Hoje não há receita (3).


Quanto a vocês não sei, mas setembro cheira-me muito mais a ano novo do que janeiro. Eu sei que já vamos em outubro - não sou estúpida... - mas este ano o outono entrou tão quente nas nossas vidas que mal deu para sairmos do verão e entrarmos num clima mais ameno com direito às tradicionais trovoadas e chuvas. Agora sim. Hoje parece que finalmente nos vamos despedir de um dos verões mais quentes e dramáticos da minha vida, o qual me fartei de amaldiçoar desejando que chovesse a potes, mas sem sucesso. Aparentemente ainda não controlo a metereologia e, como tal, vi-me obrigada a fingir entusiasmo pelas temperaturas fora da média e os mergulhos de quem este ano foi à praia tirar selfies na areia. Entretanto lá pedi com tanta força que o calor passou e o outono está aí. Sempre me disseram que se desejasse algo ardentemente, isso concretizar-se-ia e a passagem das estações do ano é a prova disso. Portanto agora que estamos oficialmente no outono e que o facebook se vai inundar de conhecidos a queixar-se da humidade no cabelo, no calçado e no espírito, eu preparo-me para mergulhar numa das minha estações favoritas.

Gosto muito desta altura do ano. As cores são fantásticas. As vitrines enchem-se de cadernos prontos a ser desfolhados e de lápis acabados de afiar. Lembro-me sempre do filme "You've Got Mail" quando Tom Hanks faz um elogio a Nova Iorque no outono:

"Don't you love New York in the fall? It makes me wanna buy school supplies. I would send you a bouquet of newly sharpened pencils if I knew your name and address."

E depois vemos a Meg caminhar pelas ruas da cidade americana, aproveitando cada minuto, respirando o ar fresco, embrulhada no seu cachecol ao som dos Cranberries. E sabemos que é uma altura de renovação e de encontros felizes. 

Acho que Lisboa merecia o mesmo elogio. Nem tinha de ser meu, podia vir de qualquer pessoa que se desloque pela capital nos dias que correm e que consiga abstrair-se das obras e das manifestações. Alguém que consiga ver o lado bom da cidade, apesar das suas idiossincrasias, como nos esforçamos por fazer em relação a tudo na vida. É uma questão de atitude! Assim opto por passear na Avenida da Liberdade e olhar para as folhas em tons amarelos e laranja caídas no chão sem ousar pensar nas cheias que espreitam devido à falta de cuidado com este problema recorrente. Oiço a chuva a cair lá fora e nem me lembro do estado psicótico em que os condutores ficam ao avistar as primeiras pingas (pessoal, é água, não é lava!!). Idealizo que os transportes públicos funcionam bem e não que estão apinhados de potenciais agressores de guarda chuva em riste. As pessoas que não sabem circular de guarda chuva na mão são as minhas némesis. Para consulta futura, o guarda chuva não é para carregar espetado nem para cima nem para trás nem em direcção à vista de ninguém. É para baixo!! Deixo o aviso todos os anos, porém raramente alguém o escuta e o coloca em prática.

O outono é também a época do ano que nos obriga a arrumar. Arrumamos os sapatos, as roupas leves, o mobiliário de verão da varanda. Sabemos que é assim que tem de ser, caso contrário a estação engole-nos. Temos de nos adaptar: às manhãs frescas e às tardes ainda solarengas. Aos novos horários e rotinas. Às abóboras, às batatas doces, às sopas e aos chás. E às receitas que virão com estes ingredientes.

O final de outubro marca sempre uma altura de viragem para mim. Tem sido assim nos últimos anos, precisamente no mesmo dia. Velhos empregos, novos empregos, oportunidades, portas que se fecham e abrem, uma grande corrente de ar. Acaba por ser um pouco inevitável, quase como as estações do ano que eu gostaria de controlar e não controlo ao contrário de tantas outras coisas às quais ainda posso deitar a mão. Agora que me apercebo da tendência e não quero ser engolida pela corrente do tempo, resta saber como farei para o acompanhar. 



Comments

  1. Concordo contigo, é a minha altura favorita do ano :*

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  2. Concordo. O Outono tem um certo encanto e marca um novo ciclo. Acho que não é por acaso. É o fim do Verão e além disso coincide com uma herança mental do nosso subconsciente: já todos fizemos parte do "regresso à escola" desta altura do ano ... Voltar a ver os amigos da escola, abrir cadernos em branco, a cidade à chuva, não há nada de maldade em gostar do Outono.

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    1. daí a minha ideia do recomeço: voltávamos à escola e tudo reiniciava. que seja assim em vários aspectos da vida também.

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  3. Olha... das enumeradas humidade no cabelo, no calçado e no espírito, a que mais me afeta é mesmo a última. É que eu devo ter espírito de girassol e a privação prolongada do sol é trágica em mim! Se me querem ver a perder o sorriso, dêm-me mais de 3 dias cinzentos!
    E o tal dia de outono de todas as novidades, já foi? Está para breve? Vou querer saber tudinho!
    :P

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    1. oh tu és um girassol, já comprovei isso pessoalmente! ;) os dias cinzentos têm o seu encanto também, mas para quem atura trânsito e mal humorados crónicos, a escuridão destes dias custa mais a passar. ainda bem que há bolos deliciosos para compensar! as novidades chegarão em breve!! ;) bjo

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