Smile and wave, boys.


Acho que não é surpresa para ninguém que leia o que escrevo que as últimas semanas têm sido particularmente complicadas por aqui. Às vezes quando o equilíbrio já é precário, se algum peso extra é adicionado aos já bambos pratos da balança, a queda parece mais acentuada. O valor que  conferimos aos percalços é extrapolado e a nossa capacidade de reagir fica reduzida a pó.

Com a quantidade de peso acumulada nos meus pratos, recentemente senti esse desequilíbrio de forma mais acentuada. E aí o meu instinto de lutar ou fugir fica ainda mais acentuado e consome-me. Tudo aquilo que eu sou, que posso trazer de bom a este mundo e a que possa hipoteticamente agarrar -me fica comprometido. E durante algum tempo perco o chão, mas também toda e qualquer energia para conseguir reencontrá-lo e reconstruí-lo. Existem algumas maneiras de combater esta tendência e necessito de me descolar de toda a inércia para voltar ao início sem sentir que fui novamente derrotada. É uma luta contra o meu pior inimigo, eu mesma, e o primeiro passo é o que mais custa a dar.

Eu acredito na capacidade que o corpo e a mente têm de se auto-regenerar, desde que sejamos capazes de lhe darmos as ferramentas para que o façam. Uma boa noite de sono, sem horas extra que comprometam o resultado final. Exercício físico para dispersar a energia mal canalizada. Alguns minutos de meditação por dia para trazer à superfície o que teimamos em reter em tensão. Uma alimentação adequada, nutritiva e rica. Se possível adicionar uma dose generosa de festas num gatinho, ouvindo o ronrom de quem nos ama incondicionalmente. As gargalhadas do meu sobrinho mais velho. O sorriso maroto do meu sobrinho mais novo. A felicidade das minhas irmãs e do meu irmão. O saber que eles são a minha família. Focar-me nas benções que tenho e não no caminho que ainda me falta percorrer. Não comparar o meu percurso com o de terceiros, mas celebrar as conquistas alheias enquanto trabalho para as minhas. Não me deixar ludibriar por vidas aparentemente perfeitas em comparação com a minha, na qual encontro tantos problemas e tão pouca energia para os combater. 

Segue uma receita saborosa de um livro que me foi oferecido por uma menina que também enriquece muito a minha vida. O mais engraçado é que recentemente nos encontrámos e tivemos um dos diálogos mais insólitos de sempre, em que eu jurava a pés juntos que o livro de onde retirei esta receita me foi oferecido por outra pessoa, que não aquela que estava à minha frente e me garantia que tinha sido ela. Tinha esta receita guardada nos rascunhos do blogue há umas semanas e não vejo altura melhor para publicá-la do que agora, depois de feita a devida apresentação. Só para verem que no meio de tanta coisa negativa, cinzenta e rotineira, há sempre algo que nos rouba uma gargalhada, seja uma conversa tola ou uma grande nódoa de chocolate na camisa, cortesia dos melhores gelados de Lisboa.

Smile and wave, boys. Smile and wave.



Hambúrgueres de feijão preto 

receita adaptada do livro Veganomicon, p. 98

2 cups de feijão preto cozido 
1/2 cup de farinha de glutén (ou farinha de grão de bico)
1/2 cup de broa ralada aromatizada (ou pão ralado)
1/4 de cebola grande
2 dentes de alho
folhas e caules de coentros
cominhos em pó
sal
1 colher de chá de pimenta moída açoreana (ou pasta de pimentão)
mistura de chili doce da Tiger (ou paprika)
2 colheres de sopa de azeite


No processador de alimentos picar bem os coentros (folhas e caules), cebola e os dentes de alho. Retirar do processador e refogar cerca de 5m numa frigideira com uma colher de sopa de azeite. Quem tiver Yammi como eu (ou Bimby ou outra maquineta que tal) pode programar 3m30s na temperatura 100º na velocidade 1. Quanto terminar, processar o feijão mas de maneira a que não fique totalmente desfeito. Adicionar os restantes ingredientes e envolver até que estejam uniformizados. Aquecer o restante azeite numa frigideira e moldar 6 hambúrgueres com as mãos, fritando-os de ambos os lados até que estejam douradinhos. Acompanhei com tagliatelli de arroz preto salteado com alho francês e uma tira de alga wakame. 

Comments

  1. Eu confirmo que foi a Inês que te deu esse livro pois lembro-me bem de ela dizer que to ia dar se ainda nao tivesses! :P
    Gosto muito dos teus mecanismo de coping, realmente é muito fácil pensar só nas nossas infelicidades, mas depois quando vemos mesmo à séria as coisas à nossa volta, afinal até temos muito com que sorrir e agradecer! :) (embora eu continue a ter dias que o que sabe mesmo bem é mandar tudo pra pqp!)
    Essa é uma das minhas receitas preferidas do Veganomicon :) mas com broa nunca fiz, que bela ideia a tua, tenho de experimentar!

    Beijinho*

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    1. sim, sem dúvida que foi ela, mas acredita que eu me fartei de insistir porque estava convencidíssima que tinhas sido tu! enfim, coisas que apenas eu faço! :p
      eu fiz com broa porque era o que tinha congelado em formato "pão ralado aromatizado".
      beijinhos

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  2. Reli-me em todas as tuas palavras...
    Há alturas na vida em que tudo parece desabar, em que somos puxadas acima do limite que seria possível aguentarmos. São fases, que por vezes não parecem fases pq já duram há demasiado tempo, que nos fazem crescer, que nos tornam mais fortes, mais calejadas e acima de tudo , são fases que nos mostram o que realmente é importante.
    E hambúrgueres de feijão preto são sempre bem vindos :), alegram qualquer fase má .
    Um abraço
    sara

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    1. às vezes é difícil criar esse distanciamento, especialmente se recebemos pancada atrás de pancada. nem dá tempo de uma pessoa se recuperar da primeira, quanto mais da segunda ou da terceira... mas sim, representar o papel da vítima não é de todo a solução. nem o diga porque há gente pior (que as há e melhor também!), mas porque nada de positivo traz à vida de ninguém.
      tenho sempre hambúrgueres vegetais congelados para uma emergência. estes lá estão também. é só levar a um frigideira com um fio de azeite e, sem descongelar, fritar na altura. deliciosos e práticos!!
      beijinhos

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  3. Parece que foi confirmado pela Patrícia, fui mesmo eu hehe.
    E sim, há tanta coisa tão boa que nos rodeia e que nos faz feliz.
    Que venham mais gargalhadas e mais nódoas com os melhores gelados de sempre!
    E hamburgers bons destes :) Beijinho.

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    1. deve ter sido daqueles momentos que melhor definem a minha falta de atenção, o que não deixa de ser curioso porque é raríssimo esquecer-me de alguma coisa. sabes o que te digo? esse dia foi cheio de emoções fortes (e os meses que o seguiram contribuíram para isso também) que eu acabei por perder alguns detalhes pelo meio, como o facto de ter recebido o livro das tuas mãos na mesma altura. sabes o que digo? smile and wave, boys! ;)

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