Nós por cá.


Desculpem a ausência, sim? Apesar de ter retomado o blogue privilegiando a qualidade à quantidade (como aliás se nota numa das imagens abaixo onde surge uma panqueca semi-comida) e sem abrir espaço para grandes promessas eleitorais, já sabemos que aqui é o povo quem mais ordena, e não eu, esta pequena ditadora de metro e meio. Por isso, se sinto que estou a falhar na atenção que vos dou, nas receitas que aqui lanço e que vos engordam só de olhar, é porque provavelmente estarei. Assim segue uma mea culpa com uma pequena descrição do que nos tem ocupado os dias ultimamente e que, espero, ajude a que perdoem a minha falta de comparência.

Diz a infopedia e muito bem que a definição de ausência corresponde à não comparência em algum lugar. Eu, como sou uma optimista e vejo o copo sempre cheio (preferencialmente de vinho), advogo que a não comparência aqui se justifica por uma presença noutro lugar e não a um esquecimento pleno, o que retira parte da sua carga negativa. Então e em que lugar estiveste tu? Ora, já fui duas vezes à Feira do Livro. Uma com a Veggie Police Not Guilty Pleasure para assistirmos a dois workshops de culinária vegetariana: primeiro ao da Gabriela Oliveira e depois ao dos autores do blogue Green Kitchen Stories. Parece que esteve lá meio mundo que se preze, mas eu curiosamente não reconheci ninguém. Depois voltei à feira numa visita de médico a caminho de casa e aproveitei para comer o Frozz da praxe. Ainda não comprei livro nenhum e as minhas visitas prenderam-se essencialmente com o acto de cozinhar e comer, o que é sempre positivo, especialmente se tivermos em conta que livros é algo que não me falta em casa e a fome é eterna.

Entretanto novidades do meu gato. Parece que a situação da diabetes está a começar a evidenciar alguma evolução positiva, o que por outro lado, paradoxalmente, nos obriga a um compromisso ainda maior com a terapêutica (nomeadamente, picá-lo para medir a glicémia pelo menos duas vezes ao dia e a partir daí ajustar a dose de insulina) e a um grau de alerta acrescido em relação a uma eventual hipoglicémia. Também ocorre que nunca mais tenha dormido para além das 7h da manhã, altura em que começa o ritual diabético e que não se compadece de domingos nem de feriados, o que significa também que às 22h já estou mais para lá do que para cá. Entre meia hora e quarenta e cinco minutos depois já estou com a cabeça tombada na almofada, após uma aprazível leitura deste livro ou, quando estou mesmo já com os fusíveis fundidos, nada que dois episódios de 20 minutos de uma sitcom qualquer não resolvam.

Curiosamente o ritual diário da diabetes não se esgota nas quatro vezes em que espeto uma agulha no meu felino mais velho. Para melhor controlar a ingestão de hidratos de carbono mudámos a alimentação do Che, a qual é agora parcialmente garantida por um dispositivo automático. Por outras palavras, adquirimos um comedouro com quatro compartimentos onde podemos antecipadamente guardar a sua ração já pesada e que abre à hora marcada ao som de uma gravação com a minha voz. Isto significa que a minha rotina se assemelha cada vez mais à do gato. Agora não só durmo quando ele dorme, como como quando ele come. Às 7h ele acorda, medimos-lhe a glicémia, damos-lhe a injecção, tomamos o pequeno almoço. Às 13h o comedouro abre-se com um barulho característico e lá vai ele a correr. Aí eu também sei que são horas de almoçar e salto da frente do computador para me alimentar. Às 19h medimo-lo novamente, injectamos-lhe a quantidade correcta de insulina e começo a preparar o jantar. Às 22h ela abre novamente mas aí o meu reflexo pavloviano indica-me que não é hora de comer, mas sim de dormir. Portanto, quando penso que minha vida não podia ser mais patética, ela ainda consegue surpreender-me.

