da Gabriela Oliveira convertem qualquer um, tens de oferecer ao teu filho.
      beijo*

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  5. Não dramatizes, Maria. Se tivesse de o apanhar distraído para o açaimar sempre que tinhas de o injectar era bem pior :D :D (exactamente o que o nosso gigante nos obrigava a fazer!?) Um terror!
    Título e texto brutais!!! ;)
    E agora a sério, as melhoras para o miúdo.

    Bjinhos

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    1. oh meu deus! contei essa ao manel e ele só se ria. é que uma pessoa pensa que pior do que isto não fica e de repente ouvimos falar de um gigante açaimado para levar um injecção e começamos a sentir-nos afortunados. ele diz que o nível seguinte de complexidade é injectar um tigre e medir-lhe a glicémia! :))

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  6. Ohhh tadinho :(
    Fogo adoro os pratos :D

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    1. nem queiras saber, tem sido um filme... os pratos foram comprados em várias bancas da feira da ladra, mesmo aos preços que tu gostas: 50 centimos, 1 euro... viva as pechinchas!! :))

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  7. Tadinho,...
    Estes muffins ficaram bem gulosos,...
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    strawberrycandymoreira.blogspot.pt
    http://www.facebook.com/omeurefugioculinario

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    1. mas já está a recuperar! amanhã voltamos ao veterinário para reavaliar e estou confiante.
      beijinho

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  8. Sim...não é tarefa fácil um animal diabético...vai ficando automático com o tempo, mas é sempre uma preocupação.
    Realmente só uns muffins para acalmar a ansiedade da situação :D
    beijocas
    sara

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    1. sara, nem me digas nada... então este fim‑de‑semana decidimos fazer medições à glicémia várias vezes ao dia para avaliar a evolução da doença e não tenho mais do que picar o bicho, registar valores, administrar insulina, dar comida... daqui a pouco passa de gato a cobaia de laboratório sem darmos por isso.
      acho que estes muffins podiam entrar nos teus saborosos lanches! :)
      beijinho

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  9. Curvas de glicémia à parte, sei como doi vermos os nossos animais doentes.
    E como pode ser dificil, mas adoro que ele tenha uns bons donos, e isso é meio caminho andado para que tudo corra bem! Ninja!!
    Dá cá um queque que eu estou mesmo a precisar.
    Um beijinho.

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    1. Eu ainda acho que havemos de ter o nosso blogue em conjunto com o sugestivo nome "Curvas de Glicémia". Um dia publicamos um bolo cheio de açúcar, noutro um sumo detox. Assim para equilibrarmos a coisa, senão não há curvas, só picos! :p
      E por falar em precisar de queques, não te esqueças de comer! Apesar de ser a famosa Ninja da Insulina (quase tão popular como o Ninja das Caldas), não consigo chegar aí a tempo de te enfiar uma colher de mel na boca!!
      Beijinho

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