Don't ask, don't tell.

Eu e o meu marido temos algumas discussões recorrentes. Chamemos-lhes antes "temas que debatemos com mais frequência do que outros". Em primeiro lugar está certamente a saúde do meu gato mais velho, porque é dos problemas que mais atenção, compromisso e empenho requer da nossa parte. Em segundo lugar falamos das refeições cá em casa, especialmente quando ainda nem almoçámos e eu já lhe estou a perguntar o que quer que tire para o jantar. "Mas ainda nem acabei o pequeno almoço, já queres que pense no jantar? Sei lá, faz qualquer coisa." Imagino que este cenário se repita em vários lares portugueses, debatido até à exaustão ou até que um deles se canse e comece a cozinhar só para si, o que para uma certa pessoa que eu cá sei era capaz de funcionar muito bem porque nem sabe estrelar um ovo, quanto mais fazer uma omelete sem ovos... 

Outro tema que debatemos com frequência diz respeito ao nível de envolvimento que cada um de nós considera aceitável na vida de terceiros. Toda a gente fala de toda a gente nas costas. É importante reter este pormenor: toda a gente fala de toda a gente. Não quer dizer necessariamente que falemos mal ou bem, podemos simplesmente comentar e muitas vezes esse comentário carrega em si também algum tipo de juízo de valor. Não vale a pena negar. Eu pensava que apenas as más pessoas faziam isso e incomodava-me sobremaneira. Para mim existiam dois tipos de pessoas: aquelas com quem me dou e aquelas com quem não me dou. Aquelas com quem me dou não eram alvo de comentários, quanto às outras valia tudo menos arrancar olhos. Até que comecei a assumir para mim mesma que esta estratégia não funciona. Às vezes comentamos e isso não é necessariamente mau, significa que vivemos em sociedade. Não temos necessariamente de odiar aquela pessoa para falar mal dela, há pessoas com quem nos damos, as quais, por vezes e por muito boas que sejam, nem sempre se comportam da maneira que gostaríamos (ou com a qual nos identificamos) e está tudo bem! Como somos todos humanos, podemos errar, opinar e pedir desculpa. O que não podemos é fechar a porta atrás de nós e comentar imediatamente "nem morta me apanhavam com aquelas botas!" ou "já me viste bem que cor escolheram para os azulejos da casa de banho?!".

Na mesma medida, atirar tudo à cara nem sempre funciona como gostaríamos. Conheço algumas pessoas que abusam neste aspecto. "Ai eu cá sou muito frontal!" Acham-se o máximo porque atiram à cara dos outros alarvidades - porque não são outra coisa que não isto - apenas porque se sentem no direito de fazê-lo. Amiga, tu não és directa nem honesta. Tu és malcriada. Capisce?

O meu marido é um grande adepto da estratégia "don't ask, don't tell". Os outros têm problemas, claro, como toda a gente, mas isso não significa que valha a pena aprofundar esses temas. Na perspectiva dele, podemos estar com este ou aquele, saber que atrás deles se senta confortavelmente um grande elefante, e vai daí ignoramo-lo olimpicamente. Ora, comigo esta estratégia funciona muito mal. Eles falam e eu só oiço o elefante a pedir moedas para tocar o sino, a abanar a tromba tentando chamar a minha atenção e até o tratador me grita da cerca "Ei, vais dar cinco cêntimos ao elefante ou vais ficar aí especada a olhar para nós? A sineta não se toca sozinha!!".

Como é óbvio que não consigo evitar. Existe, na minha maneira de ver as coisas, duas maneiras de abordar os problemas (não sei se já perceberam a minha tendência para os binómios, a começar no branco/preto e a terminar no certo/errado, sem direito a áreas cinzentas): podemos estar para os outros a 100% ou não vale a pena estarmos para eles de todo. Sim, sou muito exigente com os outros, muito mais comigo e conto com este tipo de respeito por parte de quem me rodeia. Se vejo um amigo meu sucessivamente a cometer o mesmo erro, não vou deixá-lo coabitar com um paquiderme num T1. Vou dizer-lhe alguma coisa. E com isto não quer dizer que seja intransigente ou que lhe vá dar uma lição de moral, mas sinto que devo estar presente, disponível se precisar de mim e se isso envolver ajudar a abrir os olhos, melhor. Ignorar para mim não é solução.

Como já me aconteceu recentemente com um amigo que decidiu começar a cortar atalhos naquilo que sempre foi o seu sonho de vida, eu comentei que não concordava. Achei e continuo achar que ele podia fazer mais, que merecia melhor. E se para abrir os olhos necessitava de alguém que lho dissesse cara a cara, esse alguém sou eu. E agora que penso nisso, quero acreditar que ele também sabia que não estava a agir correctamente, caso contrário não teria abordado o tema na minha presença. Não contem comigo "para aceitar o que os outros têm para me dar"; se os outros podem e devem fazer melhor, é para mim um sinal de respeito e de amor para com aquela pessoa participar um pouco mais do que simplesmente deixá-la a navegar à deriva. Claro que, como aconteceu recentemente, vi pessoas afastarem-se de mim não porque não me valorizavam - como inicialmente pensei - mas porque preferiam continuar em negação. Também não vou correr atrás, cada um tem o seu caminho. Pena que este, agora, seja para estas mesmas pessoas um beco sem saída.

Now you wish I could have told you so...

