Arbeit macht frei.


Nesta fase da vida em que me encontro actualmente e em que de certa maneira optei por não trabalhar, trabalho não me falta. Entre "empregos" mal pagos, precários, desvalorizantes, desmotivantes e desgastantes para os quais o mercado nos empurra, em que um bom currículo vale tanto como um rolo da Renova, em que nos oferecem uns trocos para investirmos nos projectos de terceiros e se não aceitarmos "deves pensar que és muita boa, não precisas de trabalhar é o que é"... Em que o valor do trabalho, a dedicação e o esforço raramente são recompensados, em que a moeda de troca são promessas vazias e a certeza de que há sempre alguém lá fora que não tem possibilidade de recusar propostas humilhantes... Em que as pessoas com quem me cruzo que gozam de alguma "estabilidade" são as mais desprovidas de vida própria, de uma falta de auto-estima radical manipulada para alimentar os sonhos dos outros, que carregam em si projectos continuamente adiados e um rol de dívidas... Em que se assume que é normal, numa entrevista de trabalho, atirar com um "só faço contrato ao fim de seis meses, ou precisa mesmo?", "mas você não tem contas para pagar?", "eu só conto com pessoas a 100%"... Há sempre resposta para estas questões: "sim, preciso mesmo e isso é ilegal: já ouviu falar em período experimental?", "sim, tenho contas para pagar, mas o que me oferece não chega nem para o bilhete de volta a casa", "então se quer pessoas a 100%, porque paga apenas 20% do que elas merecem?". 

Cansei-me. Ao contrário de tanta gente que eu gostaria que pudesse fazer o mesmo, prefiro investir em mim, valorizar-me a mim, escolho-me a mim. E isso implicou investir na minha família quando ela precisou, na minha tese que é o degrau de uma escada que passou por entrar na faculdade com média de 18, acabar a faculdade com direito a uma bolsa de mérito, a um mestrado em Cambridge e a uma pós-graduação em horário pós-laboral enquanto fazia investigação para o doutoramento em full time. Lá porque o mercado não reconhece e se aproveita da fragilidade em que este país se encontra, não quer dizer que eu tenha feito todo este investimento em vão. Já questionei tantas vezes as minhas escolhas, já me desviei do meu caminho tantas vezes, já duvidei tanto de mim. Mas não vou deixar que mais ninguém alimente este monstro: nem os sonhos dos outros, nem as minhas incertezas. É pôr um ponto final nas hesitações e dar o passo em frente, subir o último degrau para do topo poder, finalmente, ter uma visão do que o futuro me pode reservar.

Mas precisei de ajuda. Preciso sempre de construir as minhas próprias bases, os meus alicerces e de os edificar com cuidado para que não se desmoronem e se tornem inquebráveis. Afastar-me do que e de quem não me valoriza, cortar com dependências, perceber que é caminhando, um pé em frente ao outro, que chego lá. Que mesmo não vendo o final, não devo perder a esperança. É educar a mente e o corpo para que eles respondam como quero e quando quero. 

Partilho convosco três dos meus maiores aliados nestes longos dias sozinha em que me sento em frente ao computador, escavando por entre as minhas dúvidas, na companhia de três gatos, procurando trazer ao mundo algo que ainda não existe, evitando comparar-me com terceiros mas apenas com a pessoa que era ontem. 

Meditação. Tive a sorte de encontrar um site chamado Headspace da autoria de Andy Puddicombe (Inês, o nosso guru!), especialista em mindfulness, um conceito na moda que merece a nossa atenção. A prática diária da meditação ajuda-me a estar mais presente, atenta, a aceitar, a abdicar do controlo e a cortar os nós em que às vezes a minha mente se enrola. E quando conseguir meditar sem me deixar afectar por uma gata a caçar moscas à minha volta, então ascenderei finalmente ao nirvana.