No meio disto tudo - eu disse-vos que sou uma optimista! - e na obrigatoriedade de me manter num raio de poucos metros do meu filho mais velho, aproveito para ressuscitar a minha velha amiga: a TESE. Depois de alguns anos em que achei que o ideal era entrar no mercado de trabalho - porque havia contas da água para pagar e comida para por na mesa, reflexo desses hábitos burgueses da higiene e da alimentação que nos subjugam -, lá cheguei à conclusão que devia andar a fazer tudo mal em termos laborais porque só me afundava mais em compromissos e menos retorno via. Eu até gostava de vos dizer que investi na minha carreira e que anos e anos de estudo e investigação deram finalmente os seus frutos, mas não. Falsos recibos verdes entre outras trafulhices que há sempre alguém desesperado para aceitar, conheci de tudo um pouco. Aliás, ando a magicar no rascunho de uma publicação muito interessante sobre a minha experiência no mercado de trabalho. Até já tem título: "Arbeit macht frei". Mi aguardem!

Até lá, e como tentativa de pedido de desculpa, aqui têm uma receita super fácil de panquecas para vos animar o dia e ajudar a entrar mais suavemente no fim de semana.



Panquecas de farinha de castanha e polvilho



160ml claras

3 colheres de sopa de farinha de castanha

3 colheres de sopa de polvilho doce

1 colher de chá de óleo de coco
1 colher de sopa de farinha de linhaça
1 colher de chá de fermento 
3 colheres de sopa de leite vegetal (usei de arroz integral)



Misturar todos os ingredientes na liquidificadora. Aquecer uma frigideira pequena anti-aderente e aí colocar uma concha da massa. Virar quando surgirem bolhas na panqueca. Servir com doce de mirtilo sem açúcar e polvilhadas com sementes de cânhamo.  Rende duas panquecas altas. 





Comments

  1. Eu adoro essa tua capacidade de ironizar a tua vida, mesmo nos momentos mais difíceis! E olha que eu sei que isso de ter um filho felino com tantos cuidados médicos e preocupação é um momento bem difícil! Quanto ao resto, olha... não sei se o trabalho liberta (depende do trabalho e do que entendes por liberdade), mas garanto-te que estava a ler o teu texto e a pensar: ela devia era escrever. :P
    Já as panquecas são sempre bem vindas!
    Beijinhos

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    1. Eu tento ver o lado bom. Se estivesse sempre a queixar-me - não que o que escrevi não seja uma lamúria -, acho que afastava toda a gente e para conseguir esse efeito basta não usar desodorizante. Não vou fazê-lo com palavras também. Enquanto conseguir brincar com as situações, é bom sinal. Quer dizer que vou conseguindo sobreviver a estes episódios que são francamente complicados. As melhoras do teu gatinho também... é tão difícil dar-lhes o apoio que precisam, mas no fundo são vidas que estão à nossa responsabilidade e só queremos que eles estejam bem e felizes.
      O trabalho a que me refiro liberta tanto como libertou os judeus em Auschwitz... :p
      Beijinhos

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  2. Sei que tens mais coisas na vida para além do blog (graças a Deus Nosso Senhor), mas promete que apareces de vez em quando para nos presentear com estes teus posts absolutamente deliciosos de se ler !!! Farinha de castanha, aí está uma coisa que nunca usei. Imaagino o sabor... só pode ser bom! :D beijinhos sara

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    1. Ahaha! Sim, tenho outras coisas, umas melhores do que outras. Mas o blogue não deixa de ser uma maneira engraçada de dar vida a todos estes pensamentos e a ironizar o que menos bom nos acontece.
      Farinha de castanha é deliciosa, penso que comprei na loja de produtos naturais ao lado da Espiral. Tem bastante fibra e um sabor ligeiramente adocicado. Foi a Ana do Cozinhar sem lactose que ma recomendou!
      Beijinhos

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  3. E quem precisa de uma vida perfeita?
    Sabe tão melhor que seja assim, mas que seja bem vivida e comida lol, e com companhia felina, com muitos gelados pelo meio (e panquecas também) e olharmos para ela e conseguir ver sempre um lado bom e até ironizar um pouco.
    Adoro farinha de castanha! Força nisso, e toca a escrever!
    Um beijinho.

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    1. Vidas perfeitas não há, e quando parecem que o são, pior ainda... Sim, a ironia lá me vai safando, caso contrário era uma tristeza com tanta pica cá por casa.. :)

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  4. Belas panquecas! Boa sorte com o horário diabético!

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    1. a introdução da farinha de castanha cá em casa é culpa tua! :p

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