Nunca me esqueço de uma situação de trabalho desagradável que vivi recentemente. Uma clara falta de respeito em relação a mim e a outras colegas que éramos presenteadas com um tratamento completamente distinto de outras pessoas que naquele local gozavam de um full time e de um contrato. Nós aparecíamos lá apenas para tapar buracos e éramos pagas em trocos, sendo, como tal, tratadas como "visitas incómodas". Uma amiga disse-me "Mas tu admites isso?" e na altura pensei "Mas que raio tem ela a ver com aquilo que eu admito ou não? É a minha vida!". A verdade é que, se não tivesse havido essa chamada de atenção, provavelmente ainda estaria numa situação decadente e desrespeitosa com a qual nada me identificava a qual, certamente, não admitia mas que ainda não me tinha apercebido o quanto me incomodava. 

Por isso, obrigada Veggie Police, por seres o gatilho na minha vida em tantas decisões que me obrigam a exigir mais de mim, a seres exigente quando eu me esqueço de o ser, ajudando-me - muitas vezes sem saberes como - a ser uma pessoa melhor. Eu prometo que um dia largo o queijo, mas até lá tem paciência para as minhas idiossincrasias. Entretanto espero que gostes deste húmus cor de rosa. Eu sei que não és fã de beterraba, mas sabes como é... às vezes nem nós sabemos o que é o melhor para nós! ;)


Húmus de beterraba assada

receita adaptada do blogue Minimalist Baker

1 beterraba pequena assada 
1 1/2 cup de grão de bico cozido
raspa de um limão grande
sumo de meio limão grande
2 alhos
1 colher de chá de tahini
1/4 cup de azeite
coentros
1 pitada de sal marinho
pimenta de caiena qb
cominhos moídos qb
paprika fumada qb

Começar por preparar o grão de bico e a beterraba. Demolhar o grão durante 48h com uma folha de alga kombu, trocando a água pelo menos duas vezes ao dia. Cozer na panela de pressão por 45m. Em alternativa pode ser utilizado grão de bico de lata/frasco desde que devidamente lavado para escorrer o excesso de sódio. Envolver a beterraba em folha de alumínio e assar a 180º cerca de 45m ou até que esteja mole. Descascar quando tiver arrefecido completamente.
Num robot de cozinha colocar o grão de bico, a beterraba em pedaços, o alho, o sumo de limão e a sua raspa, os temperos, os coentros e o tahini. Bater bem e acrescentar o azeite em fio. Se ficar muito grosso o húmus, acrescentar um pouco de água. Servir com pão, palitos de cenoura ou de pepino.




Comments

  1. Como sempre "bebi" as tuas palavras. E mais houvesse para ler. Quando o texto acabou pensei: epá que chatice, estava a ser tão interessante. E ainda são 7:36 da manhã tinha tanto tempo. A receita é igualmente boa, beterraba aprende-se a gostar e faz bem à saúde. bjs e bom fim-de-semana.

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    1. obrigada carla! que comentário tão simpático me deixaste! a beterraba é um gosto adquirido, não cativa à primeira, mas até para os mais cépticos se for assada e misturada com bastantes especiarias e grão fica divinal! bjs

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  2. Abordaste muitos assuntos e eu vou dizer-te apenas que um bom conselho é sempre bem vindo que foi o que a Veggie Police te acabou por dar. A vida pode não ser nossa mas para alguém que é humano dói ver alguém ser mal tratado, tratado como não merece. Beijinhos

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    1. sem dúvida e quando é alguém de quem gostamos, ainda custa mais ficar calada! bjs e bom fim‑de‑semana

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  3. Obrigado por iluminares o meu dia com o que escreves. Arrancas-me sempre um sorriso. Acho lindo teres dedicado este post à Patrícia, conheci-vos às duas e rapidamente se percebeu a vossa cumplicidade :)
    Mesmo que ela n goste de beterraba, duvido que resista a esse cor de rosa lindo!!!
    Beijinhos
    Sara

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    1. ela pelos vistos gosta, já viste que andou a enganar-me estes anos todos?! :p
      sim, a patricia é um doce de pessoa que me motiva imenso a comer melhor e, em certos aspectos, a ser uma pessoa melhor também.
      bjs

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  4. Adorei o texto, como sempre, mas não estava à espera do final, até fiquei de lagrima ao canto do olho!! ❤️ (Sim, eu também tenho sentimentos por humanos, não só por animais!).
    Tens razão, comentar a vida dos outros é daquelas coisas que ninguém pode dizer que nunca fez e muitas vezes até comentamos mais daqueles de quem gostamos, pois são esses que mais nos incomodam quando tomam atitudes que achamos despropositadas. Para mim isso não é sinal que és má pessoa, é sinal que te preocupas! Quando deixas de te preocupar, isso sim, para mim, é mau, significa que, afinal, aquela pessoa talvez não seja assim tão importante na tua vida... Portanto fazes muito bem em não ignorar os elefantes, já fizeste isso comigo várias vezes e em certas alturas precisamos desses empurrões para tomar coragem e mudar o que nos incomoda! Ainda bem que pude ajudar-te a fazê-lo! :)

    Esse húmmus parace maravilhoso e eu gosto de beterraba pah! ;) Excepto nos sumos, nisso tenham paciência, mas assim assadinha marcha que é uma maravilha! Vou experimentar e depois digo-te se gostei ou não! ;)

    BEIJO*

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    1. assada em chips também é óptima! tinha ideia que não gostavas de beterraba e agriões e que os coentros só na idade adulta entraram na tua vida... ando muito enganada acerca de ti, pelos vistos! :p
      não comecei a escrever a pensar em ti, simplesmente a coisa encaminhou-se para aí. dito de outra maneira, mas romântica e simpática, estás sempre no meu pensamento! lool!
      beijinhos e bom fim‑de‑semana

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