Exercício físico. No ano passado comecei a correr e só isso merece um post que ando a adiar há algum tempo. Durante anos nunca gostei de fazer exercício, nunca encontrei nenhum com que me identificasse e cedo desistia. Ainda hoje não aprecio ginásios e o seu ambiente estéril e simultaneamente demasiado populado. O culto do corpo, as imagens reflectidas nos espelhos, o mito de Narciso... Correr, alcançar objetivos por metas, sair de casa por uma hora para respirar o ar puro e encontrar toda uma comunidade que se mantém fiel a este compromisso, sincronizar pernas com mente... Não há nada melhor e mudou radicalmente a minha vida! Para além de correr, gosto muito dos exercícios da Sophie Gray que podem encontrar no site Way of Gray. Recomendo vivamente, são fáceis, não nos tiram mais do que 30-45m por dia e altamente eficazes. Nos dias a seguir aos treinos ando sempre dorida e tenho visto nascer em mim músculos que nem sabia que existiam. Além disso o pack inicial é baratíssimo e vem com uma série de receitas vegan, por isso digam que vão da minha parte. Nota: não há qualquer parceria ou desconto, era só uma opinião sincera acompanhada de uma piada inocente.

Ler. Ler, ler muito, ler todos os dias obras diferentes, ler em português, em inglês, dois livros ao mesmo tempo. Estar a meio de uma obra e já a pensar no que vou ler a seguir. Alimentar a parte criativa do meu cérebro que me permite viajar nestes dias em que passo tantas horas sem descruzar as pernas em frente à secretária. 

Comer também é bom, cozinhar ainda melhor, encher o caderno de receitas a experimentar, procurar ingredientes novos e usá-los em receitas como esta, então é capaz de ser a cereja no topo do bolo que ando a construir, camada a camada. 


Mousse de morango e mirtilo


receita adaptada do livro Nem acredito que é saudável, p. 140

200g morangos
200g de mirtilos
3 colheres de sopa de geleia de arroz
2 colheres de chá de flocos de ágar-ágar
200g de tofu suave

Lavar e arranjar os morangos, bem como os mirtilos. Colocá-los num tacho pequenino com a geleia de arroz e reduzir em lume baixo até que a fruta se desfaça. Adicionar os flocos de ágar-ágar mexendo bem mais uns minutos. Seguidamente colocar esta mistura num robot de cozinha com o tofu. Misturar bem e depois colocar em três pequenos ramequins. Levar ao frigorífico até que fiquem bem firmes.


Comments

  1. Adorei ler-te como sempre aliás. Vou levar ensinamentos para mim das tuas palavras, porque hoje não quero a receita e sim as tuas palavras! beijinho e muita sorte para o futuro brilhante que vais ter de certeza!

    ReplyDelete
    Replies
    1. oh carla que palavras queridas! obrigada! volta sempre, pelas receitas, pelo que for. :) beijinho

      Delete
  2. Admiro-te pela coragem que tens em te respeitares, por te valorizares e bateres o pé e dizeres "chega! Não quero fazer parte desta loucura toda!" É inspirador encontrar alguém assim! Pff não te desvies desta tua decisão, é a correcta, a mais saudável!
    Ah, e adorei a escolha de receita para esta temática. :) É das minhas receitas preferidas do livro :)
    Obrigado por seres uma inspiração! beijinhos

    ReplyDelete
    Replies
    1. Obrigada, Sara! Sabes que já tive de tomar este tipo de decisão mais do que uma vez e via as pessoas que se resignavam às situações em que estavam com alguma inveja. Por muitas vezes duvidei que estivesse a tomar a decisão correcta, porque largar tudo e investir na réstia de esperança que toda uma conjuntura mal me permite alimentar, é realmente difícil. Mas com o tempo fui percebendo que seria muito mais infeliz se tivesse ficado e que não me cabe a mim dar lições de moral a ninguém. Vou dando o exemplo, e quando os outros estiverem preparados, hão-de chegar por si às conclusões mais acertadas.
      Adorei a mousse e o meu marido também, e ele torce o nariz a morangos e mirtilos. Já sem falar que não lhe contei que tinha tofu, senão acho que nesta versão não experimentava sequer.
      Tu é que és uma inspiração e esse teu livro ainda mais! Estou a adorar, volto sempre a visitá-lo!
      Beijinho

      Delete
  3. Que bom que é ler-te assim, cheia de entusiasmo, energia e em que te escolhes a ti!
    Gosto muito dos teus aliados, revejo-me em algumas coisas, na meditação com o nosso guru, nas caminhadas pela natureza, nas leituras, nos cozinhados e nos gatos, boas companhias.
    E esta mousse inspirada na da Sara, tem uma cor linda, deve ser deliciosa!! Preciso mesmo de encontrar o tofu sedoso. E colocar o livro da Sara em prática.
    Um beijinho.

    ReplyDelete

Post a Comment

Popular Posts